Copa do Mundo 2014 Promessas não cumpridas põem em xeque o legado da Copa de 2014

Promessas não cumpridas põem em xeque o legado da Copa de 2014

Mudanças no cenário brasileiro deixaram em aberto o que poderá ocorrer após o Mundial

Promessas não cumpridas põe em xeque o legado da Copa de 2014

A Copa do Mundo de 2014 está mostrando ao mundo que o Brasil é um país em mutação. Bem ao estilo da obra "O Retrato de Dorian Gray", do escritor inglês Oscar Wilde, publicado em 1891. No enredo, um jovem cativante serve de modelo para um artista, que pinta seu rosto. A figura, no entanto, vai mudando de acordo com a vida fútil e cruel do retratado.

O Brasil que recebeu a notícia de que iria sediar a Copa era um: sedutor, cativante aos olhares dos europeus. Considerado inclusive, em 2009, pela The Economist, a potência emergente do globo, o que facilitou a escolha.

Sete anos depois, porém, a feição está modificada. O estilo rompedor do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi deixado de lado pela presidente Dilma Rousseff. Ricardo Teixeira, acuado por denúncias de corrupção, renunciou às presidências da CBF e do Comitê Organizador Local. O Morumbi, que seria palco da abertura, foi substituído pelo Itaquerão.

E, acima de tudo, o boom do crescimento econômico do Brasil perdeu a força e o país vê seu PIB crescer de maneira tímida. Das promessas faraônicas feitas no início, bem a o estilo da empolgação de Dorian Gray, a primeira não cumprida foi a de que não seriam utilizados recursos públicos na construção dos estádios.

Mesmo com as seguidas correções da presidente, afirmando que os financiamentos são empréstimos, houve utilização de verbas governamentais, já que a União e os municípios desembolsaram valores para investir nos projetos. O economista Francisco Faria Júnior, da consultoria LCA, os valores dos empréstimos deixam de ir para o caixa do governo.

—Nestes financiamentos, o governo pega o dinheiro emprestado da população e paga de volta com um juro maior do que o cobrado nos empréstimos para a construção dos estádios. Isso é uso do dinheiro público.

No dia da confirmação, uma espera de mais de cinco décadas se encerrou e foi motivo de júbilo em todo o país, que viu com orgulho a festa inusitada no auditório. A comitiva brasileira, formada, entre outros, pelo então presidente Lula, pelo ex-craque Romário e pelo escritor de best-sellers, Paulo Coelho, desalinhava os ternos e amassava as camisas ao pular abraçada, diante do palco, como se vibrasse com o mais importante gol da vida de cada um deles.

Sonho inicial
Os brasileiros se sentiram representados naquela comemoração. E mais, a cúpula da Fifa sentiu que acertara na escolha, mostrando admiração pelo estilo brasileiro, descontraído e sem protocolos, que tanto a irritaria posteriormente. Joseph Blatter foi o porta-voz da expectativa positiva em torno do Brasil.

- O país que produziu os melhores jogadores do planeta, que tem cinco títulos mundiais, terá o direito, mas também a responsabilidade, de sediar a Copa em 2014.

A crença vigente entre os brasileiros era de que, impulsionado pelo evento, o país iria atingir um padrão de primeiro mundo na questão de logística e de infraestrutura: empregos, estádios, fortalecimento da economia, modernização dos transportes, da vias e dos serviços públicos.

Passados quase sete anos, ainda não foi isso que se viu. Em muitos locais onde se esperava que tudo estivesse concluído, o cenário será o de um canteiro de obras, em que não se sabe ao certo como e quando serão encerradas.

Tudo o que foi prometido formou a base da Matriz de Responsabilidades do governo federal, criada em 2010, ou seja, já em um momento não tão distante da estreia do país na Copa.

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Esta largada tardia, alimentada pela burocracia e a letargia de algumas instituições, além de interesses políticos, contribuiu, sem dúvida, para que, conforme a Folha de S. Paulo informou no início de maio de 2014, apenas 41% das intervenções previstas para o Mundial estejam concluídas até o início da competição. Outras 53% ficarão para depois e o restante simplesmente foi abandonado e não irá se concretizar.

O problema mais grave, superior às suspeitas de superfaturamento, foram as mortes de dez operários em acidente durante a construção ou reforma dos estádios para a Copa. O Ministério Público garante que as investigações continuam para que se apure os responsáveis pela falta de segurança nos locais.

Em levantamento da Fifa, feito em 2007, o preço total dos estádios estava em R$ 2,8 bilhões. Em 2014, a própria Matriz de Responsabilidades, época de um crescimento frustrante em comparação ao que se esperava sete anos antes,  estima que os gastos girem em torno de R$ 8 bilhões. Deste total, apenas R$ 820 milhões vêm da iniciativa privada, segundo a Controladoria-Geral da União.

O próprio custo da Copa aumentou. Inicialmente eram previstos R$ 23,6 bilhões em gastos. Na última projeção da Matriz de Responsabilidade, o orçamento saltou para R$ 25,8 bilhões, com tendência a aumentar ainda mais. Faria Jr. prefere não se arriscar a apontar as causas deste aumento, mas lamenta o fato de isso se repetir no país.

— É verdade que os preços da construção civil subiram no período. Mas é algo recorrente no Brasil os aumentos em orçamentos de obras. É tradição que se tenha um preço inicial, que depois acaba estourando.

Financiamentos do BNDES se multiplicaram e foram determinantes para a aprovação das obras. Outros, como isenção de impostos, foram implantados para possibilitar obras como a Arena Corinthians, em São Paulo, que teve R$ 420 milhões custeados pela Prefeitura de São Paulo, em isenção de impostos. Para Faria Jr, o sonho da Copa se transformou em uma aventura arriscada.

— É como se tivéssemos uma casa sem o teto e colocássemos piso de mármore. É difícil se encontrar estudos que comprovem os benefícios econômicos que este evento irá trazer para o país. Como festa, tudo bem, mas não considero que fosse uma prioridade.

Promessas mutantes
E por todo o país, muitas promessas não foram cumpridas. Uma delas foi a construção do trem-bala que ligaria São Paulo ao Rio de Janeiro, adiada para depois de 2017. A então ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, garantiu que o projeto seria concluído até o início do Mundial, mas, até agora o leilão para a concessão do projeto foi adiado por três vezes.

Considerada uma das obras mais caras da Matriz, no valor de R$ 1,577 bilhões, o VLT, de Cuiabá, não ficará pronto antes do evento, conforme prometido. A maioria dos aeroportos está inacabada. Em Fortaleza, o aeroporto não ficará reformado a tempo, obrigando a colocação de uma lona provisória de R$ 3,5 milhões. Em Cuiabá também não haverá tempo hábil para concluir as obras até o início do Mundial.

A construção do Itaquerão só foi iniciada após o término do imbróglio envolvendo o estádio do Morumbi, o COL e a Fifa. Na época, o então presidente da CBF, Ricardo Teixeira, também presidente do COL, iniciou as negociações para que o estádio do São Paulo recebesse a abertura.

Como o clube não ofereceu as garantias à entidade, o projeto de construção do Itaquerão foi colocado em prática, mas de maneira tardia, comprometendo a conclusão da obra com mais margem de segurança.

Outras obras anteriormente prometidas não serão concluídas a tempo: as obras de reestruturação do sistema de Bondes de Santa Teresa, no Rio; o Centro de Treinamento de Cuiabá; a cobertura do Itaquerão; a ampliação do aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre;  o píer do Porto do Rio; o metrô de Porto Alegre; o projeto de mobilidade urbana em Natal; a Via Mangue, em Recife; o aeroporto e o corredor rápido em Curitiba; O VLT e o BRt de Fortaleza e o terminal do aeroporto de Viracopos, que não será usado mais na Copa.

A Fifa não esperava que o Brasil fosse tão mutante. Por outro lado, um país que não muda não vai para frente. Essa é a questão. Resta saber se o legado ainda será suficiente e de que maneira as obras terão continuidade. Ao contrário de Dorian Gray, o Brasil tem a chance de ficar mais bonito. Para isso, a maioria da população apaixonada por futebol terá um papel importante.  Não poderá ser mais apenas formada por torcedores.

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