Futebol de várzea
Futebol Campo de Marte preserva ‘oásis’ do futebol de várzea em São Paulo

Campo de Marte preserva ‘oásis’ do futebol de várzea em São Paulo

Conjunto que abrange as sedes de seis times varzeanos, em uma área de 50 mil m², na Casa Verde, é importante reduto do futebol amador da cidade

Futebol de várzea

Área é remanescente da várzea antiga de São Paulo, na beira do Rio Tietê

Área é remanescente da várzea antiga de São Paulo, na beira do Rio Tietê

Edu Garcia/R7

Os espaços para o futebol de várzea na capital paulista estão diminuindo. O crescimento imobiliário e urbano desenfreado das últimas décadas extinguiu diversas áreas antes ocupadas pelos boleiros a partir do fim dos anos 2000.

No entanto, há um "oásis" para os varzeanos em uma área de aproximadamente 50 mil metros quadrados, cercada pela floresta atlântica, localizada no bairro da Casa Verde, a apenas quatro quilômetros do marco zero da cidade.

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Lá, existem — ou resistem — seis campos de futebol, construídos a partir dos anos 1930 e com infraestrutura para a realização de centenas de jogos todos os finais de semana, espaços para o lazer das famílias dos jogadores, churrascos, festas e muitos eventos culturais.

A várzea está vivíssima e no caminho da expansão
Otacílio Ribeiro

"Foi tudo construído pela comunidade: clubes, sócios e jogadores. Nesse reduto, tem terrão e grama. Tem lugar aqui que jogou o avô, o pai e agora o filho joga. Temos times do sub-9 ao sub-100", conta Otacílio Ribeiro, procurador federal aposentado, presidente da Associação dos Clubes Mantenedores da Área de Esportes, Lazer e Cultura do Campo de Marte.

"O Clube da Esperança é um dos primeiros times negros de São Paulo. Lá tem eventos de samba rock e balanço. Tem toda uma história cultural e de luta", complementa Otacílio, que luta para manter aquele que considera "o último reduto da várzea paulistana".

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O terreno faz parte da área do Campo de Marte, controlada pela Aeronáutica e onde funciona um aeroporto para a aviação empresarial, além de diversos hangares de empresas de helicóptero. Com mais de dois milhões de metros quadrados, é alvo de uma disputa judicial entre a União e a Prefeitura paulista que dura 60 anos.

"A área é remanescente da várzea antiga de São Paulo, na beira do Tietê. Da Lapa à Penha, existiam mais de 100 campos de várzea. Isso foi o que restou da várzea de São Paulo, pelo menos na região mais central da cidade", explica.

Otacílio Ribeiro defende a preservação do "último reduto da várzea" de São Paulo

Otacílio Ribeiro defende a preservação do "último reduto da várzea" de São Paulo

Edu Garcia/R7

Otacílio Ribeiro conta que os frequentadores ganharam apoio de universitários e simpatizantes do futebol de várzea para negociar com a administração municipal a construção de um CDC (clube da comunidade), com novos campos e demais estruturas de lazer.

Segundo ele, há um projeto para a região que prevê a construção de um parque e um museu da Aeronáutica. "Querem gastar R$250 milhões em um parque e mais R$ 100 milhões no museu, mas não conseguiram.

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"Temos 50 mil assinaturas na várzea e uma página no Facebook, ‘Complexo Esportivo do Campo de Marte’, com 10 mil pessoas. A várzea comprou essa briga aí", complementou Otalício.

Enquanto houver um campinho de periferia em São Paulo, a várzea vai existir
Otacílio Ribeiro

O espaço utilizado pelos adeptos da várzea no Campo de Marte reúne quase uma centena de times. São disputadas mais de 200 partidas todos os finais de semana. Por ano, aproximadamente 500 mil pessoas frequentam a área, de acordo com estimativa do líder comunitário.

"No dia 7 de setembro, fazemos o maior festival de várzea do Brasil. São 80 clubes durante o dia todo, com samba, churrasco, futebol e ônibus para os participantes. Esse é o nosso espirito de várzea", frisou.

O Alviverde do Parque Peruche, em 1961, um dos primeiros times da região

O Alviverde do Parque Peruche, em 1961, um dos primeiros times da região

Arquivo Pessoal/Otacílio Ribeiro

Terrão x Society

A modernização da várzea, com campeonatos longos, organização cara e premiações em dinheiro, não é um fenômeno bem-visto pelo veterano.

"A nossa preocupação é que perca a característica do futebol varzeano. Em São Paulo, existem duas várzeas: a society e a do terrão. E somos contra a várzea profissional, que paga jogador, faz torneio para ganhar dinheiro. Isso descaracteriza a várzea verdadeira, que joga por amor pelo time de coração do bairro", comentou.

Para Otacílio Ribeiro, apesar da "profissionalização" da várzea nos últimos anos, o futebol amador ainda é forte na cidade e se adaptou às novas tecnologias para continuar atraindo a comunidade.

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"A várzea está vivíssima e no caminho da expansão. Hoje, se coliga pelas redes sociais entre todos os clubes. Uma comunicação diária e constante de centenas de sites de times de várzea com centenas de grupos de whatsapp, centenas de campeonatos e torneios. A várzea é imortal. Enquanto houver um campinho de periferia em São Paulo, a várzea vai existir", finalizou Otacílio Ribeiro.

História

Otacílio Ribeiro começou a correr pelos campos de várzea ainda menino, nos anos 1950. Naquela época, o crescimento imobiliário não havia ocupado as margens do Rio Tietê.

Dragões da Casa Verde, em 1974

Dragões da Casa Verde, em 1974

Arquivo Pessoal/Otacílio Ribeiro

Presidente do Dragões da Casa Verde, time fundado no início dos anos 1970, no Parque Peruche, o ex-meia relembra com saudade os primeiros jogos de várzea no bairro. 

"Sou da várzea que tinha os 100 campos da Marginal. Sou do Parque Peruche. Descíamos aqui com o nosso saco de camisas, tínhamos 13, 14 anos. Jogávamos o dia inteiro. Era um esquema mambembe", contou Otacílio.

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