Futebol de várzea
Futebol ‘Aprendi a lutar boxe para jogar na várzea’, diz veterano dos anos 60

‘Aprendi a lutar boxe para jogar na várzea’, diz veterano dos anos 60

Otacílio Ribeiro, hoje uma liderança na luta para manter reduto da várzea na zona norte, optou pela luta para se defender de adversários brigões

Otacílio Ribeiro recorreu ao boxe para encarar as brigas na várzea nos anos 1960

Otacílio Ribeiro recorreu ao boxe para encarar as brigas na várzea nos anos 1960

Edu Garcia/R7

Para jogar no futebol de várzea no passado, era preciso uma característica não exatamente ligada às habilidades esportivas: a coragem. A rivalidade entre equipes e bairros era grande. Muitas vezes, os jogos terminavam em pancadaria.

"Tinha que ser time de macho, porque o pessoal punha para correr. Você chegava num campo com cerca de madeira, com um bocado de ripas faltando, sabia que ia ter pau. Os caras tiravam as ripas para bater nos adversários", relembra Otacílio Ribeiro, um varzeano das antigas, presidente do Dragões da Casa Verde, time da zona norte de São Paulo.

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Nascido e criado no Parque Peruche, bairro de "gente valente", como diz, Otacílio — que também lidera a Associação dos Clubes Mantenedores da Área de Esportes, Lazer e Cultura do Campo de Marte — buscou o aprendizado no boxe para enfrentar os adversários brigões com mais segurança.

"Tínhamos uma academia de boxe aqui no bairro, chamada Saldanha da Gama. O técnico era o Loro. Muitos moleques do bairro treinavam nessa academia", contou o procurador federal aposentado.

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A prática de lutas e outras atividades físicas era fundamental para manter o respeito no bairro. "A molecada aqui no Parque Peruche, para se dar bem, tinha que ser bom de bola, de briga ou de samba", complementou.

Era tudo na mão. Não tinha essa coisa de arma, traição
Otacílio Ribeiro

A modalidade foi escolhida pela proximidade dos jovens do bairro com nomes que despontavam no mundo do boxe profissional. "Era um bairro de boxer. Aqui, viveram alguns dos maiores do Brasil: Eder Jofre, Luisão, Jorge Sacomã, Mário Sacomã, Olímpio dos Santos, Mário dos Santos", relembrou Otacílio.

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No entanto, Otacílio frisa que as brigas eram bastante diferentes do que se vê hoje em dia. Segundo ele, as rixas raramente tinham consequências mais graves para os envolvidos, especialmente entre as décadas de 1950 e 1960.

Otacílio luta para preservar área no Campo de Marte

Otacílio luta para preservar área no Campo de Marte

Edu Garcia/R7

"Disputava-se taças feitas de alumínio de embalagem de cigarros. Saia briga para ganhar as taças, brigas para cá, para lá. Mas era tudo na mão, no soco, na rasteira. Era tudo na mão. Não tinha essa coisa de arma, traição. Brigava, brigava depois estavam todos juntos de novo", enfatizou.

Acirramento da violência

A várzea, como outros segmentos da sociedade, sentiu o aumento da violência urbana, provocada pelo crescimento desordenado da metrópole, pela falta de emprego, saúde e educação.

Com o passar do tempo, em especial a partir dos anos 1990, os conflitos entre grupos rivais se tornaram mais violentos. A proximidade de traficantes de drogas com as equipes piorou tal cenário. Aquela época romântica havia dado lugar a tempos sombrios.

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"Havia muita malandragem e também rivalidade entre os bairros. Tinha de tudo: briga de mão, tiro, gente pegando arma pra assustar o opotente. Presenciei muitas", lamentou Rogerinho Ferradura, ex-jogador e treinador do Nove de Julho, campeão da Copa Kaiser de 2014, última edição do maior torneio de várzea das últimas décadas na cidade.

Retomada da paz

Felizmente, a maior organização das copas atuais praticamente aboliu as brigas entre jogadores e torcedores de comunidades rivais. A paz parece estar voltando à várzea.

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Alguns dos principais torneios da categoria oferecem premiações em dinheiro e exigem um comportamento adequado dos times, que podem ser punidos e até excluídos de competições importantes caso um de seus integrantes se envolva em confusões.

"É muito difícil acontecer. Faz anos que não vejo uma briga", completa Rogerinho Ferradura.

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