Torcedores sofrem sem futebol: 'Sinto falta até de xingar o juiz'

Com a pandemia causada pelo novo coronavírus fanáticos por seus times, que não perdiam um jogo sequer, tentam se virar sem futebol

Rafael comemora entre Elie (pai) e Marcos (tio)

Rafael comemora entre Elie (pai) e Marcos (tio)

Acervo pessoal

A rotina era sempre a mesma. Em dias de jogos, ele seguia um ritual. A primeira coisa que fazia ao acordar era separar os cartões do fiel torcedor. Depois, degustava a última refeição, antes do jogo, como se fosse um príncipe (parafraseando Chico), no majestoso direito do torcedor que se prepara para uma missão.

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Até recentemente, esses eram hábitos que Rafael Zalcman, formado em Economia, 31 anos, torcedor fervoroso do Corinthians, tinha incorporado à vida. 

Mas, de repente, com a pandemia causada pelo novo coronavírus, ele e outros fanáticos por seus times, que não perdiam um jogo sequer, se viram diante de um vazio, sem jogos. Sem a expectativa durante o trajeto de metrô e sem o saudável encontro com os amigos já no estádio, naqueles momentos de uma gostosa ansiedade, que atencedem as partidas.

"Mais do que dos jogos em si, sinto falta do ritual todo que envolve o jogo, dessa rotina, das pessoas, das conversas, até de xingar o juiz", diz Rafael, em tom bem-humorado.

A situação de Rafael é a mesma que a de milhões de torcedores de outros clubes, como o palmeirense Sandro, o são-paulino Ronaldo e o santista Anderson, que serão apresentados em seguida.

Rafael não perdia um jogo em Itaquera, muitos deles na companhia de seu pai, Elie Zalcman, e de seu tio, Marcos Gontow.

Agora Rafael está sendo obrigado a se acostumar com uma nova realidade. Principalmente nos finais de semana, quando o seu "Curintia" ditava muitos dos seus horários.

"De quarta-feira passa batido mais facilmente, me distraio fazendo outras coisas, vendo um filme, etc. De domingo sentimos mais falta, acabamos assistindo na televisão algum jogo antigo ou algo do gênero", conta.

Essa falta de futebol, no entanto, tem servido para algumas reflexões. Ele tem compreendido melhor, na prática, o real papel que o futebol deve exercer na vida de cada um. Enquanto a saudade lateja, dela emerge uma descoberta.

"Tenho percebido por um lado a grande importância que o futebol, o Corinthians mais especificamente, realmente tem na minha vida. Sempre soube dela, mas agora parece mais explicitada. Ao mesmo tempo, mesmo sendo muito importante, vejo como é um item que pode ser suprimido em caso de necessidade maior, seja de saúde, financeira ou familiar, ou seja, percebi como sua importância é gigante, mas ainda menor que outros aspectos da vida", analisa.

Um dia, Rafael sabe que voltará aos estádios. Mas o apreço pelo futebol ganhará um novo caráter, segundo ele.

"A paixão pelo futebol e pelo Corinthians não irá diminuir, nem a vontade de acompanhar os jogos, sejam na Arena ou na TV, mas certamente o peso que isso tinha comparado com outras coisas vai diminuir. Antes deixava de fazer qualquer coisa para ir aos jogos, após essa pandemia vou procurar balancear melhor tudo", destaca.

Palmeirense ao redor do estádio

Sandro sorri lado dos filhos

Sandro sorri lado dos filhos

Acervo pessoal

Nos arredores do estádio do Palmeiras, o silêncio cortado pela passagem de poucos carros substitui o som das conversas regadas a cerveja nos bares da rua Turiassú, hoje Palestra Itália.

E o torcedor Sandro de Araújo Marra, 44 anos, metalúrgico, tem sentido muita falta de vivenciar aquele clima.

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"Sinto saudades do churrasco de rua que fazemos nas proximidades do Allianz Parque, de rever o pessoal da TUP (Torcida Uniformizada do Palmeiras) torcida da qual faço parte desde 1991. E claro, a saudade maior de gritar gol do Palmeiras", diz.

Sandro tem passado o tempo em casa com a família, ao lado dos filhos Matheus e Maria Eduarda Sandro, com quem ia aos jogos. E utiliza as novas ferramentas de comunicação para manter a relação com o futebol, trocando as cadeiras das arquibancadaas pelo sofá.

"Para matar a saudade não só eu mas muitos palmeirenses recorremos ao YouTube e assistimos jogos, como a final do Paulistão de 1993, a da Libertadores de 1999, dentre outros jogos inesquecíveis do nosso Palestra", diz, utilizando os novos meios para expressar sua ligação com o clube.

Ele espera que, a partir desta pandemia, haja uma conscientização maior dos dirigentes, para que o futebol volte a ser mais acessível às classes mais populares.

"Creio que o futebol deve ser olhado de  outra forma por parte dos dirigentes e organizadores. Eles devem ver que o mais importante é a massa, os torcedores que realmente sustentam toda essa paixão. É a verdadeira massa torcedora, feita dos menos favorecidos, e que está cada vez mais difícil de se ver nos estádios devido ao alto preço dos ingressos", afirma.

São-paulino e o lanche de pernil

Ronaldo, à direita, vê o futebol como festa

Ronaldo, à direita, vê o futebol como festa

Acervo pessoal

Só o apelido de Ronaldinho dá uma mostra da ligação de Ronaldo de Oliveira Silva, de 41 anos, com o futebol. Chamado como o craque brasileiro, ele fez do São Paulo sua grande paixão. E cada jogo no Morumbi, para ele, era como uma festa. Com direito a cardápio especial, em boa companhia.

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"Sinto mais falta de por minha camisa, pegar meus meninos, encontrar a galera e ir para o Estádio, gritar o nome do São Paulo e participar daquela festa bonita apoiando nosso Tricolor sempre. Estava melhor ainda porque estávamos indo bem  antes do início dessa pandemia. Ah, claro, sinto falta também do lanche de pernil".

Às vezes ele até sonha que está no estádio, em meio àquele coro vibrante de gente entoando: "Ó Tricoloooor, clube bem amado". Mas quando acorda, vê a realidade atual. A necessidade do isolamento.

"Agora sobrou mais tempo para eu dar atenção para os meus filhos, que são três. Por outro lado ficou um vazio imenso, inexplicável porque eu respiro futebol e não ver o São Paulo jogar e poder gritar e cantar seu nome é uma tristeza avassaladora chega doer no peito. Mas sabemos da gravidade dessa pandemia e meus filhos são novos, vamos respeitar e quando passar não vai faltar tempo pra voltarmos ao estádio e ovacionar nosso Tricolor querido do coração", diz, já exercitando seu lado torcedor.

Os adversários? Ah, a pandemia veio para reforçar uma convicção que Ronaldinho, nascido em São Bernardo do Campo e morador do Jardim Maristela (SP), já tinha.

"Já tenho essa visão de que somos adversários e não inimigos, ainda mais que nós da periferia temos amigos de todas as torcidas e somos envolvidos com a várzea que é respeito acima de tudo. Então acredit que depois dessa pandemia muitos irão ver que o futebol é uma ferramenta essencial para todos que amam esse esporte e que a união, humildade, respeito e regras andam lado a lado para todos", ressalta.

Santista nas ondas do rádio

Ânderson vai a jogos no Pacaembu e na Vila

Ânderson vai a jogos no Pacaembu e na Vila

Acervo pessoal

Esse momento também tem sido difrentente para o santista Anderson Nagado, 41 anos, que é executivo em uma consultoria de RH. Mesmo morando na capital paulista, onde nasceu, ele era um assíduo frequentador de jogos na Vila Belmiro. A interrupção do futebol tocou em algo que ele cultivava desde criança.

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"Conheci o futebol e o Santos FC na mesma proporção em que ia ganhando consciência da vida, então é estranho falar da minha infância sem jogar bola na rua ou assistir futebol na TV, e principalmente na adolescência, Na fase adulta, tenho ido com  frequência assídua aos estádios de futebol prestigiando nosso clube", afirma.

Descer a serra para ele era uma aventura especial. As imagems da cidade esparramada embaixo das montanhas era um convite à imaginação, que só enriquecia a ida ao estádio. No retorno, sempre ia atento às informações sobre o jogo.

"Desde que me conheço por gente, dedico o meio da semana e as tardes ou noites de final de semana para ver o Santos jogar. Perder essa rotina de maneira tão repentina é um tanto estranho, porque além da falta dos jogos ao vivo, sinto falta também das informações pré e pós-jogos, o que me deixava ainda mais entretido. Sabemos que nada está acontecendo de novo ou de impacto, mas mesmo assim eu abro todo dia os sites para ver notícias do Santos, mas aí caímos na dura realidade do "vazio" de notícias", destaca.

Ele não esconde nem a saudade dos adversários.

"Sabe que até dos adversários estou sentindo falta? Mas sabe como faço pra lembrar o quanto eles são importantes para mim? Fico vendo vídeos dos jogos onde o Santos deitou e rolou sobre eles!", brinca.

Como compensação para essa pausa, Anderson espera que o futebol volte revigorado e reciclado.

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"Assim que tudo voltar à normalidade, acredito que o futebol voltará rapidamente também, pois ele é movido pela paixão e passionalidade do torcedor. Mas torço para que ele possa voltar melhor, com menos desigualdades e corrupção, com menos violência nos estádios e que o futebol seja cada vez mais um ponto de convergência para alegrar e unir multidões, com as nossas tradicionais e sagradas 'quartas e domingos'", completa.

No fim das contas, a humanidade inteira é mesmo uma grande torcida. Por amor, saúde e trabalho. Os três eixos do mundo moderno. Pelo fim da pandemia. E para que, quando tudo passar, Rafael, Sandro, Ronaldinho e Anderson possam estar sentados juntos em uma mesa de bar. Falando, é claro, sobre futebol.

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