Jorge Wagner relembra trajetória no futebol: 'Serei sempre grato'

Ex-jogador se destacou no SP e no Corinthians, entre outros, após iniciar jogando pelo Bahia; ele se tornou empresário após encerrar a carreira 

Jorge Wagner encerrou a carreira aos 39 anos

Jorge Wagner encerrou a carreira aos 39 anos

Reprodução/Facebook

Dentro de campo, o ex-jogador Jorge Wagner, hábil e canhoto, sempre estava bem posicionado. Tal característica reflete em parte toda a sua trajetória como pessoa, marcada por acontecimentos que se seguiram de forma natural. Tranquila, como na precisa cobrança de falta contra o Vasco, em São Januário, em 2008, quando marcou o primeiro gol da vitória do São Paulo por 2 a 1.

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Jorge Wagner Góes Conceição é mais um dos muitos brasileiros que vieram ao mundo com o DNA do futebol. E que do futebol se despediu em 2017, aos 39 anos, com o mesmo sorriso de um menino que teve seu sonho realizado. Desde cedo, em Feira de Santana, na Bahia, onde nasceu em 17 de novembro de 1978, o amor pela bola se misturava ao amor pela infância, como contou o ex-atleta ao R7.

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"Nasci em Feira de Santana e tive uma infância muito feliz. Estudava e participava de vários campeonatos nos colégios, clubes e bairros da cidade", afirmou o jogador, que atuou como meia, lateral-esquerdo e até já compôs o ataque.

Essa paixão se transformou em convicção e, diante de tantas evidências, ele só recebeu o apoio da família. Ao contrário de várias situações frequentes no futebol, os pais do menino não se opuseram ao seu sonho, ou melhor, certeza, de se tornar jogador.

"Comecei a jogar bola muito cedo. Sempre tive o sonho de ser jogador profissional de futebol. Durante esse período, sempre tive o apoio da minha família e amigos."

Jorge Wagner foi bicampeão brasileiro com São Paulo

Jorge Wagner foi bicampeão brasileiro com São Paulo

André Lessa/Estadão Conteúdo - 31.10.2009

A partir dessa certeza, tudo aconteceu sem muitos percalços. Passar na peneira, algo dramático para uma legião de garotos, nem foi tão difícil para ele. Parafraseando a música de seu conterrâneo Caetano, ele parecia estar sendo movido por uma "força estranha", que o levava a jogar.

"Fiz meu primeiro teste/avaliação no Bahia com 9 anos de idade. Passei na avaliação, mas por conta da minha idade, não fiquei em Salvador. Retornei para Feira de Santana e continuei os estudos. Aos 14 anos tive a oportunidade de voltar ao clube, e dessa vez pra ficar. Fiz outra avaliação e passei. A partir daí, foi o início da minha carreira", lembra.

Da Bahia para o mundo

Jorge conseguiu conciliar os estudos até onde foi possível. Nem por isso deixou de se interessar em adquirir cultura, em entender o jogo como uma maneira de enxergar o mundo. Era, acima de tudo um jogador inteligente.

"Passei a minha adolescência jogando nas categorias de base e estudando. Concluí o 2º grau, fiz inscrição para o vestibular, mas na mesma época tivemos a Copa São Paulo. Decidi ir para o campeonato e logo em seguida fui para o time profissional. Treinos, concentrações e viagens foram os motivos que tive pra deixar os estudos.  Agora que tenho mais tempo disponível pretendo fazer alguns cursos e voltar a estudar."

Jorge Wagner conquistou inúmeros títulos no Japão

Jorge Wagner conquistou inúmeros títulos no Japão

Reprodução/Facebook

Futebol e música se misturam na cultura popular e, como o Tropicalismo, os passes ritmados de Jorge Wagner ganharam o Brasil. Antes, como bom baiano, teve jogo de cintura para estar acima das rivalidades entre Bahia e Vitória. Tem até hoje bom trânsito em ambos os times que jogou.

Profissionalizou-se no Bahia, em 1998 e, dois anos depois, despertou o interesse do Cruzeiro. Ainda em início de carreira, após jogar no time mineiro, foi para o Lokomotiv, da Rússia, em 2003. Mas ficou mais conhecido no Brasil a partir do momento em que chegou ao Corinthians, por empréstimo, no mesmo ano.

Passou também pelo Inter de Porto Alegre (2005-2006) e Betis, da Espanha (2006-2007), e chegou ao São Paulo em 2007, para novamente ser um dos destaques do futebol brasileiro, deixando boas lembranças ao jogar ao lado de nomes como Hernanes, Richarlyson, Dagoberto e Rogério Ceni.

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Em 2010, foi para o Kashiwa Reysol, do Japão, onde ficou entre 2011 e 2013, tendo estado em campo na derrota para o Santos, na semifinal do Mundial Interclubes de 2011, quando sua equipe perdeu por 3 a 1. Num dos gols, Neymar limpou da entrada da área e chutou de esquerda, quase no ângulo.

Melhor desempenho

Mas no Kashiwa, Jorge Wagner teve um excelente desempenho, atingindo sua maior quantidade de gols em um clube, 29 em 34 partidas. O técnico era o brasileiro Nelsinho Baptista.

"Cheguei ao Japão com uma mentalidade e uma experiência muito grande por ter vivido várias situações dentro do futebol. Atuava com mais liberdade pra encostar nos atacantes, acho que isso foi fundamental para ter uma boa média de  gols. É claro que a comissão técnica e o time me ajudaram bastante", conta.

E depois de uma curta passagem pelo Botafogo (RJ), ele retornou ao Japão, para outra curta passagem pelo Kashima Antlers, tendo atuado apenas em oito jogos antes de retornar ao Brasil, já na fase final da carreira. 

Ao analisar suas características, Jorge Wagner sabe o que o levou a ser bem-sucedido como jogador.

"Sempre fui um profissional dedicado ao trabalho. Tive um grande destaque no futebol por ter um bom passe e ser importante na bola parada."

O ex-jogador também conseguiu se adaptar, sem tanta dificuldade, à dura rotina de atleta. Apesar dos percalços, gostava de sua profissão e não se incomodava com a obrigação de treinar. A família também o ajudou.

"Sempre tive uma família presente em minha vida. Acho que isso foi a base de tudo. A confiança e a tranquilidade que eles me passavam fizeram a diferença para lidar com as situações que o futebol proporciona" revela.

Final de carreira

Tal consciência o fez se preparar para encerrar a carreira. E ele quis parar no mesmo lugar onde tudo começou: Feira de Santana. Foi uma forma de concretizar aquilo que sonhara, nos campinhos de terra locais, em meio à simplicidade. E voltar para lá consagrado.

"Sabemos que a carreira de jogador é curta. Poucos conseguem jogar até os 40 anos, então essa preparação já vinha sendo feita há alguns anos. Recebi um convite do Fluminense de Feira, time da minha cidade. Foi muito importante minha passagem pelo clube e ali decidi que era a hora de encerrar a carreira como atleta profissional de futebol", diz.

A saudade bate sempre. Às vezes Jorge Wagner ainda ouve o clamor da torcida no estádio, sente o cheiro da grama, a adrenalina antes do jogo.

Mas aquela certeza de que seria jogador se transformou na certeza de que, de certa maneira, nada do que fez vai acabar. Mesmo depois de ter encerrado a carreira. O passado, afinal, é eterno e estimula novos desafios. Dentro do futebol, onde ele pretende continuar, agora como empresário.

"Estou cadastrado na CBF como agente intermediário. Este mês, vamos inaugurar a JW7 Sports & Business. Já temos jogadores em vários clubes do Brasil. Temos a JW7 Academy em parceria com a JSB Esportes em Feira de Santana na Arena JW7. Recentemente inauguramos o Paris 6 no Shopping da Bahia em Salvador. Estamos com um grande projeto em São Paulo que é a Winners Academy, situada no Morumbi Town Shopping e que vamos expandir para outras cidades. Enfim, muito trabalho a fazer a partir de agora."

Dos clubes pelos quais passou, ficou a marca da gratidão.

"Tenho um carinho muito grande por todos os clubes que passei. Sempre fiz grandes amizades que tenho até hoje. Cada clube com suas histórias, conquistas e particularidades. Sempre serei grato a todos eles."

Mas até hoje, quando ele assiste a algumas partidas, fica a impressão de que Jorge Wagner nunca mais se desligará daquela "força estranha", tão baiana, tão brasileira. A cada jogada, Jorge se reconhece, imagina o que poderia fazer. Mas, mais do que o jogador consagrado, vem a ele uma outra imagem. Ele vê um menino correndo, ele vê o tempo...

Arte/R7