Astro da NFL vive entre amor por time de infância e balas coloridas

Marshawn Lynch abandonou aposentadoria por chance no Oakland Raiders

Marshawn Lynch, uma estrela peculiar da NFL
Marshawn Lynch, uma estrela peculiar da NFL Ron Chenoy/Reuters

A vida de Marshawn Lynch poderia facilmente ser uma série de televisão tamanha a peculiaridade de um dos principais jogadores da história recente da NFL (National Football League, principal liga de futebol americano). Os últimos episódios da saga do running back que deixou a aposentadoria para jogar no time da sua cidade natal ainda estão sendo registrados e ninguém conhece o desfecho que promete ser igualmente improvável. Certo mesmo é que será digno de cada chuva de balas coloridas que tanto adora pelas próximas temporadas.

Lynch segue à risca o roteiro hollywoodiano dos grandes e controversos craques do futebol americano. O ídolo do Seattle Seahawks escolheu acabar sua própria série no auge antes de deixar de agradar ao público. O explosivo jogador havia sofrido com lesões no ano anterior e não conseguiu repetir as performances que vinha tendo desde 2011. Mas como os grandalhões também têm coração, decidiu voltar e vestir a camisa do Oakland Raiders.

A brilhante carreira do camisa 24 parecia encerrada após o anúncio da aposentadoria. Mas aos 31 anos, Lynch recebeu uma oferta após um ano afastado, aproveitando a chance única de jogar pelo time do lugar onde nasceu, antes de os Raiders arrumarem as malas e trocarem Oakland por Las Vegas. Para alegria dos fãs, o fenômeno ganhou uma renovação por mais duas temporadas.

O retorno do aposentado Lynch causou furor na cidade de Oakland, Califórnia
O retorno do aposentado Lynch causou furor na cidade de Oakland, Califórnia Christian Petersen/Getty Images

O pequeno Marshawn foi torcedor dos Raiders durante a infância e a adolescência, quando frequentava a Oakland Technical High School, na Califórnia. Na liga profissional, jogou pelo Buffalo Bills e pelo já citado Seahawks. Somente depois de encerrar seu contrato e se afastar do futebol americano é que ele recebeu o convite para realizar o sonho de menino.

Criado longe do pai, que cumpria pena em uma penitenciária, o garoto que um dia venceria um Super Bowl — a grande final da NFL, vista por mais de 110 milhões de telespectadores em todo o mundo — desenvolveu uma relação curiosa com a bala Skittles. Ainda quando tinha 12 anos, seu ritual pré-jogo consistia em comer os pequenos drops coloridos com sabor de frutas, pois sua mãe dizia que se tratavam de pílulas de energia que o fariam correr mais rápido e jogar melhor. Até hoje Lynch carrega consigo as balas durante as partidas e até ganha da torcida uma chuva delas quando pontua. 

A euforia foi enorme quando a franquia californiana anunciou o retorno do “Beast Mode”, como é conhecido Marshawn Lynch, uma das lendas da NFL. Em seus 10 anos de carreira, ele acumulou histórias inusitadas e ficou marcado como uma das peças mais geniais e incompreensíveis da liga.

Talvez o episódio mais lembrado pelos fãs da saga seja o do terremoto Lynch. Literalmente um terremoto. Era janeiro de 2011 e o Seattle Seahawks disputava uma partida mata-mata contra o favorito New Orleans Saints. Em um lance despretensioso, o camisa 24 ignorou as tentativas de nove adversários que tentaram levá-lo ao chão e marcou um dos touchdowns mais inacreditáveis já vistos.

No momento em que atropelava a defesa rival, o running back não deve ter notado, mas a torcida provocava um leve terremoto na terra. Um sismógrafo próximo ao estádio mediu o abalo sísmico e registrou picos anormais de tremor durante a trajetória de Lynch rumo ao final do campo. O episódio ficou conhecido como “Beast Quake”, ou terremoto da besta.

Apesar dessa explosiva arrancada em seu primeiro ano com o time de Seattle, as temporadas seguintes revelaram um Marshawn Lynch tranquilo e avesso a entrevistas. O jogador é, na realidade, muito fechado e não gosta de dar declarações para a imprensa. Ele diz tudo o que precisa com seu excelente desempenho em campo, mas sua ausência em coletivas já lhe rendeu severas multas da liga.

Nove adversários fracassaram em derrubar Lynch, que imortalizou o Beast Mode
Nove adversários fracassaram em derrubar Lynch, que imortalizou o Beast Mode Otto Greule Jr/Getty Images

Estar disponível para atender os jornalistas é uma obrigação dos jogadores após as partidas. Como uma das principais estrelas da NFL — Lynch já foi campeão, em 2010/11 —, é claro que o camisa 24 não poderia ficar longe dos flashes e microfones. Mas ele tentou. Após se recusar a falar com a mídia, foi penalizado em cerca de R$ 270 mil. 

Os grandes heróis das séries de TV sempre encontram saídas criativas para seus problemas. E foi o que fez Lynch diante da irredutibilidade da liga. Ele decidiu responder aos questionamentos dos repórteres, mas de sua própria maneira: dizia apenas “sim” para todas as perguntas.

Durante a semana que antecede o Super Bowl, a direção ameaçou multar novamente o atleta mas, desta vez, em R$1,3 milhão se ele não comparecesse ao evento com a imprensa. Então, Lynch foi ao palco e se sentou diante dos microfones dos repórteres, mas repetiu o plano e se manteve fiel a uma única resposta: “só estou aqui para não ser multado”.

Marshawn Lynch pouco se expõe. Ele tem mais de 1,6 milhão de seguidores no Instagram e está na rede social desde 2014. Ainda assim, fez somente 24 publicações em sua página.

A personalidade única de Marshawn Lynch é o que faz dele uma figura tão marcante do mundo do futebol americano. Não fosse isso, ele seria apenas mais um dos grandes jogadores que passaram pela liga e fizeram história. Mas a saga do menino de Oakland, cujo pai cumpre pena de 24 anos, não é comum.

Em uma série, a última temporada normalmente não é a melhor. Neste caso, a regra também se confirma. Mas por toda a trajetória, ela com certeza é a mais emocionante. Afinal, é assim mesmo que as histórias devem acabar.

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*Pedro Rubens Santos, estagiário do R7