Time do povo? Planos do Corinthians excluem torcedores de baixa renda

Rival Internacional criou plano de R$ 10 mensais e valor igual para ingresso

Planos têm desconto insuficiente para população de baixa renda
Planos têm desconto insuficiente para população de baixa renda Eugenio Goussinsky/R7

Do lado de fora do Itaquerão, o vendedor Paulo Emílio Custódio, de 48 anos, se mantém atento. Em meio a cambistas que fazem ofertas ao lado de agentes da Guarda Municipal, ele fica próximo às escadas, na calçada que leva a Arthur Alvim. Espera a sobra de um ingresso para o jogo Corinthians x Vitória, no último sábado (19), pelo Campeonato Brasileiro.

A implantação do programa sócio-torcedor do clube manteve um público mais cativo no sonhado estádio. Por outro lado, acabou tirando a população de baixa renda, que costumava assistir em peso às partidas do Timão no Pacaembu, até o início de 2014.

A razão é que o programa Fiel Torcedor, em sua categoria mais barata, a Minha Paixão, custa acessíveis R$ 9 por mês, mas sem ingressos com descontos suficientes para a população. Os valores ainda são altos: setor Leste a R$ 84; Leste Central a R$ 98; Oeste inferior a R$ 178 e Oeste superior a R$ 68. 

Com um celular antigo e sem ter um computador em casa, Custódio ficou excluído da possibilidade de comprar os ingressos pela internet. Mas o que o impede mesmo é a sua renda de no máximo R$ 2.500 por mês, tendo que, com ela, ajudar no pagamento de um curso para o filho, entre outras despesas.

— Nos tempos do Pacaembu, a gente sempre encontrava um cantinho. O ingresso era realmente mais barato. Hoje não há como alguém que pague aluguel de R$ 500 por mês e tenha uma baixa renda destinar uma quantia para ingressos e mensalidades do sócio-torcedor. Muita gente não consegue entrar, vejo isso sempre. Isso contradiz a fama de Time do Povo que acompanha o Corinthians.

Oferta x procura

A diretoria do Corinthians admite que o número de ingressos destinados às classes de renda mais alta aumentou a partir da inauguração do Itaquerão, chamado de Arena Corinthians pela cúpula do clube, em 2014. O diretor de marketing do Corinthians, Fernando Sales, ressalta, no entanto, que o corintiano de baixa renda que ia aos jogos no Pacaembu também pode ter espaço no novo estádio.

— Sabemos, sem dúvida, que o Corinthians é o time da massa, conhecido por ter muitos torcedores de baixa renda. Mas você pode ter certeza de que o corintiano que conseguia ir ao Pacaembu consegue ir à Arena. Temos preços populares. O que aumentou foi a quantidade de lugares com ingressos mais caros.

Custódio vê com simpatia a iniciativa do Internacional de criar um pacote dentro do sócio-torcedor, no qual a mensalidade custa R$ 10 e o ingresso de arquibancada para cada jogo também é de R$ 10.

— É uma alternativa, o valor da mensalidade no Corinthians deveria ser de no máximo R$ 20 para um programa de baixa renda. E além disso, os ingressos também precisam ser baratos. Hoje, o que sobra para quem tem menos dinheiro são apenas os ingressos dos cambistas que não conseguem vender. Então, no momento em que o jogo começa, eles vendem bem barato ou até dão ingressos. Só assim consigo assistir aos jogos.

Competição entre torcedores

Situação semelhante vive o compositor Cláudio Abreu, de 46 anos. Meia hora antes da partida, ele está conversando com um amigo na esquina das ruas Maria Eugênia Celso e a Doutor Luís Aires, em Arthur Alvim, a cerca de 500 metros do estádio.

A região adquiriu mais vida nos dias de jogos, com a pracinha arborizada ao fundo ganhando movimento, enquanto grupos de torcedores se aglomeram nos bares e em barraquinhas montadas em frente a uma banca. Abreu se mostra resignado, curtindo o clima. Fala com tranquilidade, mas sem tristeza, da frustração de não poder ir ao jogo.

A competição também passou a ser entre os torcedores. Pelos planos, quem comparecer a um maior número de jogos tem mais chances de assistir a uma partida decisiva. Abreu não foi a nenhum, mas se considera tão corintiano quanto aquele que foi a todos.

Ele parece amadurecido com os duros obstáculos da vida e com a mudança de perfil de parte da torcida do Corinthians. O "maloqueiro e sofredor" perdeu espaço para os selfies no confortável estádio, situado ainda em um bolsão de pobreza.

— Moro aqui em Arthur Alvim e antes ia sempre ao Pacaembu. Agora que os jogos são perto daqui eu deixei de ir. O preço está muito caro e fica ainda mais quando o time começa a ganhar. Aproveitam sempre a oportunidade e a fase para ganhar um pouco mais. Mas os torcedores mais pobres ficam de fora.

Vitória surpreende no Itaquerão e derruba série invicta do Corinthians

Às 15h55, cinco minutos antes do apito inicial, uma fina chuva envolveu a região. De longe, o Itaquerão mais se assemelhava a uma imponente embarcação branca que vai se aproximando lentamente dos que andam em sua direção.

Os últimos grupos de torcedores caminham, a maioria com latas de cerveja na mão, pela trilha que leva ao estádio, ao lado de um conjunto habitacional. Muitos já estão alterados, neste padrão que mistura a necessidade de aparentar paixão e a embriaguez. A figura do torcedor adquiriu modismos e já se mistura à do consumidor.

E na descidinha da Maria Eugênia Celso, as buzinadas dos veículos parados no farol parecem não afetar Abreu. Ele continua falando com a mesma tranquilidade, pausadamente, sobre futebol e outros tempos.

— O Corinthians ainda é o time do povo. Muitos não vão aos jogos, mas gostam do time do mesmo jeito.

Até que o barulho aumenta, abafando o seu desabafo. Os que estão nos carros não conseguem segurar a pressa. Claro, eles vão entrar no jogo.

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