'Racismo em um país onde Pelé é rei é incompreensível', diz historiador

Especialista em futebol fez balanço sobre preconceito racial no esporte

Edna e filha Dandara são fanáticas pelo Bahia
Edna e filha Dandara são fanáticas pelo Bahia Reprodução/Facebook

"Ainda tem gente que acha que time é tudo igual". Foi com essa legenda que a foto das torcedoras do Bahia Edna Matos e Dandara foi compartilhada por milhares de internautas via WhatsApp. A imagem, posicionada ao lado da foto de mulheres gremistas, brancas e loiras, só chegou ao conhecimento de Edna após a prefeitura de Salvador repudiar o caso.

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“Está circulando nas redes sociais uma montagem feita de uma foto minha com outra que tem algumas jovens brancas vestidas com a camisa do Grêmio, que não reproduzo aqui porque não dou Ibope para o preconceito. A legenda que acompanha a montagem é a que dá título a essa postagem e sugere que apenas as gremistas são bonitas. Poderia fazer um textão sobre o racismo brasileiro e suas mazelas, mas prefiro falar da imagem abaixo e do que ela representa”, desabafou Edna no Facebook. Veja a publicação:

Segundo o historiador e especialista em história do futebol, Luiz Carlos Pereira, o racismo nos estádios é um reflexo do que acontece na sociedade. A diferença é que durante o futebol, a passionalidade é maior: “O esporte espetaculariza o racismo. Nos estádios, as pessoas agem de forma passional e deixam transmitir exatamente tudo o que sentem. Hoje, infelizmente, o preconceito racial ainda é uma realidade extremamente presente no Brasil”.

Montagem se espalhou na web
Montagem se espalhou na web Reprodução

Em 2014, quando ainda atuava no Santos, Aranha, atual goleiro da Ponte Preta, foi alvo de ofensas racistas por uma torcedora do Grêmio. Patrícia Moreira xingou o jogador de macaco e foi flagrada por uma câmera de TV. As consequências não foram das mais fáceis para a torcedora: ela perdeu o emprego, teve a casa incendiada e sofreu agressões verbais. Se arrependeu e se redimiu. Patrícia foi uma das poucas pessoas que não conseguiram se esconder atrás do manto do clube: a maioria passa ilesa, como foi o caso do criador da montagem racista que envolve Edna e Dandara.

Segundo Pereira, isso acontece porque o estádio permite que o indivíduo se esconda no anonimato. “A torcida grita, xinga, berra, é uma forma de expressão, de catarse, onde essas manifestações preconceituosas do homem são expressadas”, explicou. “Além disso, quando você está em grupo, você não é mais um indivíduo. Você é o grupo, principalmente em grandes eventos. Por isso, as pessoas se escondem atrás dessa identidade coletiva para ofender o outro”.

Até quando?

O ano de 2017 não tem sido fácil: suprematistas brancos ascendendo nos Estados Unidos são apenas um reflexo do que pensa, até os dias de hoje, a sociedade. O racismo é retrógrado, mas excessivamente presente. “Existe uma cultura ocidental que é masculina, heterossexual e branca. O que não fizer parte disso secundário, de menor importância”, disse Pereira. 

O especialista afirma que a melhor forma de mudar a situação é por meio de campanhas educacionais e punições mais severas ao time. “O Brasil é muito fraco em campanhas educacionais, a Fifa (Federação Internacional de Futebol) precisa investir pesado nisso, assim como a Uefa (União das Federações Europeias de Futebol) na Europa. Mas é claro que não é suficiente: os clubes precisam ser penalizados pelas ações dos torcedores. Só assim, eles vão pensar duas vezes antes de ofender alguém”.

Negro como força física

No Brasil, a maioria dos jogadores é negra ou mulata. No entanto, os treinadores dos clubes são majoritariamente brancos. Segundo Pereira, o racismo está implícito nessa constatação: “Os negros são considerados capazes de desempenhar bem atividades físicas, mas ainda são subestimados quando são colocados em posições intelectuais. É por isso que vemos tantos jogadores negros sendo exaltados — e isso acontecia desde os anos 1920, no futebol, quando o racismo era uma realidade muito mais abrangente do que é hoje. Os jogadores negros são muitos, mas poucos deles alcançam a posição de treinador”, explicou.

“São pensamentos implícitos que reforçam o comportamento de uma sociedade efetivamente preconceituosa. Mas, não dá para entender. Não faz sentido ter racismo em um país que tem Pelé como ídolo”.

 

 

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