'Melhor que Dani Alves', Cicinho volta ao Brasil de olho no São Paulo

Aos 37 anos, veterano lateral assinou com o Brasiliense para 2018

Cicinho jogou pelo Sivasspor-TUR entre 2013 e 2016
Cicinho jogou pelo Sivasspor-TUR entre 2013 e 2016 Reprodução

Cicinho está de volta ao futebol brasileiro. Aos 37 anos, o veterano lateral-direito, com passagens por São Paulo, Real Madrid e seleção, assinou com o Brasiliense para a temporada 2018. O novo reforço do clube do Distrito Federal tentará ajudar a equipe a fazer uma boa campanha na Série D e na Copa do Brasil.

No time candango, Cicinho reencontrará Souza, ex-companheiro de São Paulo e amigo de longa data. “Ele me ligou e brincou: ‘Cicinho, está esperando o que para assinar logo esse contrato. Aqui é bom demais, tem jogo só no final de semana, viajamos pouco’”, brincou o lateral, que falou com exclusividade ao R7.

Outros veteranos no time de Brasília são os atacantes Reinaldo, ex-Santos e Flamengo, e Nunes, que jogou no Vasco e teve passagens por Sport e Santo André.

R7: Você passou por altos e baixos na carreira, jogou no galáctico Real Madrid, disputou Copa do Mundo. Como você está tecnicamente e como segurar a expectativa já que sua estreia pelo Brasiliense será apenas no ano que vem?
Cicinho:
Minha esposa está reclamando. (Risos). “Nossa, agora é só Brasiliense! Não aguento mais ouvir falar de bola. Pelo amor de Deus, Cicinho. Você vai jogar só no ano que vem, controla a ansiedade”. Hoje eu tenho prazer em jogar futebol. É um desafio. Tenho consciência de que para voltar para o mercado brasileiro eu preciso jogar. Não adianta ficar sentado em casa, somente treinando, e esperar o contato de algum clube. Eu preciso jogar, voltar a entrar em campo. Estou muito feliz e tranquilo. Se o Brasiliense sente o desejo de voltar a ser grande, eu também quero dar a volta por cima e voltar a jogar em alto nível.

E com relação ao seu nível técnico e físico?
Sobre a parte técnica é difícil falar porque estou há mais de um ano parado, desde que eu me machuquei. Costumo dizer que estou em pré-temporada. Na parte física estou 100%, me recuperei totalmente da lesão no joelho esquerdo que eu sofri na Turquia [a última equipe de Cicinho foi o Sivasspor em 2016]. Tenho condições de jogar por mais uns dois, três anos tranquilamente. Treino bastante, em dois períodos, com bola e academia. E nos outros períodos eu cuido do meu projeto, um centro esportivo na cidade onde moro, em São Luis de Montes Belos, no interior de Goiás. Procuro também me desligar da televisão para não criar tanta expectativa. Vejo pouquíssimo futebol.

Nem o São Paulo?
Por isso mesmo! (Risos). Senão a ansiedade é grande. Como eu vivi esse ambiente, eu acabo tendo o mesmo sentimento dos jogadores. “Como será que vai ser lá na última rodada, no último jogo?”. A expectativa não é para agora, para os jogos contra Vitória e Corinthians. A cabeça está lá no último jogo, para saber se o São Paulo vai se livrar do rebaixamento.

E vai se livrar?
Vai, acho que não cai. O São Paulo é muito forte. Eu acreditaria que cairia se o time não estivesse jogando bem, mas o São Paulo tem feito bons jogos. Sem falar da má sorte. Ele erra e o time adversário faz gol. Foi assim contra o Palmeiras, eu vi o jogo.

Você ainda sonha em voltar a jogar pelo São Paulo?
Foi um dos motivos que me faz topar o desafio do Brasiliense. O São Paulo não vai contratar um jogador que não está jogando, que não está em atividade. Eu desejo jogar em alto nível e tenho condições de render muito. E, quem sabe, lá na frente, voltar para o São Paulo não pode acontecer... Por que não?

Cicinho no São Paulo: 127 jogos e 18 gols
Cicinho no São Paulo: 127 jogos e 18 gols Reprodução

Quando foi o auge da sua carreira e o pior momento?
O auge foi no São Paulo, sem dúvida. E o pior momento foi quando eu voltei para a Roma, acabei tendo problemas sérios com o álcool.

O que houve?
Estava emprestado no São Paulo, em 2010, e queria ter disputado a final da Libertadores contra o Internacional. Mas a Roma obrigou que eu voltasse. Porém, quando eu cheguei, fui para o banco e me afundei. Aí eu não quis mais nada com nada, só bebia. Chegava no treino exalando álcool.

O futebol profissional tem muitos jogadores com problemas de alcoolismo? Porque poucos atletas assumiram como você.
Muito. É comum. Eu era um cara que não tinha freio. Até certo ponto consegui, depois perdi a mão e não estava preocupado com nada. Acho até que fui abençoado por ter sobrevivido a tudo isso. Abri o jogo para que outros jogadores tenham cuidado. Quando você perde um jogo e chega em casa e enche a cara de cachaça é porque você está numa depressão. Eu acordava com ressaca, cara. Diariamente. E só eu poderia mudar isso. Tive o privilégio de levantar essa bandeira e hoje faz seis anos que eu não tenho mais esse problema. Nem lembro mais disso, sou uma nova pessoa.

Quando você percebeu que estava no fundo do poço?
Vi que estava num quadro sério quando uma vez, chegando em casa de uma bebedeira com um amigo, ele caiu de cara no chão, saindo do carro. Achei que ele tivesse morrido. Imagina se meu amigo tivesse morrido?! Todos nós sobre o efeito de álcool. Era uma morte que eu teria que lidar para o resto da vida. Graças a Deus passamos por essa.

Você citou a passagem pelo São Paulo como o melhor momento da sua carreira. Mas e o Real Madrid?
Quando eu cheguei na Espanha, nos primeiros seis meses eu estava em altíssimo nível, mas depois eu me iludi completamente. Eu pensava: ‘Já estou no Real Madrid, galáctico, fui campeão pelo São Paulo, joguei na seleção brasileira, Copa do Mundo... O que mais que eu quero?’ Me preparei muito para chegar ali, mas infelizmente não me preparei para me manter. Isso ocorre muito no futebol. O Robinho, por exemplo, vejo como um caso parecido. Já o Daniel Alves não, é diferente. Ele se preparou para chegar e se manter no auge, respeito muito ele.

Quem jogou mais bola: Cicinho ou Daniel Alves?
(Risos). O Daniel Alves é polêmico, então vamos dar uma polemizada. Cicinho! Explico: na época que eu fui para o Real ele estava no Sevilla e o Madrid cogitou a contratação dele, mas preferiu ficar comigo. Então nessa eu ganhei dele. São estilos de jogos bem parecidos. Mas posso dizer que um dia eu já fui melhor que ele. Então eu escolho o Cicinho.

Como você analisa o futebol do Dani Alves e quem pode ser o substituto dele?
Para competir com ele, no futebol brasileiro não tem. Ele está muito na frente dos outros. Eu gosto do Fagner e acho que ele merece essa chance. Quem poderia competir com o Fagner, e não com o Dani Alves, é o Rafinha, do Bayern de Munique.

Quem é o melhor jogador com quem você jogou? E o mais inteligente?
Ronaldo e Zidane. Sem dúvida. O Ronaldo é um patamar acima de tudo o que eu já vi. Incomparável. Um absurdo. Tirando ele, na seleção, o Ronaldinho Gaúcho também me surpreendia. O Totti também era outro jogador espetacular. E posso falar do Zidane, um craque, o jogador mais inteligente com quem eu joguei. O Florentino Pérez, presidente do Real Madrid na época, dizia que ele deveria jogar de “traje”, de terno, tamanha a elegância e inteligência dele dentro e fora de campo.

Você fez amigos no futebol?
Muitos. Roberto Carlos, Guilherme e Veloso, da época do Atlético-MG, Alex Bruno, Aloísio Chulapa, Alex Pirulito, Luizão, Amoroso, Mineiro, Josué, Danilo, Fabão. O futebol nos proporciona muitas amizades, não é “sujo”, como dizem. Sujos são os mal-intencionados. Agora terei a oportunidade de reencontrar um grande amigo que o futebol me deu, que é o Souza, que foi fundamental para essa minha volta. Será um prazer estar de novo com ele, com o Reinaldo, o Nunes. Uma coisa é certa: vai ter muita “resenha” no vestiário.

Cicinho em três fases: São Paulo, seleção brasileira e no galáctico Real Madrid
Cicinho em três fases: São Paulo, seleção brasileira e no galáctico Real Madrid Reprodução

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