Sucessor de Marcos no Palmeiras, Deola supera pausa na carreira com camisa do Taboão da Serra

Time enfrenta São Paulo B pela Copa Paulista com ex-palmeirense no gol 

Com passagem pelo Palmeiras, Deola é goleiro do Cats na Copa Paulista
Com passagem pelo Palmeiras, Deola é goleiro do Cats na Copa Paulista Thiago Walter

Das traves do Palestra Itália à modesta Copa Paulista. Essa é a trajetória de Deola, goleiro que foi considerado sucessor do ídolo Marcos e acumula 107 partidas com a camisa do Palmeiras. Hoje, aos 34 anos, defende o Taboão da Serra e sonha em levar o clube a um campeonato nacional. Ao lado de jogadores como Acosta e o recém-contratado Carlinhos Bala, o ex-palmeirense conversou com o R7 e abriu o jogo sobre a carreira, sua história no Verdão e as aspirações que têm para o futuro.

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Apontado como o provável sucessor do goleiro pentacampeão, Deola viveu altos e baixos no Palmeiras. Criticado por torcedores e jornalistas, ele passou 17 anos no Verdão, chegou a ser capitão da equipe e foi blindado por Marcos, que comemora hoje 44 anos, a quem Deola considera peça determinante para sua carreira: “Foi um pai para mim”.

Antes de ir para a Mooca e jogar pelo Juventus, as dores e o estresse provocados pela profissão levaram Deola a decidir pausar a carreira, em 2016. Ele conta que o período longe dos gramados o ajudou a encontrar novos caminhos e se reerguer como atleta.

Confira a seguir os melhores trechos da entrevista com Deola, goleiro do Clube Atlético Taboão da Serra, o Cats, que enfrenta o São Paulo B neste sábado (5), pela sétima rodada do Grupo 2. A competição vale uma vaga na Série D do Brasileirão. 

R7: Como está sua vida hoje defendendo o Taboão da Serra?
Deola: Eu acertei com o Taboão um mês antes de começar a Copa Paulista. Eu moro na Grande São Paulo, então estou próximo do estádio e da cidade. Tenho alguns projetos paralelos, trabalho com network marketing. Pude voltar para o mercado – em 2016 eu fiquei fora do futebol - e posso tomar conta das minhas outras atividades. Então, intercalando treinamentos e vida empreendedora, a vida está sendo bem agitada.

Deola assumiu a titularidade time de Taboão
Deola assumiu a titularidade time de Taboão Thiago Walter

R7: E quais são as perspectivas para o Taboão da Serra?
Deola: O Taboão é uma equipe que está despontando agora e vem tendo uma visibilidade muito grande por conta de jogadores renomados que tem vindo jogar aqui. Mas não só por isso, também por conta de boas campanhas - quase subiu para a Série A-2 do Paulista neste ano - e o bom projeto que o time tem para tentar conquistar essa Copa Paulista e brigar por um lugar na Série D ou na Copa do Brasil. É bastante ambicioso, mas a gente sabe que tem totais condições de conseguir. A gente tem uma concentração pré-jogo melhor que a de muitos clubes de Série B, inclusive. Temos condições muito boas para trabalhar, salário em dia. Estou bem feliz com o que eu vi, esperava uma coisa e fui surpreendido com algo muito melhor. Gostaria também de dar ênfase ao Marcelo Rangel, meu treinador de goleiros no Cats. Por tudo que eu estou fazendo hoje, tenho que agradecer a ele, que tem me ajudado muito e me colocou em condições de voltar a jogar em alto nível.

R7: Como foi sua passagem na base do Palmeiras?
Deola: Me profissionalizei antes de ir para o Palmeiras, lá no Atlético Sorocaba. Mesmo na base, disputava os campeonatos juvenil e juniores, mas jogava pelo time B, tanto que devo ter mais de 300 jogos pelo Palmeiras B. Em 2006, fui emprestado para o Guarani e lá, disputei uma Série B do Brasileiro. Pude ter um salto grande, pois saí de uma A-3 e fui para a Série B do Campeonato Brasileiro.

R7: Você viveu 17 anos no Palmeiras. Essa longa experiência em um time grande te atrapalhou quando você foi para um clube mais modesto como o Cats?
Deola: Antes de jogar no time principal do Palmeiras e ter uma sequência de 107 jogos, eu já tinha jogado pelo Palmeiras B, que é um pouco disso que está acontecendo: jogos não tão glamorosos, clubes com condição menor. Você tem que saber separar. É lógico que eu não posso chegar no Cats ou no Juventus e achar que vai ter a mesma estrutura do Palmeiras. Aqui, todo mundo faz tudo. São poucas pessoas fazendo o trabalho de muitas. No Palmeiras, eu só ia treinar e ia embora. No clube menor, você tem que se preocupar em ajudar um roupeiro, por exemplo. É uma questão de cabeça. Já vi pessoas que foram para clubes menores e começaram a reclamar, porque não mudaram nesse aspecto. Mas eu estou encarando como um processo de retomada ao mercado. Como fiquei fora em 2016, preciso mostrar para as pessoas que estou em ótima condição. Estou fazendo excelentes jogos e ajudando a equipe. Isso vai refletir lá na frente.

R7: Quais as suas aspirações para o futuro? Você pensa em voltar a um time grande, talvez o Palmeiras?
Deola: Eu não digo um time de Série A, talvez isso ainda seja um pulo muito grande. Mas eu almejo voltar, sei que tenho futebol e condições para isso. Estou provando ao longo desses jogos que tenho condição, inclusive que posso estar melhor do que muitos goleiros de Série B. Mas também deixo nas mãos de Deus. Se estou hoje no Cats, é porque Deus me abriu as portas aqui e tenho algo bom para fazer. Minha vontade é voltar para uma equipe grande. Porém, quem disse que eu não posso ajudar o Cats a ser grande?

R7: Você acha que essa interação dos mais jovens com jogadores experientes está rendendo frutos?
Deola: Com certeza. Acho que está rendendo frutos em todos os sentidos. Isso ajuda na divulgação e, consequentemente, mais dinheiro para o clube. A gente tem jogadores que ainda tem grandes condições de jogo: o Diego (Souza, ex-Palmeiras) está com 33 anos, é novo ainda e chegou há pouco tempo do Japão. O Acosta tem 41 anos, mas continua jogando como um menino. O Álvaro (ex-Flamengo) está bem. Carlinhos Bala acabou de chegar no clube. A gente serve como exemplo para eles porque a gente sabe qual é o caminho e podemos ajudar muito esses meninos a não se perder. Mesmo que um jogador desponte, às vezes ele pode se perder. Nossa ajuda é também no sentido de não deixar um jogador se empolgar tanto e continuar trabalhando.

R7: Você passou um tempo sem jogar futebol, por opção. O que te levou a isso? Como foi ficar longe do esporte?
Deola: Uma série de circunstâncias que me levaram a dar uma pausa. Tive 17 anos de contrato ininterrupto, então meu corpo estava castigado, tinha muitas dores e eu estava estressado. Por conta de ter jogado muito tempo no Palmeiras, eu era um exemplo e cobrado para ser um líder nos clubes em que passei. E eu não conseguia render por conta do estresse e das lesões. Então, decidi pausar para melhorar minha questão psicológica e aproveitei para aprender mais sobre outros segmentos. Me descobri na área do empreendedorismo. Comecei a estudar e aprendi um pouco mais sobre mercado, o que foi muito positivo para mim.
Eu sabia que para o futebol seria ruim. “Quem não é visto não é lembrado”. Esse jargão é verdade. E na metade do ano, eu decidi que era hora de retornar. Já estava com vontade. Estava em Fortaleza e voltei para São Paulo para continuar meu treinamento, fiquei um tempo preparando partes física e técnica. E foi aí que fechei contrato com o Juventus para jogar o Campeonato Paulista 2017.

Deola passou 17 anos com a camisa do Palmeiras
Deola passou 17 anos com a camisa do Palmeiras César Greco/Fotoarena/Folhapress

R7: Como o Marcos foi importante no seu crescimento como goleiro?

Deola: Eu cheguei em 2000 e ele parou em 2012. Foram 12 anos. Ele foi determinante para eu ser o que sou hoje. Mas não só ele, os treinadores de goleiros também, principalmente o Carlos Pracidelli. Todos que passaram por lá me ajudaram muito a crescer. O Marcão, mesmo quando não falava nada, eu já o observava e me espelhava muito. Ele sempre me ajudou. Por conta da diferença de idade, dá até para falar: ele foi um pai para mim dentro do clube. Ele fica bravo quando eu falo pai. Ele fala “pai não, irmão, pô”. Só fui o Deola de poder ter mais de 100 jogos no Palmeiras e ser capitão por conta dos ensinamentos dele.

R7: Quando o Marcos se aposentou, como foi a passagem da titularidade? Você era visto como o provável sucessor dele.
Deola: Eu que estava jogando quando ele parou. Antes de ele parar, eu estava jogando muito mais (tempo) do que ele. Para todos, a conversa era de que o Marcão era o titular. Mas para nós, sabíamos que eu era o titular. Tanto em 2010 como em 2012, ele jogou menos do que eu. Teoricamente, eu era o titular do Palmeiras. Antes de o Marcos parar, ele estava me blindando. Os jornalistas e a torcida ponderavam mais um gol. Por exemplo, se eu tomava um gol na gaveta em que a culpa não era minha, o pessoal sabia que se falasse qualquer coisa, o Marcão ia lá me proteger e falar que realmente não tinha sido minha culpa. Mas depois que ele parou, o gol na gaveta já era culpa do goleiro. Não só minha, mas dos outros goleiros que passaram por lá. Juntando isso com o momento não muito bom do Palmeiras, que não tinha um grande elenco, talvez possa ter atrapalhado um pouco, mas não que seja algo determinante. Sou grato, joguei 107 partidas pelo Palmeiras e fui muito feliz no tempo em que fiquei lá.

*Pedro Rubens Santos, estagiário do R7