São-paulinos descumprem norma e se infiltram entre palmeirenses

MP recomenda torcida única para clássicos no Estados de São Paulo

Torcedor sofreu no Allianz Parque
Torcedor sofreu no Allianz Parque André Avelar/R7

Em meio a um mar de camisas verde e branco no último domingo (27), no Allianz Parque, um ou outro estranho no ninho apareciam ainda que timidamente. E nem se tratavam das duvidosas variações de terceiro uniforme em verde-limão ou azul-Savoia, mas sim torcedores são-paulinos que descumpriram a recomendação do Ministério Público Estadual e acompanharam o clássico infiltrado na torcida palmeirense, pela 22ª rodada do Campeonato Brasileiro.

“Já xinguei gol do Jô para fingir que não era corintiano”, diz infiltrado

Evidentemente, esses não estavam com o uniforme tricolor, mas com opções de roupa que davam indícios de que poderiam não pertencer ao grupo de mais de 33 mil pessoas, na zona oeste da capital paulista. Mais do que isso, o silêncio enquanto os donos da casa adaptavam o Hino Nacional para “Meu Palmeiras, meu Palmeiras, meu Palmeiras”, nada  tinha a ver com patriotismo. Os quatro gols ainda no primeiro tempo, dois para cada lado, foram as provas que faltavam para uma análise superficial do comportamento de torcedores infiltrados.

O são-paulino D.N., de 16 anos, contou que essa foi sua segunda vez no estádio palmeirense, a segunda vez com uma camiseta preta apesar dos também rivais corintianos. Assim como em março deste ano, no Campeonato Paulista, viu seu time ser derrotado por um largo placar. Ao menos o estudante se sentiu recompensado com muita adrenalina por ter de conter as emoções para evitar conhecidos episódios de violência dentro do estádio. Mais do que isso, estava em jogo a vontade de alguma forma ajudar o time a sair da zona de rebaixamento.

“É difícil de conter. No primeiro gol, do Marcos Guilherme, fiquei quieto assim como o estádio inteiro, mas a vontade era de comemorar”, disse o jovem, que foi sozinho ao estádio e ficou estrategicamente posicionado ao lado de policiais militares. “No 3 a 0 para Palmeiras, com gol de cobertura em cima do Denis, fui embora faltando 20 minutos para acabar o jogo. Aquele não dava. Ia dar m...”

Com o jogo rolando, as respostas para “você é palmeirense?” eram mais corporais e nem todos os potenciais são-paulinos topavam falar. Os acessos dos jornalistas, claro, também eram limitados e o contato com torcedores não era dos mais fáceis. Muita gente inclusive desconfiava da credencial de repórter e também temiam a rápida exposição em redes sociais.

“Você só pode estar querendo me f... Não viu aquele vídeo do corintiano lá? Aqui não rola né”, disse um torcedor, que não quis sequer revelar suas iniciais.

A desconfiança tem motivo. Há uma espécie de patrulha na internet que identifica torcedores rivais infiltrados. Foi assim que palmeirenses descobriram um corintiano, no clássico em julho, também no Allianz Parque. A informação foi repassada até quem estava no estádio e a identificação foi rápida. O rapaz estaria transmitindo vídeos e áudios no WhatsApp para um grupo de amigos corintianos. Torcedores o cercaram e o levaram rispidamente para fora das arquibancadas. Um deles ainda o agrediu com um tapa no rosto, enquanto outros gritavam para não bater no jovem.

Levado naquela ocasião ao Jecrim (Juizado Especial Criminal), dentro do estádio, o torcedor de calça preta e camisa cinza disse que não queria confusão e era palmeirense. Uma rápida busca da Polícia Civil nas redes sociais, no entanto, confirmou que o torcedor era realmente corintiano e, ao contrário do que dizia, a briga não era pelo mau desempenho do Palmeiras, que perdeu aquele jogo para o rival.

Em casos assim, a Polícia Militar faz a contenção (não entra no mérito da análise jurídica) e apresenta o torcedor ao delegado, que analisa e pode indicar a existência do crime previsto no Artigo 41-B do Estatuto do Torcedor, que trata de “prover tumulto, praticar ou  incitar a violência, ou invadir local restrito aos competidores em eventos esportivos”. Uma questão delicada, no entanto, é analisar se houve dolo e intenção ou não de provocar tumulto. Em geral, a pena aplicada é o afastamento dos estádios de futebol de três meses a um ano se primário, tendo de se apresentar à delegacia em todo jogo do time se for torcedor organizado.

São-paulino usou camisa do Brasil
São-paulino usou camisa do Brasil André Avelar/R7

“Se esse torcedor vir aqui – obviamente, camuflado, escondido – e não se manifestar, ir embora para casa, ótimo. O problema é quando ele se manifesta”, disse o juiz do Anexo de Defesa do Torcedor, Ulisses Augusto Pascolati. “O delegado vai analisar e perceber que isso é objetivamente crime. Ele faz o Termo Circunstanciado, apresenta ao Ministério Público, que olha e vê que realmente é crime, faz uma proposta que é a de afastamento e eu aplico a sanção.”

Desde abril do ano passado, no dia seguinte à morte de José Sinval Batista de Carvalho, de 53 anos, – mesmo sem participar de nenhuma torcida, levou um tiro no peito depois um encontro entre cerca de 50 palmeirenses e corintianos em São Miguel, na zona leste da cidade – o Ministério Público recomendou à Secretaria de Segurança Pública do Estado adoção de torcida única até o final daquele ano. A medida foi renovada no início deste ano com alguns benefícios às torcidas organizadas por uma espécie de “bom comportamento”. Um acordo com o 2º Batalhão de Choque liberou instrumentos musicais, bandeirões e faixas.

Na partida do último domingo, uma confusão entre cerca de dez torcedores movimentou a arquibancada do gol norte do estádio. Levados ao Jecrim, um deles disse se tratar de um “bambi infiltrado” e até falou para “a polícia dar uma coça nele, mas não pode”. O juiz Pascolati disse que a acusação não se comprovou e se tratava apenas de uma discussão de arquibancada.

O torcedor, V.S., de 18 anos, que acompanhou a partida do lado oposto da confusão, disse que não é apenas a superação do medo que faz com que um torcedor do São Paulo se passe por um do Palmeiras diante de um estádio inteiro. Há também o desejo de conhecer o pensamento e o comportamento dos adversários e exercer o direito de simplesmente ver o que ainda é só uma partida de futebol.

“Hoje em dia, não vou ao estádio rival para postar no Instagram. Eu gosto de ver jogo”, contou o torcedor, que escolheu uma camisa da seleção brasileira para se camuflar. “Uma pena que pela violência ainda não dá para termos torcida mista aqui em São Paulo. Ainda está muito longe disso. Acho que ainda estamos muito crus para isso. É um sonho. Seria animal assistir a um jogo tranquilamente ao lado de um amigo palmeirense.”

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