Você já ouviu falar da "experiência queniana"?

Atleta brasileiro conta como é

Por Stephanie Nascimento

Ademir, de jaqueta branca, corre ao lado de um queniano
Ademir, de jaqueta branca, corre ao lado de um queniano Arquivo Ademir Paulino

Em celebração do dia do Nacional do Atletismo, que foi comemorado na última segunda feira (9), vamos mostrar a experiência do atleta Ademir Paulino, referência no Aquathlon (natação e corrida), tendo sido o campeão mundial da modalidade em 2011, em Pequim.

Em agosto deste ano, Ademir realizou o sonho de participar do The Kenya Experience. O projeto proporciona uma experiência única, durante cerca de 20 dias, com os melhores corredores do mundo, os quenianos.

No The Kenya Experience, você come, dorme e faz exatamente os mesmos treinos que os quenianos. Claro, talvez você não consiga acompanhá-los no ritmo, mas terá a experiência de poder participar e estar presente em cada etapa do treinamento.

Ademir nos recebeu em uma palestra para alunos e interessados sobre a sua experiência no Quênia. Em clima descontraído, a primeira mensagem foi sobre a realização de um sonho de criança. Desde pequeno ele tem contato com o esporte e o Quênia sempre despertou um interesse a mais, conta, devido aos grandes resultados que esses atletas comumente obtem nas provas de corrida. Daí em diante, começou a pesquisar e a coleta de informações, sempre tão escassas, sobre esses atletas magníficos para tentar entender o porquê de tamanha diferença nas performances.

"Eu sempre pesquisei sobre os atletas quenianos, mas é difícil. Tem poucas coisas falando sobre eles. Eu sempre quis saber mais sobre os caras, como eles treinam, onde eles estão, o que eles fazem para serem tão diferentes. E isso já vem há muito tempo. Em rede social sigo tudo que vem de lá. Sempre procurei e, há mais ou menos uns seis anos, um treinador que foi pro Quênia, abriu um Camp, que é uma maneira de trazer atletas de fora para vivenciar o jeito queniano de treinar. Eu fiquei sabendo disso logo no começo, mas estava em uma outra fase, treinando para os mundiais. E nesse ano, por incentivo da minha esposa, sei que não parece mas vou fazer 40 anos, pensei: 'bom, chegou a hora'. Era um sonho de criança", revela.

Os quenianos são os melhores corredores do mundo
Os quenianos são os melhores corredores do mundo Arquivo Ademir Paulino

O Training Camp fica localizado em uma cidade no Quênia chamada Iten, a 2.400 metros de altitude, dentro do Vale do Rift, uma região de placas tectônicas que cortam alguns países da África. O local é um vilarejo com mais ou menos 20 mil pessoas e a pobreza é marcante na cidade. Porém, dentro do centro de treinamento tudo era diferente.

"Dentro do Camp era primeiro mundo, tinha TV, Wi-fi, sala de musculação. Lá eles recebem atletas três vezes ao ano, no começo de janeiro, em julho e agora em agosto, quando eu fui. Eles oferecem palestras com atletas que estão despontando, que já estão ganhando prova, como Wilson Kipsang — vencedor da Maratona de Berlim em 2016 e Abel Kirui — medalha de prata nas Olimpíadas de Londres em 2012, e palestras com os treinadores. Foi muito legal a visita aos Camps dos atletas, aula de funcional três vezes por semana e o locais de treino".

A África é reconhecidamente segregada em diversas tribos. Especificamente em Iten, a casa dos Kalenjis, as principais características da população local são a extrema magreza, pernas alongadas e extremamente finas e, claro, exímios corredores.

Outra característica local são as corridas em grupo. Eles sempre saem para correr em grupo. Grupos imensos. O corredor mais forte, sai com o mais fraco, o mais lento com o mais rápido. E acreditam que isso é o segredo da evolução. A qualquer hora do dia você encontra grupos imensos correndo juntos, mas pela manhã é quando a maioria treina.

“Eles correm em um grupo imenso e extremamente coeso. A energia de todo mundo fazendo força, te leva. A imagem que nunca mais vou esquecer, o sol estava nascendo e a silhueta dos atletas na minha frente. Ninguém falava nada. Estava muito emocionado.’’

Ademir conta que dentro do centro de treinamento tudo era igual aos atletas. Lá existem três centros de treinamentos, o que ele estava, e mais dois. Um para os atletas que não tem treinador e para os atletas que já têm treinador e estão despontando. Os dois centros são bem pobres e sem muita estrutura, pois, por incrível que pareça, nenhuma marca oferece alguma infraestrutura aos espaços, ainda que algumas delas estejam diretamente com os atletas mais notáveis. Infelizmente, são poucos que têm esse privilégio.

Todos os dias as 6h o pessoal sai pra correr em jejum. A explicação é que a base da alimentação deles é o carboidrato. "A gente acordava, bebia uma água e ia encontrar os pacemakers. No Camp, eles tinham oito pacemarkes para quem quisesse treinar e formavam-se os grupos conforme os ritmos e saíamos para correr. Iten está em 2400 metros altitude, no primeiro eu não senti muito altitude. Logo na saída eu comecei a ficar um pouco ofegante. Na primeira subida comecei a ficar para trás com um nó na garganta, sem conseguir respirar. Eu puxava o ar e não vinha. Pensei: 'Estou no Quênia, não vou andar!'. Corri seis quilômetros em 24 minutos e fiquei com dor de cabeça o resto do dia. Outra adaptação importante ao correr em Iten é o terreno. As ruas são muito esburacadas, você olha os quenianos correndo parece fácil, mas não é".

Correr para os Kalenjis foi um modo de sobreviver naquela região. Um local onde tudo é muito longe e a pobreza predomina, eles sobressairam-se através da corrida. Correr é o principal meio de transporte da região: é correndo que eles vão para a escola, hospital, pegar água e até mesmo para o treino (de corrida). A corrida ali é um movimento natural.

Outra atração dentro das dezenas de grupos que correm pelas ruas de Iten, é o Fartlek. Um tipo específico de treino que tem como objetivo aumentar e diminuir o ritmo dentro de uma corrida contínua e acontece toda quinta-feira. É o fartlek mais conhecido do mundo. Ademir, sabia desse momento e aguardava com ansiedade.

Ademir aparece aqui na garupa da moto
Ademir aparece aqui na garupa da moto Arquivo pessoal Ademir Paulino

"O Fartlek é tão esperado na semana que tem até largada. São cerca de 600 a 1000 atletas juntos e eles fazem o mesmo treino. Tem uma espécie de largada e do nada eles começam o treino, como se fosse uma manada saindo. Eles têm uma consciência de grupo muito grande. Eu acompanhei em uma moto e eles estavam a 30km/h. Pra mim foi o mais interessante de tudo", explica o atleta.

A realidade dos corredores quenianos é completamente diferente da grande maioria dos corredores brasileiros e talvez do mundo. Toda a nossa preocupação, como suplementação, relógio específico para corrida e o tênis para tal pisada, nada disso existe lá. O tênis é o que tem, não há a suplementação, toda a comida deles é plantada por eles mesmo, e quanto ao relógio, os poucos que têm só marcam o tempo das voltas. O Ademir perguntou porque eles não usam GPS para correr e um deles disse que queniano não gosta disso.

Em Iten, tem duas pistas de atletismo. Uma de terra batida, toda esburacada, e uma pista oficial, de Tartan, um piso de borracha impermeável, feito por uma moradora e campeã da maratona de Tóquio em 2016, Helah Kiprop. Apesar das duas pistas estarem acessíveis para toda a população, quase todos os corredores preferem correr na pista de terra. O motivo? É mais difícil. Os quenianos gostam da dificuldade e acreditam que correr na outra pista é muito fácil.

Ademir tinha alguns objetivos no Quênia: ver o famoso fartlek era um deles, e correr na pista onde os maiores atletas do mundo correm era, sem dúvida, o maior deles.

"Um dos sonhos era treinar com os caras ali. Eu estava fazendo uma sequência de 400 metros. E eu fiz algumas voltas, e parece que o tempo parou. Sabe aquela coisa de conquistar um sonho? Pra mim parecia que a volta era uma maratona, sabe? Eu estava correndo e ouvindo o barulho dos caras correndo do meu lado. Parecia que a força do grupo me levou junto. Foi demais".

Uma questão recorrente entre os corredores é sempre a alimentação, o que comer para treinar com mais disposição e também perder peso é assunto que sempre entra nas discussões. Para os corredores de Iten, a base da alimentação é feita quase exclusivamente por carboidrato, como Ugali uma massa feita de milho, pão, milho, mandioca, abóbora, lentilha, arroz, macarrão e verdura. A proteína da semana vem através do ovo, sempre no café da manhã. Questionado sobre o consumo de carne, seja vermelha ou branca, os corredores quenianos disseram que só ingerem carnes nos finais de semana, pois alegam que deixa o corpo pesado para correr.

Ademir correndo logo pela manhã
Ademir correndo logo pela manhã Arquivo pessoal Ademir Paulino

Uma das curiosidades do nosso entrevistado era o resultado que a altitude teria em seu corpo, quando ele voltasse para o Brasil.

Dias antes de ir embora, Ademir já tinha se adaptado a altitude de Iten e junto com seu guia, Emanuel, decidiu correr junto com os famosos grupos que ele já tinha acompanhado, só que de moto. Ainda na escuridão do início da manhã, o grupo se reuniu e as orientações foram passadas devidamente traduzidas, pelo guia e amigo, Emanuel. Era uma volta de 18 quilômetros e foi pedido para que o ritmo não fosse tão forte por ser um percurso longo (3’50-4’00/km).

Ademir estava só o coração. Emocionado de correr junto com dezenas de quenianos e conseguir acompanhá-los foi sem dúvida um momento inesquecível. Mas, por volta do sétimo quilômetro, sem conseguir ver onde estava pisando, ele torceu o pé e teve de parar.

Não era isso que ele queria e esperava. Estava tudo acontecendo naquele momento. A enfim adaptação com a altitude, conseguir entrar no pelotão e acompanhar e se sentir parte do grupo. Era energia pura. O pé virou e inchou no mesmo minuto. Voltaram andando para o Camp, mas com algo que com certeza nunca irá embora. Ainda bem que a torção veio no último dia.

“Após 22 dias sem nadar, quando eu voltei, não fiquei ofegante. Termina os tiros conversando. Na natação eu pude sentir a diferença, a facilidade. Quem nada sabe que ficar duas semanas sem nadar é complicado".

A experiência marcou Ademir, foram vários sonhos realizados ao longo dos 20 dias no Quênia.

“Quem me conhece sabe o quanto eu queria fazer essa viagem. Eu já treino desde criança e os quenianos sempre foram os meus heróis. Os grandes corredores vêm da África e para mim os quenianos sempre foram a referência".

Ademir Paulino é o técnico responsável pela assessoria esportiva que leva seu nome. Além de ser referencia entre os atletas brasileiros em Aquathlon (natação e corrida), sendo Bicampeão Brasileiro (2009/2010), quinto colocado no Mundial Austrália 2009 e Hungria 2010, Campeão Mundial (2011), em Pequim e nono colocado em Londres (2013).

Veja mais informações sobre o trabalho do nosso entrevistado.

Asante Sana!

(Muito obrigada na língua dos Kalenjis!)

Os quenianos não param de correr
Os quenianos não param de correr Arquivo Ademir Paulino
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