Publicado em 21/02/2013 às 00h17
A (quase) conquista de Oruro
Impressiona imaginar de que maneira surgiu, no comecinho do Século XVII, a 3.735 metros de altitude, uma cidade moderníssima para aqueles tempos. Aliás, essencialmente impressiona imaginar por que razão alguém desejaria habitar uma região inóspita, de ar quase irrespirável.
Uma palavra explica: prata. Então, os espanhóis que invadiram a Bolívia constataram que, habitualmente, os urus, nativos que moravam lá em cima desciam a ribanceira para trocar peças do precioso metal por alimentos.
A ambição gritou mais alto do que o sacrifício. E, ao descobrir que a região era praticamente toda de prata, um certo Manuel de Castro y Padilla determinou a destruição das cabanas dos urus e o levantamento das bases de tal cidade, planejada como um tabuleiro de Xadrez, ao estilo de algumas das metrópoles mais interessantes da Europa do período.
Castro y Padilla implantou a sua pedra fundamental em 1 de Novembro de 1606. E, entre seus patrícios e escravos negros, utilizou na edificação da vila cerca de 15.000 pessoas. Deu-lhe o nome de San Felipe, em honra do seu monarca. Um nome que se manteve até 10 de Fevereiro de 1781, com a eclosão de um movimento libertário que se espalharia pelos Andes.
Claro, foi obrigatório o rebatismo da vila, que já abrigava 50.000 pessoas e que, desde então, se tornou Uru-Uru, ou Oruro, “o coração da terra”.
A prata acabou, o estanho assumiu a sua posição, o estanho também acabou – mas, ainda assim, graças às suas peculiaridades, às suas festas, às suas danças, ao turismo, Oruro cresceu. Atualmente, lá vivem 235.700 pessoas. Lá nasceu, amadorísticamente, em 19 de Março de 1942, o Club Deportivo San José, que se tornaria profissional apenas em meados de 1977.
O San José só obteve dois títulos nacionais da Bolívia, em 1995 e em 2007. Só obteve cinco vezes uma classificação à Libertadores. Quer dizer, no papel, jamais seria um adversário sequer decente para o Corinthians, atual dono da principal taça sulamericana, atual campeão do mundo. Porém...
Baratíssimo, o elenco do San José custa menos de R$ 1,2 milhão ao ano – no Timão, o garoto Alexandre Pato arregimenta metade dessa quantia ao mês. O clube de Oruro, no entanto, dispõe de um craque extraordinário, eventualmente decisivo – o ar rarefeito dos seus 3.735 metros de altitude.
Em tal cenário os desacostumados, ou mal preparados, sangram pelo nariz, sentem que a garganta e os pulmões se queimam, ficam tontos, enjoados.
Para minimizar os efeitos da altitude, a delegação do alvinegro aterrisou em Oruro meras quatro horas antes de a partida principiar. Mais: carregou, na bagagem, bujões suplementares de oxigênio. E, no gramado, procurou, pacientemente, desfrutar o errro do rival, como orientou o treinador Tite.
Uma primeira chance surgiu logo aos 6’, num lance surpreendente em velocidade, pela esquerda, um cruzamento de Fábio Santos e um petardo de Gallardo. O ritmo imposto pelo Corinthians impactou o San José. Depressa, contudo o clube da casa mostrou que também tinha o seu trunfo. No caso, o chutão em profundidade, por cima da plantada retaguarda do Timão.
Não havia dúvida em relação às diferenças técnicas que separavam as duas equipes. De todo modo, restava saber se os atletas do alvinegro manteriam o seu fôlego diante da correria desenfreada dos seus rivais da Bolívia. No ar rarefeito é crucial evitar que o desgaste prolifere descontroladamente.
Alívio para timão, recebeu algumas ameaças estabanadas e foi aos vestiários e aos bujões de oxigênio com 1 X 0 no placar. Na volta à etapa derradeira, Tite não realizou qualquer mudança. Mas, precavido, o treinador mandou que todos os seus suplentes se aquecessem. Azar do Corinthians, aos 61’, García, fresquíssimo, recém-entrado em campo, cruzou da esquerda e, depois de uma confusa saída de Cássio, o veterano Carlos Saucedo igualou.
O Timão forjou uma chance preciosa aos 65’, quando Guerrero cruzou da esquerda e, a dois passos da meta vazia, Émerson aparou no poste. O mesmo Émerson ainda desperdiçou, aos 67’ – poderia invadir a área e colocar num canto mas optou por um chutão sem destino. Aos 71’, Tite decidiu tirar Émerson e se arriscar com os pulmões mais jovens de Pato.
Mais azar do alvinegro: aos 74’ o zagueiro Paulo André, exaurido, com dor de cabeça, pediu substituição. Tite precisou recorrer a outro garoto, Felipe. Daí, os últimos momentos do cotejo transcorreram de maneira torturante.
Consolos? Vários. Na sua (quase) conquista de Oruro, o Corinthians sobreviveu à altitude. Ampliou a sua invencibilidade internacional, entre Libertadores e Mundial, para dezessete jogos. Não perdeu nenhum dos seus atletas para lesões. E certamente vai atropelar o San José em São Paulo.
PS.: Absurdo, grotesco, tenebroso, terrível, o episódio que levou à morte do adolescente Kevin Douglas Beltrán Espada, catorze de idade, atingido por um rojão sinalizador, aparentemente atirado por torcedores do Corinthians. Ao menos, doze foram detidos, identificados - aliás, todos com objetos semelhantes ao que teria causado a morte de Kevin. Atestada a sua culpa, ou a sua cumplicidade no crime, todos precisam ser punidos, exemplarmente, e pelas leis da Bolívia. Agora, sobram no ar rarefeito algumas questões: 1) Como os cretinos passaram com os rojões na alfândega do Brasil? 2) Como passaram com os rojões na alfândega da Bolívia? 3) Como entraram com os rojões no estádio etcetera e tal? Estupidez à décima potência.
Dê a sua opinião. Pode discordar, se quiser. Juro que não fico bravo.
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Publicado em 22/12/2012 às 20h11
Análises intuitivas da Libertadores/2013
Desprezo as especulações. Mais: fujo radicalmente de qualquer tentativa de distribuir palpites. De todo modo, há momentos em que, profissionalmente, me sinto obrigado a fazer análises que se confundam com previsões.
É o caso da divisão dos clubes da próxima Libertadores de América.
Minhas análises, porém, serão mais intuitivas do que tecnocráticas.
GRUPO 1
Barcelona (EQU), Nacional (URU), Boca (ARG), Toluca (MEX)
A sua rivalidade de antologia deverá desgastar Nacional e Boca, que ainda precisarão desafiar o Toluca na altitude de 2.680m. Qualquer escorregão dos pré-favoritos poderá facilitar a classificação de um dos azarões.
GRUPO 2
Sporting Cristal (PER), Libertad (PAR), Palmeiras (BRA), Tigre (ARG) ou Deportivo Anzoátegui (VEN)
Clássicos nas suas pátrias, em outros idos, o Sporting Cristal (29 presenças na história da Libertadores) e o Libertad (catorze) são os maiores rivais na luta do Palmeiras, recém-rebaixado à Série B do Brasil, pelo resgate da sua honra. Caso o Verdão se reaprume, na sua política interna, e reforce o seu elenco claudicante, talvez não sofra muito para se qualificar. Um problema promete ser o Tigre, semanas atrás em guerra contra o São Paulo.
GRUPO 3
Arsenal (ARG), The Strongest (BOL), Atlético Mineiro (BRA), São Paulo (BRA) ou Bolívar (BOL)
Para sobreviver na competição, o São Paulo necessitará superar o Bolívar nos 3.650m de altitude de La Paz – isso, apenas poucos dias depois do fim das férias dos seus atletas. Uma altitude, aliás, à qual retornará no seu jogo diante do Strongest. Sem falar que, no seu trajeto, ainda existirá o Atlético Mineiro, bem mais descansado. Complicado o destino do Tricolor...
GRUPO 4
Velez Sarsfield (ARG), Peñarol (URU), Emelec (EQU), Deportes Iquique (CHI) ou León (MEX)
De novo paira a rivalidade de antologia entre a Argentina e o Uruguai. Mas, neste caso, nada que possa comprometer a qualificação de Velez e Penãrol diante de três clubes sempre irregularíssimos na temporada de 2012.
GRUPO 5
Corinthians (BRA), San José (BOL), Millionários (COL), Tijuana (MEX)
Os três rivais, especificamente, não assustam o detentor da Libertadores e do título Mundial. Bem mais preocupam o Timão as distâncias a viajar e as altitudes a escalar. Oruro fica a cerca de 2.400 quilômetros, 3.735m acima do nível no mar. Bogotá, cerca de 4.300 quilômetros, 2.626m acima do nível do mar. Tijuana, apenas cerca de 30m acima do nível do mar – mas, um percurso aéreo exaustivo, de cerca de 9.700km. Verdade que os astros do alvinegro acabam de completar uma volta inteirinha no planeta. Ficarão felizes, no entanto, se arrancarem meros três pontos como visitantes.
GRUPO 6
Independiente de Santa Fé (COL), Cerro Porteño (PAR), Real Garcilaso (PER), Tolima (COL) ou César Vallejo (PER)
Um conjunto fraquérrimo, com levíssima primazia para o Cerro Portenho, especialmente por causa da agressividade da sua torcida. Neste Grupo 6, em um desenrolar sem brilhos, absolutamente tudo, tudo, pode acontecer.
GRUPO 7
Deportivo Lara (VEN), Universidad de Chile (CHI), Newell’s Old Boys (ARG), Olímpia (PAR) ou Defensor (URU)
Um conjunto equilibrado, embolado, sem nenhum destaque particular.
GRUPO 8
Fluminense (BRA), Uachipato (CHI), Caracas (VEN), Grêmio ou Liga Deportiva Universitária de Quito (EQU)
Programado para a atapa eliminatória do torneio, o desafio entre o Grêmio e a LDU promete exibir um drama de emoções singulares. A LDU evolui, ano a ano, e hospeda o Grêmio na altitude de 2.800m. Quem sobreviver vai brigar com o Fluminense pela primeira colocação dentro deste quarteto.
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Publicado em 08/12/2012 às 19h21
O Corinthians e o verde
Considero uma infantilidade, uma tolice, a diretoria do Corinthians, presente no Japão, solicitar à FIFA a eliminação, no mínimo a troca, de um logotipo que todos os clubes do Mundial são obrigados a utilizar, no torneio, na manga esquerda da sua camisa de jogo.
Tudo porque, no tal logotipo, existe um detalhe em verde.
O mesmo verde do rivalérrimo Palmeiras.
Trata-se, afinal, do logotipo de um projeto nobilérrimo da FIFA, o chamado “Football for Hope”, ou “Futebol pela Esperança”, que a entidade idealizou em 2005, depois da realização de um duelo amistoso, em Barcelona, entre um time comandado por Ronaldinho Gaúcho, então astro do Barcelona, contra um elenco liderado por Shevchenko, então craque do Milan.
O cotejo serviu para a arrecadação de fundos em benefício das vítimas do desastroso tsunami que, em 2004, havia devastado o Oceano Índico.
Funcionou tão bem que a FIFA decidiu ampliar o seu objetivo.
E, em 2010, o “Football for Hope” passou a abranger diversas outras atividades:
Ações que caracterizassem responsabilidade social.
Ações em favor do Fair Play no esporte e fora do esporte.
Ações anti-racismo e anti-discriminação de qualquer tipo.
Ações de apoio à proteção do meio-ambiente.
Ações de apoio ao futebol de rua.
Ações de apoio à construção de centros de referência.
O logotipo é singelíssimo. Verifique, você mesmo/a, neste link:
http://www.streetfootballworld.org/football-for-hope2
E o seu verde, na verdade, apenas representa um campo de futebol.
Tudo bem, eu sei, existiu quem, na cartolagem do Timão, propusesse que o campo da Arena de Itaquera fosse coberto por grama cinza ou preta.
Felizmente, o bom senso evitou que tal ridicularia predominasse.
Sim, eu sei, o campo-society em que os operários envolvidos na construção da Arena batem a sua pelota ostenta um tapete cinza, de material sintético.
Mas, fazer o quê com a bandeira do Brasil que, certamente, estará sempre hasteada na Arena? Fazer o quê com a Cafusa, a pelota oficial da Copa de 2014, basicamente verde? Como dizia meu pai: ora, que mentalidade!
Além disso, saiba você, o Corinthians já ostentou um toque de verde no seu fardamento. Em 2006, por algum tempo, depois de conquistar o título nacional de 2005, bordou, numa manga, o distintivo oficial da CBF.
Em amarelo, azul, branco – e verde.
Envie o seu comentário. Pode criticar. Juro que não fico bravo...
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Publicado em 19/11/2012 às 22h29
Sem Palmeiras e sem Alonso. Apenas Tevez e o Corinthians…
Prometi aos meus sobrinhos palmeiristas que não escreveria sobre a
nova queda do Palestra à Segunda Divisão. E prometi a mim mesmo que não escreveria sobre as ralas chances de a Ferrari, com Fernando Alonso, conquistar, cá em São Paulo, o título da Fórmula 1/2012.
Nesta mensagem, tratarei do passado, que pode se tornar futuro...
No primeiro dia de Julho de 1990, no comando de uma Lancia Delta prateada (então, eu dispunha de uma carta de motorista e guiava), desci de Roma até Nápoles. Dia 3, a “Azzurra” de Azeglio Vicini pegaria a Argentina de Carlos Salvador Bilardo na semifinal daquela Copa do Mundo.
Para quem não sabe, ou não imagina, Nápoles é uma cidade linda – mas, intratável. Existe quem entre na contra-mão, absurdamente, nos trilhos dos bondes. Moleques de bicicletas motorizadas atropelam o trânsito. Há situações em que o entupimento se mostra grosseiramente cavalar.
Eu me hospedaria nos altos de uma colina. Porém, impossível chegar.
Estacionei a Delta em um posto permitido. E recorri a um táxi.
No papo, inevitável, com o condutor do carro, eu previ o drama.
Garantiu-me, aquele rapaz, que torceria para a Argentina.
Odiava a Itália do Norte. Amava a Itália do Sul, abrilhantada por Diego Maradona. E assim aconteceu. Quando apareci no San Paolo, o estádio já exibia uma centena de faixas em favor da Argentina e de Diego.
A polícia recolheu as faixas.
A “Azzurra”, pior, não recebeu o apoio que mereceria.
Perdeu da Argentina, nos pênaltis.
Pois bem... Fãs deste blog querem saber o que vai ocorrer se houver um duelo Brasil X Argentina na Arena Corinthians, na Copa de 2014.
Apoiarão, os fãs, a Argentina, por causa de Carlitos Tevez?
Duvido-o-dó.
Não sei se Carlitos estará entre os titulares da Argentina.
E, caso esteja, será vaiado. Os torcedores do Timão não perdoam o fato de Carlitos ter apoiado o Boca na decisão da última Libertadores...
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Publicado em 21/10/2012 às 22h43
O conceito imbatível dos pontos corridos
A rodada deste final de semana, a 32ª do Campeonato Brasileiro de 2012, poderia ter garantido, praticamente, o título do Fluminense, os quatro clubes com vagas na próxima Libertadores e os quatro clubes rebaixados à Série B.
No entanto, uma conjunção de resultados providenciou mais algumas jornadas de emoção, ou de desespero, para a tabela de classificação.
De maneira empolgante, no Estádio Independência, o Atlético Mineiro, três bolas na trave e um tento duvidosamente anulado, bateu o líder Fluminense, 3 X 2, nos acréscimos da etapa derradeira, e manteve as suas chances de ainda subir ao topo da classificação.
O Flu empacou nos 69 pontos, o Atlético chegou aos 63.
Grêmio e São Paulo desperdiçaram as possibilidades de se assegurarem entre os quatro melhores. Em casa, para a irritação de seu treinador, Vanderlei Luxemburgo, o Grêmio se limitou a um placar de 0 X 0 com o periclitante Coritiba. No Rio, depois de Luís Fabiano errar a enésima cobrança de pênalti, o São Paulo perdeu do Flamengo, 0 X 1.
Na cota dos 59 pontos, embora já bem longe do título, o Grêmio parece mais tranquilo na batalha pelas vagas da Libertadores. O São Paulo, porém, estacionou nos 55. E pode receber, logo, a companhia do Vasco, 52. Na próxima quarta-feira, o Vasco, em cotejo atrasado, hospeda o Internacional de Porto Alegre.
Resta falar dos porões da tabela. O Atletico Goianiense, que sucumbiu ao Sport Recife, em seus domínios, 0 X 3, configurou a sua condenação à Série B. O Sport resgatou as suas esperanças, 33 pontos.
Ao superar o Cruzeiro, 2 X 0, graças a uma atuação estupenda de Marcos Assunção e de Barcos, o Palmeiras também respirou – embora ainda perambule na UTI. Escalou o degrau dos 32 pontos.
Favoreceu, um pouquinho, a situação do Sport e do Palmeiras, o placar de 1 X 1, no Pacaembu, entre o Bahia e o desfalcado Corínthians. O Bahia atingiu o patamar dos 36 pontos.
Detalhe: ao contrário do que muitos neuróticos imaginavam, mesmo sem oito titulares, entre lesionados e poupados, o Corinthians não entregou a peleja ao Bahia. Na verdade, merecia ter vencido.
Enfim, o Campeonato continua vivíssimo, como convém.
Graças ao conceito imbatível dos pontos corridos.
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