Publicado em 30/01/2013 às 18h28
Os escândalos, na FIFA e no COI, já não mais me surpreendem…
Na data precisa da apresentação cerimonial, no Rio de Janeiro, do cartaz oficial da Copa de 2014, aliás um cartaz horroroso, que me perdôe quem criou tal gororoba, voltaram a pipocar na mídia mundial os escândalos ao redor da FIFA.
Não me surpreendem. E muito menos me chocam.
Como esperar que um negócio que mobiliza cerca de um trilhão de dólares, o dobro em reais, possa manter incólumes e puros os seus envolvidos?
Importa pouco se Jérôme Valcke, o atual secretário-geral da entidade que, supostamente, organiza o futebol no mundo, tenha participado do lobby que encaminhou, ao Brasil, a realização do próximo torneio de 2014.
Também não levo em consideração a denúncia recente de Guido Tognoni, ex-funcionário da portentosa, italiano a quem conheço faz três décadas. Frase de Tognoni: “Na FIFA, em todos os escalões, há um mar de safadezas e de corrupção”.
Sei que Tognoni não acusa por despeito ou por vingança.
Acompanho os bastidores da FIFA, com razoável intimidade, desde 1982.
Cobri, desde então, para a “Folha de S. Paulo”, quase todas as conspirações destinadas à derrubada do João Havelange, o então presidente da entidade.
Testemunhei as tramas de Joseph Blatter, que era o secretário-geral, aparentemente em favor do camerunês Issa Hayatou, inimigo de Havelange, ambos, o africano e o brasileiro, posteriormente acusados de receberem propinas várias. E suas tramas, de Blatter, em favor do italiano Antonio Matarrese, destruído pelo fracasso da “Azzurra” em 1990.
Naquela ocasião, em Roma, discretamente, todas as manhãzinhas, eu me alojava na barbearia do hotel-sede da FIFA e, graças ao apoio de um amigo do lugar, me instalava bem ao lado da poltrona que Blatter cotidianamente procurava.
Jamais afirmarei que ficamos amigos. Aos poucos, porém, Blatter assumiu uma certa confiança em mim. Um periodista brasileiro, afinal, lhe seria utilíssimo na divulgação de informações que interessariam à sua carreira no porvir do futebol. Entre uma manuseada de tesoura e uma subida e descida de navalha, ele se escancarava.
Obviamente, eu sempre soube discernir a maldade e o indispensável.
Foi Blatter, todavia, quem me contou que, numa reunião íntima da FIFA, ao constatar que não somaria nenhum suporte na sua batalha pelo cargo máximo na entidade, Matarrese chutou a própria maleta, cheia de documentos, e desapareceu...
Verdade. Pesquise, caro leitor de hoje, os meus textos daquele período.
Os escândalos já se anunciavam, inexoráveis.
Também enviei à “Folha” um artigo, nunca desmentido, dados que capturei, acidentalmente, ao me sentar, num avião, logo atrás de Ricardo Teixeira, da CBF, e de seu parceiro Kleber Leite, empresário de placas publicitárias em estádios e futuro presidente do Flamengo. Num papo regado a uísques e correlatos, Teixeira declarou que Sebastião Lazaroni, treinador do Brasil, era “um burro, um imbecil”. Pudesse, em plena Copa, teria demitido o pobre Lazaroni.
A “Folha” publicou boa parte daquele artigo na sua capa.
Verdade. Gravei, num microzinho, o diálogo surrealista.
Na terça-feira, ontem, 29 de Janeiro, o respeitadíssimo semanário “France Football” espalhou ao universo que a Copa de 2022 foi “comprada” pelos petrodólares do Qatar. Alguma novidade? Não, absolutamente nenhuma, para este veterano redator.
PS: Sobre o COI, retornarei ao assunto, com mais espaço. Até lá...
Envie o seu comentário. Pode criticar. Juro que não fico bravo...
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Publicado em 18/01/2013 às 13h39
Armstrong, uma história arremessada no lixo
Existisse uma competição universal de especialistas em desfaçatez, o ciclista Lance Armstrong bateria o velocista Ben Johnson, aquele dos cem metros nos Jogos Olímpicos de Seul, em 1988, por um bilhão a zero.
Mais do que o crime esportivo de se dopar, o norte-americano cometeu a infâmia moral de mentir, de enganar deslavadamente a sua família, os seus amigos, os seus fãs, os seus adversários e principalmente os integrantes da Livestrong, a fundação que criou para apoiar o combate ao câncer.
Não consigo digerir a confusão que ele faz ao justificar pateticamente a frequência com que usou meios ilícitos para vencer, por exemplo, sete vezes o Tour de France. Diz que, depois de se curar de um tumor em um dos seus testículos, não pensava em outra coisa além de triunfar.
Paralelamente, afirma saber que traiu muitas pessoas em todo o mundo.
Fui um dos seus admiradores mais ferrenhos.
Confesso que, por um bom tempo, enverguei com orgulho a pulseirinha amarela que me demonstrava como um dos partidários da Livestrong.
Hoje, apenas me resta atirar a tal pulseirinha no lixo.
Como fez Armstrong com a sua história.
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Publicado em 04/01/2013 às 17h57
O futuro risonho de Alexandre Pato
Assim que se anunciou a contratação de Alexandre Pato pelo atual campeão mundial de clubes, uma infinidade de anticorinthianos desandou a encher espaços na Internet e nas Mídias Sociais com uma forma curiosa de torcida – desejam eles que, no seu próprio dizer, o garoto esteja “bixado”.
Utilizo o termo na exata maneira com que os autodenominados anticorinthianos escrevem. Ao menos poderiam recorrer ao dicionário e descobrir que o certo é “bichado”. Ou, incapaz de se livrar de uma inacreditável sucessão de lesões.
Corrigir vocabulário, aqui, porém, não importa.
Vale mais examinar o absurdo de tanto rancor.
De um lado, se trata de um sonho maligno: por quê pretender o pior para um jovem que merece tocar a sua vida onde quer que se instale? Por outro, se trata de um sonho tolo. Pois os tais anticorinthianos vão se frustrar.
Cruzei com Duílio Monteiro Alves, co-diretor de futebol do alvinegro, faz mais de um mês, antes mesmo de o Timão viajar ao Japão. Conheço o rapaz desde a década de 80, quando escoltava o “Barba”, seu pai Adílson, na montagem da heróica “Democracia”. Diria que vi Duílio crescer.
Ainda assim, apesar de todos os contatos que mantivemos em cerca de trinta anos, me impactaram a sua presente tranquilidade, a sua maturidade de hoje.
Duílio me detalhou, em minúcias, todo o planejamento estruturado pela comissão técnica do alvinegro em função do mundial oficial da FIFA. Um projeto aparentemente sem vazios – conforme o título demonstrou.
Garantiu que o departamento médico conseguiria recuperar o atacante Paolo Guerrero, recém-machucado. E o peruano se consagrou como o artilheiro decisivo do Timão no mundial. Para a minha surpresa, Duílio também antecipou a intenção de o Timão buscar, na Itália, Alexandre Pato.
Sinceramente, não me assusto com o passado, ahn, hospitalar do garoto. Nos jornais e na TV eu me tornei um especialista no Calcio, o futebol da Velha Bota, e registrei todos os fracassos do chamado Milan Lab, criado em 1999 para, supostamente, livrar os atletas do "Diavolo" das suas lesões.
Com um sorriso de segurança contagiante, Duílio afirmou que o alvinegro, de uma forma discretísima, pacientemente monitorava as atividades de Pato – e que o seu departamento médico saberia como resgatá-lo.
Organização, programação, eis os motes que comandam o Timão.
O departamento médico do alvinegro melhor que o Milan Lab? Não duvido. O Milan Lab, por exemplo, não foi capaz de constatar que, por equívocos dos seus “mágicos”, Pato carrega a punição de um desequilíbrio muscular – de solução elementar. Mais: também não padece de focos infecciosos que atrasariam, ou mesmo impediriam, qualquer tratamento adequado.
Não, Pato não está “bixado”. Muito menos “bichado”. Pode crer.
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Publicado em 13/12/2012 às 17h40
Chelsea e Corinthians, as comparações inevitáveis
Vou me abster, aqui, neste espaço, de colocar lado a lado os elencos do Chelsea e do Corinthians.
Quando prometo que farei comparações entre os dois finalistas do Mundial da FIFA de 2012, eu me refiro a algumas situações exclusivamente não futebolísticas.
Quer dizer, situações que acontecem fora das quatro linhas do gramado.
Nada de bola a rolar no campo.
Por exemplo, a duração da viagem de cada sede até o Japão – vantagem do Chelsea, que percorreu um trajeto mais curto. E o chamado “jet leg”, o cansaço provocado pela diferença de fuso horário – no caso, vantagem do Corinthians, que desembarcou no Oriente quase uma semana mais cedo e se adequou convenientemente.
A adaptação ao frio rascante – vantagem do Chelsea. Na Inglaterra, o inverno é sempre muito mais rigoroso do que no Brasil.
O desgaste da partida de estreia – vantagem do Chelsea, que ignorou o Monterey do México, enquanto o Corinthians padeceu bastante para superar o Al Ahli do Egito.
Trata-se, todavia, de uma vantagem ilusória.
Pois o sufoco que o Timão sofreu bem pode reacender os seus atletas.
E a facilidade que os Blues encontraram bem pode amortecer os seus craques por excesso de confiança e de autosuficiência.
Crucial, o fervor da torcida – vantagem do Corinthians, imensa. No cotejo Chelsea versus Monterey, a torcida do alvinegro literalmente abafou os ralos bordões dos fãs dos azuis.
Enfim, treinador por treinador, vantagem de Tite sobre Rafa Benitez.
Tite seguramente aprendeu bastante com a sua jornada de angústia diante do Al Ahli.
Rafa Benitez, de quem a torcida do Chelsea não gosta e a quem o elenco dos Bleus nem sempre respeita, se comportou petulantemente diante do Monterey.
Sumariamente inventou uma escalação improvisada, Ramires e Lampard no banco, o zagueiro David Luiz, um alvinegro na infância, deslocado como um líbero à frente dos beques. Disse Benitez, após o combate, que pretendia dar ritmo a alguns dos seus pupilos. Talvez. Sacrificou, porém, o conjunto.
Funcionará tão estranha teoria?
Resposta em Yokohama, no próximo domingo.
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Publicado em 06/11/2012 às 11h02
Sobre a educação dos torcedores
Então jornalista de mídia impressa e, eventualmente, de TV, cobri a Copa de 90, na Itália, pela Folha de S.Paulo e pela Band. Foi uma experiência memorável, inolvidável. Uma Copa na terra dos meus ancestrais. Fiquei plantado em Roma, a capital da Bota. A seleção do Brasil estava instalada em Asti, no Piemonte. A mim, porém, cabia escoltar o dia a dia da “Azzurra”, na região de Marino, bem pertinho do Castel Gandolfo, residência de verão dos papas, e o dia a dia da Argentina, alojada em Trigoria, do outro lado da cidade, no CT da Roma.
A Folha me propiciou um carro, uma Lancia Delta, com que, em cinquenta dias, eu trafeguei bem mais de cinquenta mil quilômetros. Aliás, creia quem quiser, mesmo na Itália eu perdi uns 15 quilos. Explicação simples. Havia uma diferença de cinco horas entre a Bota e o Brasil. Uma partida no Estádio Olímpico da capital se encerrava quase por volta de meia-noite lá. Ou, sete da tarde, aqui no do Brasil. Eu enviava os meus despachos e tentava me alimentar.
Descobri uma pequena pizzaria no bairro boêmio do Trastevere e lá eu cravei o meu comedouro. Marco Forte se chamava o chefe da cozinha, por onde ele andará?
Noite após noite eu visitei a pizzaria do Marco até que, subitamente, no corredorzinho que dava entrada ao suave lugar, percebi um bando de brasileiros, vestidos em camisas de times de quinta divisão e, todos, com rudes sandálias havaianas. Todos aos berros, aos palavrões. Rapidíssimo, me escondi num dos banheiros do lugar. O episódio me volta à cabeça por causa das orientações da FIFA a respeito do comportamento dos torcedores do Corinthians, parece que em torno de 20.000, no próximo mundial de clubes no Japão. Há páginas e páginas de recomendações. Servirão? Sinceramente, não sei.
Na Copa de 90 e, depois, na Copa de 94, eu liminarmente fugia dos lugares em que se concentravam os meus compatriotas. Bebiam demais. Faziam barulho em excesso. Bagunçavam... O retorno ao Brasil, depois da Copa de 94, foi insuportável. O voo estava lotado de brasileiros excessivamente felizes com o título. Tanto que não respeitaram a noite e quem desejava dormir. Eu, que tenho pavor de aviões, ao lado do grande Alberto Helena Júnior, permanecia desperto, aceso, principalmente porque um idiota, por perto, com uma corneta absurda, insistia em soprá-la nos ouvidos alheios.
Até que o Landão, o saudoso Orlando Monteiro Alves, pai do Adilson, aquele da Democracia Corinthiana, se enfureceu. Como um saltador de barreiras, o Landão atravessou, por cima das poltronas, metade da galeria, e arrancou a corneta do idiota. Foi aplaudido até pelas comissárias.
Espero que os fãs do Timão sejam mais civilizados no Japão.
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