Publicado em 11/03/2013 às 18h25
Wílson Fittipaldi (1920-2013)
Não, não vou falar do pioneiro, do ícone dos esportes a motor do País; do primeiro locutor a transmitir, do exterior, uma prova de Fórmula 1; do marido afetuoso de dona Juzy por quase seis décadas; do pai do Wilsinho Tigrão e do Émerson Rato – o formidável Barão Fittipaldi...
Prefiro recordar o companheiro de trabalho com quem dividi, no final dos anos 70 e no começo dos anos 80, a bancada de ancoragem do “Show da Noite”, um delicioso programa de entrevistas da Rede Record.
Havia de tudo no programa: política, economia, música, teatro, cinema, TV, esportes – praticamente duas horas variadíssimas. O Barão, sempre muito charmoso nos seus blazers e nas suas gravatas de seda, com o bigodão branquérrimo impecavelmente enrodilhado nas pontinhas, chegava em cima da hora da abertura das gravações e não costumava ensaiar o que faria. Era um intuitivo, um opiniático, mestre no estudo da linguagem corporal.
Dizia que cabia a mim, um jornalista de ofício, definir as pautas.
E o seu vozeirão melodicamente tonitruante não perdoava ninguém.
Determinada ocasião, esteve no programa uma jovem baiana, a compositora e cantora Diana Pequeno, que costumava se apresentar descalça.
Sem me avisar, o Barão armou uma peça com um dos câmeras.
Enquanto eu me preocupava em conduzir a conversa de modo estritamente técnico e informativo, num rompante o Barão me interrompeu:
- Lancellotti, por favor, me perdoe. Mas, eu necessito me intrometer. Tenho uma curiosidade que preciso resolver. Posso fazer uma pergunta?
Mesmo atônito, pois o Barão bem sabia que dispunha do direito de cortar as minhas intervenções a qualquer momento, eu lhe passei a palavra.
E o Barão arremeteu como um trator:
- Diana, você me mostraria o pé, qualquer um, direito ou esquerdo.
A baiana também se surpreendeu com o inusitado da situação. Mas, obedeceu e levantou a sola do pé esquerdo – exatamente no rumo da uma lente macro da câmera mais próxima. Um inédito close de sola...
O pé da garota preencheu as telas dos monitores do estúdio. Uma sola bem sujinha, aliás. Houvesse como, eu me esconderia debaixo da bancada.
Diana não teve tempo de se enfurecer, tamanho foi o seu constrangimento. Apenas se acalmou quando o Barão, paternal, a tranquilizou:
- Menina, fique sossegada. Este é um programa gravado. Na edição final, eu prometo, vamos eliminar a cena, inteirinha. Agora, você é novinha e eu espero que tenha entendido a lição. Não corra riscos bobocas...
Depois do programa, o Barão, cavalheiresco, fez questão de convidar Diana e a mim para uma pizza em “A Carreta”, reduto de artistas e de boêmios, que não existe mais. Quanto à baiana, bem, foi jantar de sapatos...
Registre a sua opinião. Com o máximo de civilidade.
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Publicado em 30/01/2013 às 18h28
Os escândalos, na FIFA e no COI, já não mais me surpreendem…
Na data precisa da apresentação cerimonial, no Rio de Janeiro, do cartaz oficial da Copa de 2014, aliás um cartaz horroroso, que me perdôe quem criou tal gororoba, voltaram a pipocar na mídia mundial os escândalos ao redor da FIFA.
Não me surpreendem. E muito menos me chocam.
Como esperar que um negócio que mobiliza cerca de um trilhão de dólares, o dobro em reais, possa manter incólumes e puros os seus envolvidos?
Importa pouco se Jérôme Valcke, o atual secretário-geral da entidade que, supostamente, organiza o futebol no mundo, tenha participado do lobby que encaminhou, ao Brasil, a realização do próximo torneio de 2014.
Também não levo em consideração a denúncia recente de Guido Tognoni, ex-funcionário da portentosa, italiano a quem conheço faz três décadas. Frase de Tognoni: “Na FIFA, em todos os escalões, há um mar de safadezas e de corrupção”.
Sei que Tognoni não acusa por despeito ou por vingança.
Acompanho os bastidores da FIFA, com razoável intimidade, desde 1982.
Cobri, desde então, para a “Folha de S. Paulo”, quase todas as conspirações destinadas à derrubada do João Havelange, o então presidente da entidade.
Testemunhei as tramas de Joseph Blatter, que era o secretário-geral, aparentemente em favor do camerunês Issa Hayatou, inimigo de Havelange, ambos, o africano e o brasileiro, posteriormente acusados de receberem propinas várias. E suas tramas, de Blatter, em favor do italiano Antonio Matarrese, destruído pelo fracasso da “Azzurra” em 1990.
Naquela ocasião, em Roma, discretamente, todas as manhãzinhas, eu me alojava na barbearia do hotel-sede da FIFA e, graças ao apoio de um amigo do lugar, me instalava bem ao lado da poltrona que Blatter cotidianamente procurava.
Jamais afirmarei que ficamos amigos. Aos poucos, porém, Blatter assumiu uma certa confiança em mim. Um periodista brasileiro, afinal, lhe seria utilíssimo na divulgação de informações que interessariam à sua carreira no porvir do futebol. Entre uma manuseada de tesoura e uma subida e descida de navalha, ele se escancarava.
Obviamente, eu sempre soube discernir a maldade e o indispensável.
Foi Blatter, todavia, quem me contou que, numa reunião íntima da FIFA, ao constatar que não somaria nenhum suporte na sua batalha pelo cargo máximo na entidade, Matarrese chutou a própria maleta, cheia de documentos, e desapareceu...
Verdade. Pesquise, caro leitor de hoje, os meus textos daquele período.
Os escândalos já se anunciavam, inexoráveis.
Também enviei à “Folha” um artigo, nunca desmentido, dados que capturei, acidentalmente, ao me sentar, num avião, logo atrás de Ricardo Teixeira, da CBF, e de seu parceiro Kleber Leite, empresário de placas publicitárias em estádios e futuro presidente do Flamengo. Num papo regado a uísques e correlatos, Teixeira declarou que Sebastião Lazaroni, treinador do Brasil, era “um burro, um imbecil”. Pudesse, em plena Copa, teria demitido o pobre Lazaroni.
A “Folha” publicou boa parte daquele artigo na sua capa.
Verdade. Gravei, num microzinho, o diálogo surrealista.
Na terça-feira, ontem, 29 de Janeiro, o respeitadíssimo semanário “France Football” espalhou ao universo que a Copa de 2022 foi “comprada” pelos petrodólares do Qatar. Alguma novidade? Não, absolutamente nenhuma, para este veterano redator.
PS: Sobre o COI, retornarei ao assunto, com mais espaço. Até lá...
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Publicado em 13/12/2012 às 17h40
Chelsea e Corinthians, as comparações inevitáveis
Vou me abster, aqui, neste espaço, de colocar lado a lado os elencos do Chelsea e do Corinthians.
Quando prometo que farei comparações entre os dois finalistas do Mundial da FIFA de 2012, eu me refiro a algumas situações exclusivamente não futebolísticas.
Quer dizer, situações que acontecem fora das quatro linhas do gramado.
Nada de bola a rolar no campo.
Por exemplo, a duração da viagem de cada sede até o Japão – vantagem do Chelsea, que percorreu um trajeto mais curto. E o chamado “jet leg”, o cansaço provocado pela diferença de fuso horário – no caso, vantagem do Corinthians, que desembarcou no Oriente quase uma semana mais cedo e se adequou convenientemente.
A adaptação ao frio rascante – vantagem do Chelsea. Na Inglaterra, o inverno é sempre muito mais rigoroso do que no Brasil.
O desgaste da partida de estreia – vantagem do Chelsea, que ignorou o Monterey do México, enquanto o Corinthians padeceu bastante para superar o Al Ahli do Egito.
Trata-se, todavia, de uma vantagem ilusória.
Pois o sufoco que o Timão sofreu bem pode reacender os seus atletas.
E a facilidade que os Blues encontraram bem pode amortecer os seus craques por excesso de confiança e de autosuficiência.
Crucial, o fervor da torcida – vantagem do Corinthians, imensa. No cotejo Chelsea versus Monterey, a torcida do alvinegro literalmente abafou os ralos bordões dos fãs dos azuis.
Enfim, treinador por treinador, vantagem de Tite sobre Rafa Benitez.
Tite seguramente aprendeu bastante com a sua jornada de angústia diante do Al Ahli.
Rafa Benitez, de quem a torcida do Chelsea não gosta e a quem o elenco dos Bleus nem sempre respeita, se comportou petulantemente diante do Monterey.
Sumariamente inventou uma escalação improvisada, Ramires e Lampard no banco, o zagueiro David Luiz, um alvinegro na infância, deslocado como um líbero à frente dos beques. Disse Benitez, após o combate, que pretendia dar ritmo a alguns dos seus pupilos. Talvez. Sacrificou, porém, o conjunto.
Funcionará tão estranha teoria?
Resposta em Yokohama, no próximo domingo.
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Publicado em 06/12/2012 às 15h40
Oscar Niemeyer (1907-2012)
Quem já teve a paciência de ler a minha biografiazinha, logo ao lado, nesta mesma página, sabe que, antes de me tornar jornalista, eu me diplomei em Arquitetura. Obviamente, nos cinco anos que passei nas salas de aula da Universidade Mackenzie, mestre Oscar Niemeyer foi uma referência.
Não me recordo em qual dos cinco anos aconteceu. Houve um semestre, porém, em que me coube produzir, com alguns colegas, um grande trabalho sobre Brasília. Além do Plano Piloto de Lúcio Costa, também os edifícios de Niemeyer – que, para nós, com abusada intimidade, era “o Oscar”.
Adorei o trabalho, principalmente porque me coube replicar, num enorme painel, os croquis do mestre para as suas magníficas obras de arte.
Sem falsa modéstia, sou compelido a dizer que desenhava bastante bem.
Tiramos nota dez no trabalho. O painel, no entanto, desafortunadamente, se perdeu em algum quartinho de despejo da faculdade. E eu não disponho nem de uma reles imagem para matar as saudades daquela aventura.
Por ser um comunista público, Oscar foi perseguidíssimo pelos esbirros do golpe militar de 64. Praticamente o impediram de exercer a sua profissão. O mestre realizou maravilhas longe do Brasil. Mas, não queria abandonar a sua pátria. A nova capital, afinal, necessitava de todo o seu desvelo.
Em 1970, Brasília prestes a celebrar a sua primeira década, já na redação de Veja, eu fui incumbido de coordenar a reportagem comemorativa.
Claro, precisei passar diversos dias na cidade – que, aliás, atravessava um momento particularmente turbulento. Claro, cruzei com o mestre, que se mantinha solerte, junto a uma prancheta, no escritório do genro, Elvin Dubugras.
A Ditadura havia nomeado, como governador do Distrito Federal, o coronel Hélio Prates da Silveira, um beócio que se vangloriava de ter, também, uma láurea em Arquitetura. Não pretendo desrespeitar a memória do coronel, já falecido. Ele, contudo, não sabia distinguir a régua-T de um poste.
Pior, ousado, queria mexer no Plano Piloto de Lúcio Costa e nos edifícios de Oscar. No caso, muito pior, pretendia atropelar uma cláusula pétrea, quer dizer, absolutamente intocável, da constituição de Brasília.
Apenas Lúcio Costa poderia alterar qualquer risco do Plano Piloto.
Apenas Oscar poderia alterar um traço de Oscar.
Provocador, eventualmente mal-educado, Silveira decidiu enfernizar Oscar – que acabara de desenhar as bases de um pavilhão de agropecuária.
Quando Silveira ameaçou modificar, na marra, o projeto do mestre, eclodiu uma repercussão internacional. Acuado, o coronel convocou uma entrevista coletiva, na qual pretendia se explicar. Claro, eu fui à tal coletiva.
Escutei tantas barbaridades que o meu estômago se retorceu. Saí do evento em busca do Oscar, que aguardava informações no escritório de Elvin. A reação do mestre, ao que escutou de mim, foi paradoxalmente digna.
Pressionei o mestre para que reagisse e respondesse ao coronel. Oscar, no entanto, sumariamente se recusou a aceitar um duelo que lhe parecia tolo e imbecil. Sorriu, mansamente, e me disse: “Não se aflija, estou bem”.
Como consolo, me presenteou com algumas cópias heliográficas dos seus esboços iniciais do pavilhão. Cópias que ele afetuosamente autografou.
Melhor: à noitinha me conduziu a um passeio pelo Eixo Monumental de Brasília. Queria me mostrar os seus edifícios iluminados. Luís Humberto, outro arquiteto de fato, dublê de fotógrafo de Veja, dirigiu o carro em que em me deleitei com aquela visão e com as explicações do mestre.
Quando estacionamos ao lado do deslumbrante Palácio dos Arcos, sede do Itamaraty, o Ministério das Relações Exteriores, eu não resisti. Pedi ao Oscar que posasse comigo. Outra vez, ele sorriu, paternalmente recusou. De todo modo, o prazer daquele instante nunca mais me abandonou.
Voltei a cruzar com o mestre em 1988. Então, recebi um convite para montar um cardápio autêntico, com pratos do México até a Argentina, no restaurante do Memorial da América Latina. Oscar havia feito um projeto lindo. A sua equipe, todavia, tinha falhado no detalhamento interior. Uma espécie de serpentina estreitinha de mármore, ao estilo de um balcão, cortava pela metade o salão principal. Quando observei que aquela serpentina tornaria impossível a fluência do serviço, a equipe me ignorou:
"Converse diretamente com o Oscar".
Fiz o que recomendaram. E o mestre me atendeu ternamente. Compreendeu o problema e autorizou a reformulação da serpentina.
Posso dizer que, mesmo de maneira insignificante, eu participei de um projeto do Oscar.
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Publicado em 30/10/2012 às 18h17
O fim patético do Jornal da Tarde
No dia 4 de janeiro de 1966, se a memória, já capenga, não me trai, saí do prédio-quarteirão da Universidade Mackenzie, na Vila Buarque, onde estudava Arquitetura e encostei numa banca de jornal em que, de segunda a sexta, comprava A Gazeta, publicada lá pelas 17h00.
O dono da banca, o Sultão, um descendente de árabes, completamente careca, que me permitia o fiado e uma conta mensal de despesas, virou meu professor: “Garoto, acabaram de me entregar um novo, o Jornal da Tarde, filhote do Estado. Não quer variar um pouquinho?”
A curiosidade me venceu. Então, eu necessitava de dois ônibus para viajar da escola até minha casa, na distante Vila Clementino. Ler um periódico, qualquer que fosse, me distraia das tensões da Mecânica dos Solos e do Concreto Protendido. Pus o Jornal da Tarde na conta.
Sempre, se a memória, cambaleante, não me trai, a primeira página do primeiro JT ostentava um “furo” internacional: a informação de que um certo Édson Arantes do Nascimento, apelidado Pelé, se casaria em breve com uma certa Rosemeri Cholbi, da Ponta da Praia, Santos.
Imediatamente, fiquei viciado no JT. Nas suas reportagens alentadas, sob as griffes de Michel Laurence, Zé Maria de Aquino, Vital Battaglia, Tão Gomes Pinto, Armando Salem; na sua paginação atrevida, sob as orientações de Duque Estrada e de Murilo Felisberto; no seu conjunto, sob a lideração de um mito da mídia, o excepcional Mino Carta.
Em 68, depois de um concurso intrincado, mesmo sem um diploma de jornalista, integrei a equipe que lançaria a revista Veja. Com o Mino no comando, Duque Estrada, Tão e Salem no time da redação.
Chegava na “Veja” às dez da matina. E, porque não curtia a comida do refeitório da Abril, eu levava o meu farnel, sanduíches, de casa.
No horário do almoço, a redação quase vazia, surrupiava os jornais de meu chefe direto, Zé Roberto Guzzo, também um ex do JT.
Com os sanduíches, eu devorava o JT, antes mesmo do Estado, da Folha, do Globo e do Jornal do Brasil, então os principais periódicos do País. O JT representava o meu modelo basilar.
O desenrolar inexorável do tempo, alguns equívocos empresariais, a partida do Mino, a partida do Murilo, que em 78 trocou a imprensa pela publicidade, a Internet etcetera e tal, paulatinamente carregaram o JT à sua agonia. Que me perdoem os colegas que sucederam o Mino, o Murilo, profissionais impecáveis, todos eles – o JT sucumbiu.
Jamais me esquecerei, porém, da sua resistência vigorosa à impiedade da Censura da Ditadura Militar, receitas culinárias nos espaços dos textos vetados. Caso de “Aves à Passarinho”, ironia em relação a um ministro da Ditadura, de prenome Jarbas, ou de Lauto Pastel, ironia em relação a um governador imposto por Brasília à goela de São Paulo.
Fazia tempo que não lia o JT. Mas, nesta terça-feira, 30 de Outubro, comprei um exemplar. Vou guardar, sem abrir. O falecimento do periódico que tanto me marcou foi oficialmente previsto para o dia 31. O derradeiro, ah, não vou adquirir. Prefiro não ser uma testemunha ativa do soterramento de algo que se provou mágico, enquanto pôde.
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