It%C3%A1lia 1 O destino patético da Squadra Azzurra

A mídia esportiva da Itália é imbatível quando, nos seus jornais, constrói manchetes baseadas em trocadilhos. Eu ainda me recordo, vividamente, de um papo que bati com o colega Sylvio Guedes, parceiro de pizzas nas noites em que havia jogos da “Squadra Azzurra” no Olímpico de Roma – só no bairro boêmio do Trastevere se encontrava, então, algum lugar aberto para o jantar obrigatório. 

Findava o dia 19 de Junho de 1990 e a organizadora da Copa do Mundo, em dois jogos anteriores, havia penado até superar a Áustria e os Estados Unidos pelo medíocre placar de 1 X 0. Pressão da imprensa para que, no prélio seguinte em seu grupo classificatório, o treinador Azeglio Vicini escalasse como titular o garoto Roberto Baggio, de 23 anos, então vinculado à violácea Fiorentina.

 O destino patético da Squadra Azzurra

Vicini obedeceu. Baggio mandou no duelo, marcou um gol de antologia e a Itália despachou a Tchecoslováquia, 2 X 0. O tema musical daquela Copa se chamava “Notti Màgiche”, de Giorgio Moroder, bonito mas entoado ao exagero nas emissoras de rádio e nos estádios. Observei ao Sylvio: “Xará, aposto as pizzas de amanhã como todos os jornais dirão, nas manchetes, que esta foi uma 'Notte Bàggica'."

Errei um pouco. Só quatro periódicos. 

Recordo essa historieta para sintetizar, numa frase, tudo que penso da “Squadra Azzurra” que acaba de entregar à Suécia, em pleno San Siro de Milão, 72.696 espectadores absolutamente devastados, a sua vaga na Rússia/2018. À UEFA, entidade com 53 nações afiliadas, anfitriã à parte a FIFA reservou treze passaportes. Quatro vezes campeã do planeta, a Itália ficou de fora. E a Islândia, não. 

Por favor, nenhum desrespeito à Islândia, que conquistou brilhantemente o seu direito. Mas, sim, auto-humilhação da Itália. Para “La Gazzetta dello Sport”, o “Apocalipse”. Não chego a tanto. De qualquer modo, eis a frase que prometi: “Que se pode esperar de uma seleção que depende de um Immobile como artilheiro?”

 Immobileunder 1024x648 O destino patético da Squadra Azzurra

E o pior é que não há melhor. Onde estarão os Gigi Riva e os Bettega de hoje? E os Altobelli, os Vialli, Schillaci, Casiraghi, Signori, Zola, Del Piero, Chiesa, Inzaghi, Del Vecchio, Toni, Gilardino, Iaquinta, Di Natale? Inexistem. Sim, a atual geração de calciatori dignos de convocação é a mais deprimente desde a década de 50. Simples.

Pergunta fundamental, todavia: por quê? A legislação da Europa Unida criou diversas peculiaridades como o fim das fronteiras geográficas que existiam entre os países do Velho Continente. Quando se formou a sua Comunidade Econômica, em 1957, eram só sete as nações integrantes. Atualmente, são 27. A metade das afiliadas da UEFA.

 7yxvqqwfrb5jmp2gdenn8bcnt O destino patético da Squadra Azzurra

Consequência: um nativo de Malta ou da Lituânia passou a ser tão cidadão da Europa como um cidadão da Áustria ou da Dinamarca. E pode ser sapateiro ou futebolista em qualquer dos 27. Claro que pseudocraques, apadrinhados por agentes basicamente desejosos de dinheiro, desandaram a negociá-los. E encheram os lugares destinados inclusive às categorias de base de plagas ricas como as da Itália.

Campeã na Alemanha/06, quatro anos depois, na África do Sul, a “Azzurra” foi a rabeira de seu grupo, atrás até da Nova Zelândia. No Brasil/14, atrás da Costa Rica e do Uruguai, apenas superou a Inglaterra, outra nação então muito afetada pelas invasões alienígenas. O seu Brexit, o final da sua participação na EU, ainda deve demorar até que se percebam adequadamente os limites todos da triste perda de uma identidade esportiva.

Não sou contra a Europa Unida e o direito comunitário de ir e vir. No caso do Futebol, todavia, é óbvio que cada pátria deva preservar na íntegra as suas sementeiras.

 FINAL DA COPA 05 ALBARI ROSA O destino patético da Squadra Azzurra

A Alemanha se recuperou porque, depois do seu vice na Coréia do Sul e no Japão em 2002, iniciou um vastíssimo projeto de resgate das suas divisões de menores, a partir dos Sub-12. Exatamente o que se pede, agora, a uma Itália que padece até com a venda da gestão dos seus clubes: a Roma, aos dólares norte-americanos; o Milan e a rivalérrima Internazionale de Milão, a bilionários chineses. Uma transferência inusitada da Pirelli e do direitista Sílvio Berlusconi à bandeira comunista de Mao Tsé-tung.

Patético!

 

Gostou? Clique em “Compartilhar”, em “Tuitar”, ou registre a sua importante opinião em “Comentários”. Muito obrigado. E um grande abraço!

http://r7.com/SvIu