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O centenário de Saldanha, o João-sem-Medo

Postado por slancellotti em 30/06/2017 às 16:22 em Sem categoria | Nenhum comentário

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Vivo estivesse, João Alves Jobim Saldanha (1917-1990) completaria os seus cem anos neste dia 3 de Julho. Vivo estivesse? E quem diz que o João-sem-Medo já partiu desta para a melhor? Mero mito. O João é eterno, pelo que foi como pessoa e pelo que fez como profissional. Ao seu estilo sempre cáustico e provocativo, costumava jurar que havia participado da Grande Marcha através da China de Mao Tsé-tung e que havia desembarcado no Dia D da Normandia com as tropas aliadas.

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Fomos amigos por duas décadas. Pessoalmente, conheci o João em Fevereiro de 1969, quando João Havelange, o presidente da então CBD, Confederação Brasileira de Desportos, o convidou a assumir o comando da seleção que disputaria as eliminatórias da Copa do México/70. Formado em Direito e em Jornalismo, ex-herdeiro de um cartório no Rio, o gaúcho de Alegrete já tinha trabalhado como treinador do Botafogo carioca em 1957 – campeão da Guanabara depois de uma decisão de antologia contra o Fluminense, 6 X 2. E já se destacava como um cronista de pena afiadíssima em jornais e em emissoras de rádio. Literalmente desancava o Futebol do País.

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Ao convocar o seu elenco, o João inovou preciosamente: escalou os onze titulares e os onze reservas e não chamou um único atleta além dos 22. Funcionou. Foram perfeitas as suas eliminatórias: seis partidas, seis vitórias, 23 tentos a favor e só dois sofridos. E o audacioso gaúcho ainda se celebrizou por desprezar a expressão “Canarinhos” com que a mídia denominava os jogadores do Brasil. Para ele, que não se intimidava, seriam as “Feras do Saldanha”. É, não se intimidava, nunca. Numa época em que a Ditadura Militar abusava da repressão, se admitia como um filiado ao proscrito PCB, o Partido Comunista Brasileiro.

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Durante as eliminatórias subiu ao trono da Ditadura um general de modos implacáveis, Emílio Garrastazu Médici (1905-1985). Que apreciava o futebol ao ponto de, em pleno Maracanã, acompanhar os prélios da seleção com um radinho pregado ao ouvido. Pois Médici desandou a distribuir conselhos sobre a escalação e a tática do João. Que respondeu, direto e seco: “Eu não dou palpites em relação ao ministério dele. Que ele não interfira no meu time”. Politicamente, se tornou insustentável a presença de Saldanha na seleção. Em 14 de Março de 70, depois de um empate das suas “Feras”, 1 X 1, diante do Bangu, num amistoso insignificante, a CBD o demitiu.

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Segui bem de perto aquela triste saga. Assim como segui a ascensão de Mário Zagallo ao comando da seleção e ao título da Copa do México/70. Comentarista, no torneio, o João se portou com toda a dignidade, sem distilar rancor ou revelar segredos dos bastidores que frequentara. Nem contra o polêmico, iracundo Geraldo Bretas (1911-1981), periodista que o mandara “à merda” em um programa de TV, o João se descompensou. Daí, ereto, inquebrantável, continuou por outras edições da Copa, até a da Itália/90, quando nos cruzamos pela última vez. Ocorreu no Centro de Imprensa Gaetano Scirea, em Roma, ele numa cadeira de rodas, conduzido por Paulo Stein e Márcio Guedes.

  O centenário de Saldanha, o João sem Medo

Os três enviados da Rede Manchete, eu pela Bandeirantes e pela “Folha de S. Paulo”, jantamos juntos numa cantina do Trastevere, bairro boêmio da capital da Bota. Mesmo proibido pelos médicos, o João-sem-Medo não cessara de fumar. E de lançar a sua acidez contra a equipe “ridícula” de Sebastião Lazaroni, a quem a Argentina de Maradona e Caniggia remetera de retorno ao Brasil em 24 de Junho. Estávamos em 7 de Julho, véspera da decisão que o time da Alemanha ganharia dos platinos por 1 X 0. Saldanha se despediria deste mundo lá mesmo, em Roma, dia 12.

 

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