A minha homenagem ao “Pelé Branco”

almir pernambuquinho sl A minha homenagem ao “Pelé Branco”

No final da década de 50, começo da década de 60, se espalhavam por alguns bairros de São Paulo as chamadas “turmas de esquina”.

Eram grupos de adolescentes, jovens rapazes que, depois de jantarem em suas casas, se reuniam num canto do quarteirão, à porta de um bar.

Um dos rapazes da minha “esquina” era um descendente de libaneses, o Haissa Gubeisse, precocemente falecido, que possuía um caminhão.

O Haissa fazia carretos, pequenas mudanças, levava o nosso time de futebol às peladas dos finais de semana, e também aos jogos do Corinthians.

Doze, quinze amigos, nos aboletávamos na traseira do caminhão. Quando chovia, nos protegíamos debaixo de uma lona velha e encardida.

Em Março de 60, o milionário Vicente Matheus (1908-1997), proprietário de pedreiras e empreiteiro na construção pesada, recém-eleito presidente do Timão, do próprio bolso deu um presente bastante caro ao clube.

Por seis milhões e meio de cruzeiros (ah, não me peçam para converter à moeda de hoje – mas, se tratava de uma fortunaça), comprou do Vasco da Gama o contrato de um atacante formidável, Almir Morais Albuquerque, nascido no Recife, 28 de Outubro de 37, apelidado de “Pelé Branco”.

Almir, também apelidado de “Pernambuquinho”, faria a sua estreia, no Pacaembu, exatamente diante do Vasco, no Torneio Rio-São Paulo, então uma prévia do atual campeonato nacional, na noite de 5 de Abril.

E nós lá fomos, no caminhão do Haissa, apreciar a estreia do Almir.

O Pacaembu ficou repleto. Não existem dados viáveis a respeito do número de espectadores. No entanto, o cotejo arrecadou quase um milhão e cem mil cruzeiros, praticamente um sexto do valor do contrato do atacante.

Não me esquecerei jamais daquela noite. O estádio estava repleto.

Nós, os caras da “esquina”, apenas dispúnhamos de grana para adquirir um ingresso na “geral” – hoje, as arquibancadas descobertas que, no Pacaembu, ficam adiante do local das tribunas que abrigam as câmeras de TV.

Ficamos nós, os da “turma”, empilhados num trecho do alambrado.

Consegui “comprar”, digamos, um engradado vazio de cervejas.

De cima do engradado, atrás de diversas camadas de malucos, testemunhei a estreia do “Pelé Branco” que, aos seis minutos, realizou Corinthians 1 X 0. E o alvinegro superou o Vasco, um placar glorioso de 3 X 0.

No retorno à “esquina”, o Sr. Baeta, dono do boteco, um lusitano que torcia pelo Corinthians, nos recepcionou com sandubas gratuitos de queijo.

O Almir durou pouco no Timão. Ganhava salários e prêmios inomináveis para aqueles idos. Os seus rendimentos provocaram inveja, ciúmes, e pior, um boicote crucial, maldoso, perverso, dos seus companheiros.

Encerraria a sua trajetória com meros quatro tentos em 27 combates. Sem saída, Matheus negociou o seu contrato com o Boca Juniors da Argentina. Depois, o “Pernambuquinho” atuaria, ainda, na Fiorentina e no Genoa da Velha Bota, até aderir ao Santos, daquele Pelé de verdade, em 63.

Foi quando nos cruzamos novamente. Embora um fã do Timão, eu não me poupava de admirar o Santos. Na decisão do Interclubes de 63, coube ao Santos enfrentar o portentoso Milan, lá no estádio do Maracanã.

Isso mesmo, Maracanã. Porque o Santos optava por mandar os seus prélios cruciais do Maracanã do Rio. Contundido, o Pelé de verdade nem ficou no banco de reservas. No seu posto, o treinador Lula escalou Almir.

Necessitava, o Santos, reverter uma derrota sofrida na Itália. Bateu o Milan, 4 X 2, sob um intenso temporal. E ocorreria um terceiro desafio.

No qual Almir se mostrou fundamental. Em um lance na entrada da área do Milan, enfiou, literalmente enfiou, a cabeça no pé de um zagueiro do Milan. Cesare Maldini, dizem as pesquisas. Para mim, foi o grosso David...

Pênalti estranho que o lateral Dalmo converteu. Santos 1 X 0, campeão.

Daí, em 66, sublime coincidência, eu saboreava uma semana no Rio e fui ao Maracanã para a decisão do então Carioca, Almir no Flamengo. Só que o Bangu do bicheiro Castor de Andrade, pespegou 3 X 0 no Flamengo.

Aos 71 minutos, o Almir, no Fla, resolveu acabar com a festa.

Numa confusão no meio do gramado, partiu sobre os seus adversários com pernadas e com tesouras voadoras. E a decisão se encerrou na briga.

Bangu o ganhador, na súmula da arbitragem.

E a carreira do “Pelé Branco”, azar, não teve mais sucedâneos.

Em 6 de Fevereiro de 73, precisos quarenta anos atrás, num boteco da praia de Copacabana, o Rio Jerez, Almir deglutia alguns chopes com uma garota e alguns amigos. Noutras mesas do boteco estavam atores do espetáculo dos Dzi Croquettes e um trio de portugueses mal-intencionados.

Os portugueses desandaram a vilipendiar os “Croquettes”, ostensivamente travestis. Almir, o machão de sempre, quis favorecer os travestis.

Morreu, fuzilado a tiros, por um dos portugueses.

Que, aliás, embora identificado, jamais recebeu qualquer punição.

Hoje, 6 de Fevereiro, precisos quarenta anos.

Nesta mesma data, a seleção do Brasil, em Wembley, já sob o domínio da dupla Felipão & Parreira, atuou contra a equipe da Inglaterra.

Ninguém se lembrou de homenagear Almir.

Nem luto nas mangas das camisas, nem um instante de silêncio.

Deixo, aqui, porém, a minha honraria ao frustrado “Pelé Branco”.

Um craque de fato. Um homem infeliz. Pena, hoje ignorado.