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A defesa do “Pai dos Burros”
Postado por slancellotti em 2 de janeiro de 2013 às 16:37 em Sem categoria | 3 Comments
No meu livro mais recente, o romance Em Nome do Pai dos Burros, eu escancaro a minha paixão pela palavra, um código essencial do idioma e da comunicação entre os humanos. Um código que, cada vez mais, perde o seu sentido, desprezado pelo rude predomínio da linguagem oral.
Exemplifico com os abusos que se cometem na Internet. Nos seus emails, nos seus tuítes, nas suas páginas das mídias sociais, as pessoas escrevem como falam, ou como acham que falam, sem a menor preocupação com a grafia correta dos vocábulos, e nem com a sua justa acentuação.
Fico chocado ao constatar que, diante de um teclado, afetado pela preguiça, o webnauta redige de qualquer jeito, sem se abalar minimamente com um fato crucial: a cada erro que comete, destrói um pouco do seu idioma. É inacreditável a superficialidade com que se inventa uma língua que pode parecer prática e veloz mas que, no fundo, não passa de vulgar.
Ninguém obedece ao tal código sagrado porque, com raríssimas exceções, praticamente ninguém lê. Particularmente o público mais jovem.
Quando eu era um garotinho, cinco, seis, sete anos, me debruçava sobre os jornais que meu pai trazia e, ao me deparar com uma palavra cujo significado desconhecia, pedia a ele que me explicasse. E o meu pai rebatia, sempre da mesma forma: “Procure no ‘Pai dos Burros’.”
O “Pai dos Burros”, o dicionário.
Para o meu enriquecimento, uma palavra puxava outra. E, na minha busca pelo termo que desconhecia, pacientemente eu devorava páginas e páginas do “Pai dos Burros”. Claro, o meu vocabulário se multiplicou.
Em 1967 eu me tornei jornalista e carreguei comigo, à minha mesa da revista “Veja”, o meu exemplar preferido de dicionário, mais um compêndio de antônimos e de sinônimos. Ambos me acompanham até hoje e me fitam com um olhar simbólico de carinhosa cumplicidade.
Fiquei famoso, na revista, como o chato que não bisava termos.
Por quê, numa fase que exigia uma adversativa, eu recorrer, apenas, ao velho e cansado “mas”? Também existem, afinal, o “porém”, o “contudo”, o “entretanto”, o “no entanto”, o “todavia”, o “de qualquer modo”, o “de qualquer forma”, o “de qualquer maneira”, o “de todo modo”...
Por quê, num texto relacionado ao esporte [2], eu recorrer, apenas, ao manquitolante “jogo” ou à desgastada “partida”? Ora, também existem o “duelo”, o “desafio”, o “prélio”, a “contenda”, o “cotejo”, a “porfia”, o “confronto”, o “embate”, a “pugna”, a “luta”, a “batalha” etcetera.
Não vou garantir que, aqui e ali, eu não repita uma palavra, um modelo de frase ou de construção. Repriso, sim, por uma questão que a teoria do estilo literário chama de “simetria” – ou, a replicação de um desenho.
Num blog como este eu sinceramente me esforço para ser mais simples e mais direto, facilitar a vida de quem me honra com o seu tempo e me lê. Não obstante (ah, consegui apresentar uma nova adversativa) essa intenção, nem sempre eu resisto. Preservo, afinal, um fio tênue de esperança: que você ceda à sua curiosidade e, ao invés de desistir do meu texto e de me xingar de pentelho ou de impertinente, faça como eu, com o máximo de perseverança, e solicite a ajuda preciosíssima do “Pai dos Burros”.
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