FTA20121231043 A agonia da São Silvestre

Edwin Kipsang, do Quênia, comemora ao vencer a 88ª Corrida Internacional de São Silvestre. Foto AE

A Corrida de São Silvestre não é mais aquela.

Pelo menos, não é a prova que, na minha infância, na minha juventude e no começo da minha maturidade, principiava pouco antes das 24h de 31 de dezembro e se encerrava já no despertar do novo ano.

Acabou-se a graça da tradição da corrida à noite. E também se findou a tradição de um percurso que valorizava São Paulo através do mundo.

Não, não se trata de saudosismo. Mas, apenas, de uma radical constatação: são a TV e os interesses comerciais que agora mandam na prova.

O jornalista Cásper Líbero (1889-1943), criador de A Gazeta e de A Gazeta Esportiva, inaugurou a corrida, que homenageia São Silvestre, o beato celebrado pelos católicos em 31 de dezembro, em 1925.

Naqueles idos, a prova exibiu 60 inscritos, 48 participantes de fato, exclusivamente brasileiros – e todos homens. Os estrangeiros, originalmente, então, do Chile e do Uruguai, aderiram à competição em 1945. As mulheres conquistaram o seu espaço na corrida em 1975.

Desde 1925, a São Silvestre mudou de trajeto em inúmeras ocasiões.

Até 1945, com distâncias várias, entre 5.500 m e 9.200 m, de acordo com a seleção das ruas do seu miolo, basicamente partiu na av. Paulista e terminou na Ponte Pequena, limiar da zona norte, diante do C. R. Tietê.

Daí, até 1958, os seus organizadores determinaram diferentes pontos de largada e a chegada, sempre, na então rua da Conceição, no centro velho, hoje Av. Cásper Líbero, bem à frente do edifício de A Gazeta.

Em 1966, o conglomerado que mantinha o periódico, e também emissoras de rádio e de TV, se transferiu ao número 900 da av. Paulista. Paulatinamente, a extensão do percurso se ampliou, de 9.200 m a 15.000 m.

Sempre com a largada e a chegada na Paulista, entre 1966 e 1987 a prova ostentava um percurso no sentido horário, descida pela Brigadeiro Luís Antônio e subida pela Consolação. Percurso que se inverteu em 1988.

A Rede Globo assumiu, no entanto, o domínio das transmissões de TV. E, de modo a não atrapalhar a sua grade de programação, exigiu que a São Silvestre acontecesse à luz do dia, a partir das 17h.

Assim, sem o seu antigo encanto, a prova sobreviveu até 2011 – quando mais uma concorrência absurda a abalou. No caso, a comemoração do Réveillon na Paulista. A chegada da corrida, já com cerca de 20 mil inscritos, atrapalhava os preparativos do Réveillon.

E a chegada se mudou para o obelisco do Ibirapuera.

Os atletas de ponta protestaram veementemente. Depois da escalada terrível da Brigadeiro precisavam enfrentar a pirambeira decrescente da rua Manoel da Nóbrega  — um risco terrível de tombos e de acidentes musculares.

A ridícula bobagem durou 12 meses.

Os organizadores (e a Globo, claro!) decidiram resgatar o percurso Paulista-Paulista. Mas, num outro horário. Partida das mulheres às 8h40. Partida dos homens às 9h. Uma descaracterização brutal.

Ganharam o topo do pódio dois atletas do Quênia — Maurine Kipchumba e Edwin Kipsang. Ironia: ambos treinam no Brasil, com preparadores daqui. Maurine, inclusive, envergou as cores do Cruzeiro de Belo Horizonte.

Foi-se a época em que magos, mesmo, do exterior, como o finlandês Viljo Heino, o tcheco Emil Zatopek, o iugoslavo Franjo Mihajlic, o soviético Vladimir Kutz, o britânico Ken Norris, o belga Gaston Roelants, o norte-americano Frank Shorter, o mexicano Arturo Barrios et cetera e tal, todos astros olímpicos, abandonavam as suas famílias e o seu Réveillon pelo prazer de um título na noite animadíssima da São Silvestre.

Melhor: poucos dias após, na pista do Pacaembu ou do Ícaro de Castro Mello, no Ibirapuera, tais astros se congregavam para um evento extra – e sensacional. Travavam belos duelos de 1.500 m, 3.000 m sobre obstáculos, 5.000 m e 10.000 m. Ah, nem esse regalo existe mais...

Só falta a São Silvestre voltar à noite, em 30 de dezembro, porém...

PS: De se lastimar, pior ainda, o falecimento do cadeirante Israel Cruz, 41 de idade, que se descontrolou na pirambeira da Major Nathanael e se chocou contra um muro no Pacaembu. Trata-se de um ladeirão terrivelmente nefasto, até para quem o toma de automóvel. É evidente que os organizadores deveriam ter optado por um trajeto menos arriscado em função do pelotão dos deficientes.

Faça o seu comentário. Pode me esculhambar. Juro que não fico bravo.

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