Publicado em 06/12/2012 às 15h40
Oscar Niemeyer (1907-2012)
Quem já teve a paciência de ler a minha biografiazinha, logo ao lado, nesta mesma página, sabe que, antes de me tornar jornalista, eu me diplomei em Arquitetura. Obviamente, nos cinco anos que passei nas salas de aula da Universidade Mackenzie, mestre Oscar Niemeyer foi uma referência.
Não me recordo em qual dos cinco anos aconteceu. Houve um semestre, porém, em que me coube produzir, com alguns colegas, um grande trabalho sobre Brasília. Além do Plano Piloto de Lúcio Costa, também os edifícios de Niemeyer – que, para nós, com abusada intimidade, era “o Oscar”.
Adorei o trabalho, principalmente porque me coube replicar, num enorme painel, os croquis do mestre para as suas magníficas obras de arte.
Sem falsa modéstia, sou compelido a dizer que desenhava bastante bem.
Tiramos nota dez no trabalho. O painel, no entanto, desafortunadamente, se perdeu em algum quartinho de despejo da faculdade. E eu não disponho nem de uma reles imagem para matar as saudades daquela aventura.
Por ser um comunista público, Oscar foi perseguidíssimo pelos esbirros do golpe militar de 64. Praticamente o impediram de exercer a sua profissão. O mestre realizou maravilhas longe do Brasil. Mas, não queria abandonar a sua pátria. A nova capital, afinal, necessitava de todo o seu desvelo.
Em 1970, Brasília prestes a celebrar a sua primeira década, já na redação de Veja, eu fui incumbido de coordenar a reportagem comemorativa.
Claro, precisei passar diversos dias na cidade – que, aliás, atravessava um momento particularmente turbulento. Claro, cruzei com o mestre, que se mantinha solerte, junto a uma prancheta, no escritório do genro, Elvin Dubugras.
A Ditadura havia nomeado, como governador do Distrito Federal, o coronel Hélio Prates da Silveira, um beócio que se vangloriava de ter, também, uma láurea em Arquitetura. Não pretendo desrespeitar a memória do coronel, já falecido. Ele, contudo, não sabia distinguir a régua-T de um poste.
Pior, ousado, queria mexer no Plano Piloto de Lúcio Costa e nos edifícios de Oscar. No caso, muito pior, pretendia atropelar uma cláusula pétrea, quer dizer, absolutamente intocável, da constituição de Brasília.
Apenas Lúcio Costa poderia alterar qualquer risco do Plano Piloto.
Apenas Oscar poderia alterar um traço de Oscar.
Provocador, eventualmente mal-educado, Silveira decidiu enfernizar Oscar – que acabara de desenhar as bases de um pavilhão de agropecuária.
Quando Silveira ameaçou modificar, na marra, o projeto do mestre, eclodiu uma repercussão internacional. Acuado, o coronel convocou uma entrevista coletiva, na qual pretendia se explicar. Claro, eu fui à tal coletiva.
Escutei tantas barbaridades que o meu estômago se retorceu. Saí do evento em busca do Oscar, que aguardava informações no escritório de Elvin. A reação do mestre, ao que escutou de mim, foi paradoxalmente digna.
Pressionei o mestre para que reagisse e respondesse ao coronel. Oscar, no entanto, sumariamente se recusou a aceitar um duelo que lhe parecia tolo e imbecil. Sorriu, mansamente, e me disse: “Não se aflija, estou bem”.
Como consolo, me presenteou com algumas cópias heliográficas dos seus esboços iniciais do pavilhão. Cópias que ele afetuosamente autografou.
Melhor: à noitinha me conduziu a um passeio pelo Eixo Monumental de Brasília. Queria me mostrar os seus edifícios iluminados. Luís Humberto, outro arquiteto de fato, dublê de fotógrafo de Veja, dirigiu o carro em que em me deleitei com aquela visão e com as explicações do mestre.
Quando estacionamos ao lado do deslumbrante Palácio dos Arcos, sede do Itamaraty, o Ministério das Relações Exteriores, eu não resisti. Pedi ao Oscar que posasse comigo. Outra vez, ele sorriu, paternalmente recusou. De todo modo, o prazer daquele instante nunca mais me abandonou.
Voltei a cruzar com o mestre em 1988. Então, recebi um convite para montar um cardápio autêntico, com pratos do México até a Argentina, no restaurante do Memorial da América Latina. Oscar havia feito um projeto lindo. A sua equipe, todavia, tinha falhado no detalhamento interior. Uma espécie de serpentina estreitinha de mármore, ao estilo de um balcão, cortava pela metade o salão principal. Quando observei que aquela serpentina tornaria impossível a fluência do serviço, a equipe me ignorou:
"Converse diretamente com o Oscar".
Fiz o que recomendaram. E o mestre me atendeu ternamente. Compreendeu o problema e autorizou a reformulação da serpentina.
Posso dizer que, mesmo de maneira insignificante, eu participei de um projeto do Oscar.
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