Publicado em 30/10/2012 às 18h17
O fim patético do Jornal da Tarde
No dia 4 de janeiro de 1966, se a memória, já capenga, não me trai, saí do prédio-quarteirão da Universidade Mackenzie, na Vila Buarque, onde estudava Arquitetura e encostei numa banca de jornal em que, de segunda a sexta, comprava A Gazeta, publicada lá pelas 17h00.
O dono da banca, o Sultão, um descendente de árabes, completamente careca, que me permitia o fiado e uma conta mensal de despesas, virou meu professor: “Garoto, acabaram de me entregar um novo, o Jornal da Tarde, filhote do Estado. Não quer variar um pouquinho?”
A curiosidade me venceu. Então, eu necessitava de dois ônibus para viajar da escola até minha casa, na distante Vila Clementino. Ler um periódico, qualquer que fosse, me distraia das tensões da Mecânica dos Solos e do Concreto Protendido. Pus o Jornal da Tarde na conta.
Sempre, se a memória, cambaleante, não me trai, a primeira página do primeiro JT ostentava um “furo” internacional: a informação de que um certo Édson Arantes do Nascimento, apelidado Pelé, se casaria em breve com uma certa Rosemeri Cholbi, da Ponta da Praia, Santos.
Imediatamente, fiquei viciado no JT. Nas suas reportagens alentadas, sob as griffes de Michel Laurence, Zé Maria de Aquino, Vital Battaglia, Tão Gomes Pinto, Armando Salem; na sua paginação atrevida, sob as orientações de Duque Estrada e de Murilo Felisberto; no seu conjunto, sob a lideração de um mito da mídia, o excepcional Mino Carta.
Em 68, depois de um concurso intrincado, mesmo sem um diploma de jornalista, integrei a equipe que lançaria a revista Veja. Com o Mino no comando, Duque Estrada, Tão e Salem no time da redação.
Chegava na “Veja” às dez da matina. E, porque não curtia a comida do refeitório da Abril, eu levava o meu farnel, sanduíches, de casa.
No horário do almoço, a redação quase vazia, surrupiava os jornais de meu chefe direto, Zé Roberto Guzzo, também um ex do JT.
Com os sanduíches, eu devorava o JT, antes mesmo do Estado, da Folha, do Globo e do Jornal do Brasil, então os principais periódicos do País. O JT representava o meu modelo basilar.
O desenrolar inexorável do tempo, alguns equívocos empresariais, a partida do Mino, a partida do Murilo, que em 78 trocou a imprensa pela publicidade, a Internet etcetera e tal, paulatinamente carregaram o JT à sua agonia. Que me perdoem os colegas que sucederam o Mino, o Murilo, profissionais impecáveis, todos eles – o JT sucumbiu.
Jamais me esquecerei, porém, da sua resistência vigorosa à impiedade da Censura da Ditadura Militar, receitas culinárias nos espaços dos textos vetados. Caso de “Aves à Passarinho”, ironia em relação a um ministro da Ditadura, de prenome Jarbas, ou de Lauto Pastel, ironia em relação a um governador imposto por Brasília à goela de São Paulo.
Fazia tempo que não lia o JT. Mas, nesta terça-feira, 30 de Outubro, comprei um exemplar. Vou guardar, sem abrir. O falecimento do periódico que tanto me marcou foi oficialmente previsto para o dia 31. O derradeiro, ah, não vou adquirir. Prefiro não ser uma testemunha ativa do soterramento de algo que se provou mágico, enquanto pôde.
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