Já admiti, publicamente, na TV, na mídia escrita e na Internet, que sou corinthiano. Sempre, para a perplexidade de alguns interlocutores.

“De que modo, com esse sobrenome, você se tornou corinthiano?”

“Sempre achei que você fosse palmeirense...”

Pois saiba, quem me lê, que eu já fui um palmeirista.

Isso mesmo. De palmeirista se auto-chamava quem torcia pelo clube no final dos anos 40 e durante boa parte da década de 50. Não me lembro da data em que o palmeirista, que já fora palestrino, virou palmeirense.

Mas eu me recordo muito bem de quando me tornei corinthiano.

A transformação principiou em 8 de Julho de 1951. Pela Copa Rio, no Pacaembu, bem meninote, presenciei a Juventus da Itália esmagar o Palmeiras por 4 X 0. Meu avô Battista, que conhecia alguns cartolas da Juve, tinha me levado ao estádio, na companhia de meu pai. Edu.

Ambos me conduziram aos vestiários e eu conheci, pessoalmente, ao vivo e em cores, alguns atletas que me encantaram pela solicitude.

Naqueles idos, não se distribuíam camisas de times. Mas, ganhei fotos autografadas de Boniperti, Muccinelli, Viola, Bertucelli, Parola...

Parênteses: não sei mais em que escaninho eu guardei tais imagens.

Daí, só retornei ao Pacaembu em 27 de Janeiro de 1952. Pelo Paulista, o Corinthians superou o Palmeiras, 3 X 1. Na minha cabecinha infantil se tratava de uma reprise da experiência anterior. Alvi-negro versus alvi-verde. Claro, não ocorreu outra visita aos vestiários. No entanto, o meu coração se decidiu assim mesmo – ah, eu seria um alvi-negro.

Reproduzo essa historieta para assegurar que, embora um corinthiano, não faço parte do clã daqueles que ironizam os fracassos do Palmeiras. Parincipalmente em homenagem ao meu pai, um democrata, que nunca me criticou pela escolha anti-familiar. Ao contrário, até que eu pudesse ir ao campo sozinho, invariavelmente meu pai me carregava aos jogos do alvi-negro.

Resumo da ópera: lastimo, siceramente, a condição atual do alvi-verde. E, profissionalmente, me sinto no legítimo direito de vasculhar algumas das razões desta crise patética. Por partes, em ordem de importância.

O Palmeiras é um clube sem comando. Embora eu goste do presidente Arnaldo Tirone, embora eu adore o beirute do seu Yellow Giraffe, lugar que costumo frequentar com certa regularidade, sou obrigado a dizer que ele fez tantos acordos, para assumir o cargo, que apenas fortaleceu as múltiplas facções que comprometem a tranquilidade do clube.

Facções de conselheiros que trocam cadeiradas numa área social. Em que um cidadão vai armado e, na confusão, até perde a sua pistola.

Nem Luiz Gonzaga Belluzzo, um intelectual e professor que enfrentou a Ditadura Militar, que se tornou dono de universidade, depois de ganhar o posto de presidente conseguiu apaziguar o ódio visceral que antepõe as facções e resolver a bagunça que predomina na política do clube.

Além disso, o Palmeiras possui uma torcida rancorosa que também se subdivide em facções incapazes de conter a sua ira, imbecis que já depredaram o Frevo, restaurante concorrente do Yellow na produção do beirute, propiedade de Roberto Frizzo, um vice de Tirone.

Vândalos que gastaram uma boa grana para viajar de São Paulo ao Recife, à partida crucial diante do Náutico, e que, ao invés do apoio aos seus atletas, promoveram a maior balbúrdia, horas antes da partida em Pernambuco, na porta do hotel em que a delegação se instalava. O comando do clube anda tão confuso, tão aparvalhado, que sequer pensou em colocar a indispensável segurança no local.

Alguém observará que a torcida do Corinthians também ostenta os seus grupelhos e os seus visigodos. Desde que se tornou presidente, porém, com a sua simplicidade de ex-catador de caixas no Mercado Central, Andrés Sanchez soube como neutralizar todos os mal-humorados.

Para se recuperar, o Palmeiras necessita de uma reforma conceitual, uma reforma estrutural. Não adianta nada culpar o treinador, ou o elenco – ainda que o elenco alvi-verde de hoje seja basicamente ruim.

O problema do Palmeiras é capilar. Cai de cima para baixo.

E o Pameiras, desafortunadamente, cai de novo à Série B.

Pois, nesta bagunça que não cessa, eu não acredito em milagres.

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