Ouro, dignidade e tristeza

Um ouro puro, uma prata com bastante dignidade, e uma prata com muita, enorme tristeza – assim se encerrou o sábado, penúltimo dia dos atletas do Brasil nos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012.

Coube o ouro à equipe de vôlei das moças, que sobrepujaram as suas adversárias norte-americanas por 3 x 1. Coube a prata com bastante dignidade, na categoria até 75kg do pugilismo, a Esquiva Falcão Florentino, prejudicado pelo árbitro. Coube a prata com muita tristeza ao time de futebol masculino, derrotado pelo México, 2 x 1.

A decisão do vôlei feminino, diante dos invictos Estados Unidos, de certa maneira sintetizou o que foi toda a campanha da seleção de José Roberto Guimarães nos Jogos de Londres. Um começo desastroso, a equipe às margens da eliminação precoce na fase de qualificação.

Pois o Brasil repetiu a dose na final. Irreconhecível, em 21’ cedeu o set inicial, 11-25. Daí, se mobilizou em uma reação monumental.

Aprimorou o seu saque, reforçou a sua recepção, redefiniu o seu ataque, neutralizou completamente Destinee Hooker, principal estrela dos EUA, cotada para arrebatar o prêmio de MVP da modalidade – e bateu o time rival por 25-17 (em 26’), 25-20 (27’) e 25-17 (26’).

A capitã Fabiana somou catorze bloqueios. Brilhante, Jaqueline realizou dezoito pontos. Sheilla, 15. Fê Garay, 12. No pódio, as garotas do Brasil atropelaram o protocolo – e, enquanto as norte-americanas recebiam a prata e as japonesas recebiam o bronze, as eufóricas pupilas de Zé Roberto brincavam como criancinhas em um parque infantil.

Detalhe: os EUA haviam superado o Brasil nos últimos quatro duelos diretos. Fracassaram na sua décima chance de topo de pódio.

Quanto a Zé Roberto, levantou a sua terceira medalha de ouro.

esquiva 4502 Ouro, dignidade e tristeza

Esquiva merecia o título da sua categoria. Lutou contra Ryoya Murata, um boxeador sem estilo, que basicamente se preocupou em se proteger. Mais em função do nervosismo e da ansiedade de Esquiva, Murata fechou o primeiro round em vantagem de pontos, 5 x 3.

Depois, porém, Esquiva se acalmou. No round subsequente, fez 5 x 4. Teria ganhado o terceiro, e a luta, se o árbitro Mariusz Gorny, da Polônia, o mesmo que havia mediado o desafio de Esquiva contra o britânico Antony Ogogo, na semifinal, e que havia permitido os intermináveis agarrões do local, não o punisse sem piedade.

Num lance em que tanto Esquiva quanto Murata deveriam ser penalizados, Gorny só tirou pontos, e dois, do brasileiro. Placar de 5 x 5 no round. Dois pontos que custaram o título ao capixaba de Serra.

De novo o futebol masculino desperdiçou o ouro em um confronto comprometido pelos seus próprios equívocos. O primeiro, fatal, cruel, aconteceu logo depois do pontapé inicial, quando o lateral Rafael, do Manchester United, entregou ao time do México uma bola totalmente dominada. Peralta recebeu e bateu rasteirinho, no canto, 1 x 0.

O elenco do Brasil acusou o golpe e demorou a se recuperar. Daí, quando mais pressionava, aos 75’, numa cobrança ensaiada de falta, a retaguarda verde-amarela se distraiu e o mesmo Peralta, de cabeça, fez 2 x 0. No desespero, aos 90’, Hulk, do Porto, diminuiu, 1 x 2. Já nos acréscimos, Oscar, do Inter de Porto Alegre, perdeu o tento do empate, de testa, completamente sozinho, sobre a linha da pequena área.

Terá culpa o treinador Mano Menezes? Talvez pela convocação de jogadores irregularíssimos como o arqueiro Gabriel, do Milan, como o zagueiro Juan, da Internazionale, como o meia Alex Sandro, do Porto. Mas, quem poderia imaginar que, na decisão, seriam tão inconsequentes as atuações de Neymar/Santos e de Leandro Damião/Internacional?

Não adiantou nada o fato de o Brasil ter 60% de posse de bola, mandar nos escanteios, 7 x 2, e nos arremates, 19 x 2. Só números.

Depois de Los Angeles/1984 e de Seul/1988, foi a terceira prata do Brasil no futebol. E foi o primeiro ouro do México em 2012.

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