Publicado em 19/08/2011 às 16h37
O dia que mudou a minha vida
Este mês comemorei uma data muito importante na minha vida. No dia 1º de agosto, completaram exatos 19 anos da minha conquista da medalha de ouro em Barcelona. O tempo passa depressa, parece que foi ontem...
A conquista que marcaria para sempre a minha carreira no judô não foi cercada de nenhuma expectativa, a não ser as minhas e a das pessoas mais chegadas a mim.
Desembarquei em Barcelona como um desconhecido. A imprensa e os torcedores presentes ao aeroporto estavam totalmente focados no Aurélio Miguel, que havia se sagrado campeão olímpico, em Seul 1988 e tinha grandes chances de conquistar o bi na Espanha. Outros atletas da equipe de judô também foram assediados pelos repórteres, já que levavam na bagagem algumas medalhas dos torneios do circuito internacional que antecedeu a Olimpíada. Eu era, como se poderia dizer, um mero desconhecido.
Em busca do meu sonho olímpico, embarquei para Barcelona deixando no Brasil toda a torcida da minha família, um carro velho e quebrado na garagem.
Naquele tempo, a estrutura do então chamado esporte amador era bem diferente. Como muitos de vocês já sabem, eu lutei na Olimpíada com um quimono emprestado do meu amigo e ex-aluno Pablo Covas, já que eu não tinha nenhum quimono Mizuno e todos os meus estavam remendados.
Para vencer a luta contra a balança e não extrapolar os 65 quilos da minha categoria, a meio-leve, passei aquele dia com o estômago praticamente vazio. Comi apenas dois pêssegos e um sorvete.
Eu não era favorito, mas os meus amigos da imprensa, em Santos, acreditaram que era possível e foram para a minha casa, assistir às minhas lutas ao lado do meu pai, da minha mãe e da minha irmã.
Carregando nas costas o peso de disputar os Jogos Olímpicos, mas acreditando no meu potencial, na minha técnica e nas infinitas horas de treinamento às quais me dediquei, logo na primeira luta, derrotei, sem maiores dificuldades, o português Augusto Almeida, por ippon.
Também foi por ippon que venci o sul-coreano Sang-Moon Kim, apesar de ter começado a luta perdendo; e, depois, o argentino Francisco Morales Vivas, que, na época, era o campeão dos Jogos Pan-Americanos.
Meu quarto adversário, na semifinal, era ninguém menos que o campeão mundial Udo Quellmalz, da Alemanha. Sabia que a luta não seria fácil. Antes da Olimpíada, já havia lutado duas vezes com ele: venci uma e perdi uma. Ele tinha todo o favoritismo e eu a confiança em mim mesmo. Assim, contrariando todas as probabilidades, derrotei o alemão e garanti a chance de conquistar uma medalha de ouro.
Fechei os olhos e os ouvidos para as vozes que diziam que a vitória já era certa. Tentei me concentrar na área de aquecimento e esperei por longos 40 minutos para a luta final.
Confiante e tranquilo, consegui desenvolver o meu judô, venci o húngaro Jozsef Csak e conquistei a tão sonhada medalha de ouro olímpica.
No final da luta, cai de joelhos no chão. Naquela hora, passou um filminho na minha cabeça. Lembrei de todo sacrifício para chegar àquele momento. Lembrei dos meus pais e, principalmente do meu irmão, Ricardo, também judoca e atleta olímpico, que havia falecido um ano antes.
Apesar de toda pompa da cerimônia de premiação e da euforia de chegar à minha cidade, Santos, desfilando em cima de um carro de bombeiros, cercado por milhares de torcedores, a ficha demorou a cair.
Minha rotina mudou. Passei a dar muitas entrevistas e autógrafos, a ser reconhecido nas ruas, não só em Santos, mas no Brasil inteiro. Conquistei um bom patrocínio, tive o meu nome incluso na galeria dos campeões no Ginásio do Barcelona e no Hall da Fama.
Aquele 1º de agosto de 1992 mudou para sempre a minha vida. Sou muito feliz e agradecido por isso.
A medalha de ouro para mim significou o reconhecimento que todo mundo busca alcançar naquilo que faz. E para mim ele chegou cedo, aos 25 anos. Mas, no esporte como na vida, é preciso estar sempre estabelecendo novas metas, novos desafios para fugir da acomodação.
Depois de me sagrar campeão olímpico, mudei de categoria e conquistei o bronze no Campeonato Mundial, no ano seguinte. Como a vida de atleta não dura para sempre, continuei buscando novos objetivos no esporte. Antes de me “aposentar”, fundei uma associação de judô, em Santos, para formar novos campeões, depois passei a atuar como técnico, como gestor público e como comentarista de TV.
Hoje o meu grande objetivo é trazer para a minha vida pessoal e profissional tudo o que aprendi com o judô, colocando em prática princípios como determinação, perseverança, equilíbrio emocional e, acima de tudo, a persistência de quem não desiste nunca.
Minha torcida agora é que outros judocas brasileiros possam viver a mesma emoção e a mesma virada que experimentei, nos Jogos Olímpicos de Londres 2012. Afinal, até lá, serão 20 anos desde o último ouro do judô numa Olimpíada. O Brasil merece um novo campeão no lugar mais alto do pódio olímpico.
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Publicado em 24/08/2010 às 16h13
Mantida a tradição campeã do nosso judô
E o nosso judô conquistou mais uma medalha olímpica para a sua galeria. No último domingo, na primeira edição dos Jogos Olímpicos da Juventude, em Cingapura, a jovem Flávia Gomes fez bonito e entrou para a história do esporte nacional ao garantir a medalha de prata na categoria até 63 kg.
Como muitos dos nossos campeões, apesar da pouca idade, apenas 16 anos, Flávia traz em seu histórico lutas também fora do tatame. Em entrevistas à imprensa, o pai da judoca relatou as dificuldades que a família enfrentou, até bem pouco tempo, para bancar viagens e competições. Segundo ele, além da contribuição de toda a família, Flávia chegou até a vender rifas para levantar recursos. Infelizmente, histórias como as dela são frequentes na galeria dos campeões do judô brasileiro. Eu mesmo conquistei o ouro olímpico em Barcelona usando um quimono emprestado...
Apesar da falta de recursos, Flávia vem colecionando conquistas. Campeã mundial Cadete (Sub-17), na categoria – 57kg, no ano passado, na Hungria, a brasileira garantiu o bronze no Campeonato Europeu Sub-20, na República Tcheca, pouco antes de embarcar para os Jogos Olímpicos da Juventude.
Na preparação para o pódio de Cingapura, Flávia Gomes teve também de ganhar peso para competir na categoria -63 kg, já que a sua categoria não constava da disputa dos Jogos. No dia da competição, a brasileira venceu suas duas primeiras lutas por ippon e só perdeu a final, no último minuto, para a campeã mundial da categoria.
Embora tenha chorado de tristeza ao final da luta, nossa campeã já deve ter percebido que a prata foi uma grande conquista, não só para a sua carreira, mas também para o judô brasileiro que, mesmo com apenas dois participantes, voltou de Cingapura com uma medalha.
O bom desempenho de Flávia aumenta ainda mais nossas esperanças quanto à performance do nosso judô nos Jogos Olímpicos de 2016, no Brasil, quando ela terá chances de brilhar entre os melhores do mundo na categoria sênior. Apesar do entusiasmo, vale lembrar que nessa idade, 16 anos, o atleta ainda está em fase de formação física e técnica. Portanto, é preciso ter cuidado para não transformar essa conquista numa pressão na carreira da nossa vice-campeã olímpica.
Resta-nos torcer para que a judoca brasileira que brilhou nos Jogos Olímpicos da Juventude tenha a mesma iluminação que tiveram outros grandes nomes do judô nacional e se torne, num futuro bem próximo, uma campeã olímpica.
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