Publicado em 16/04/2012 às 21:21
Galvão confessa ser Fla. Bacana. Respeito jornalista do fut que esconde time.Mas acho isso uma bobagem
Galvão Bueno confessou, no programa Altas Horas, na madrugada deste domingo (15), na Globo, o que eu e muita gente, sobretudo carioca, sabia: o coração do torcedor Galvão Bueno é do Flamengo.
Alguém no programa quis saber sobre o jogo de clube, e não da Seleção, que marcou sua vida.
O locutor foi sincero – ou, segundo ele próprio, “se entregou”:
- O cara (ele mesmo, no caso) chega a uma certa idade em que tem o direito de falar: (o jogo que o marcou foi) Flamengo campeão em Tóquio, no título mundial. Já me entreguei. Pronto!
E acrescentou:
- Sou carioca. Todo mundo fica perguntando se sou corintiano. Aí o corintiano olha pra mim e diz: “Você é palmeirense” ou “Você é são-paulino”. Sou carioca, cara. Sou tijucano (nascido na Tijuca, bairro tradicional do Rio de Janeiro ao lado do bairro e do Estádio Jornalista Mario Filho, o Maracanã). Sou salgueirense (torcedor da escola de Samba Salgueiro, que fica na Tijuca). Então, tenho meu direito.
Achei bom que o locutor de maior abrangência hoje no País deixasse claro que ele tem um time de futebol e revelasse sem grilos que time é esse.
Respeito a posição e o direito dos colegas jornalistas esportivos de não revelar para que time torcem.
Time do coração é uma posição pessoal e cada um faz de sua vida o que achar correto. Nada tenho a ver com isso.
Por isso, jamais revelaria aqui para que time torce o jornalista esportivo A ou B que ainda não tenha feito isso publicamente de sua própria boca.
Mas, individualmente, tenho o direito de achar – e acho – isso uma bobagem.
Pior ainda é quando o sujeito não assume publicamente seu desejo de esconder o time do coração e diz não torcer para nenhum deles.
Ai...
Como alguém consegue ignorar que até os fiapos de grama morta dos campos sabem que um sujeito procura o jornalismo do futebol exclusivamente porque ama o futebol – e ama o futebol exclusivamente porque trouxe no coração um time amado desde que começou a se entender por gente?
Tempos atrás, fiz, aqui mesmo neste canto, um texto sobre o assunto.
Penso que ele continua atual.
Vejam só:
Voce, é claro, já ouviu jornalistas esportivos, comentaristas e locutores dizerem que não torcem para nenhum time de futebol.
Um conhecido, paulista, de rádio e tevê, insiste em dizer que não torce para o São Paulo quando todos sabem que o Tricolor manda no seu coração.
Outro veterano, carioca, acredita que ninguém ainda notou o seu encantamento pelo célebre Botafogo.
São só dois exemplos.
Não acredite.
É mentira.
Por um motivo elementar: todos os profissionais de comunicação que chegaram ao futebol só aprenderam a amar este esporte e mergulharam nessas profissões por também amar, desde criança, um time.
E esse amor a gente, quando é do ramo (é claro que todos esses jornalistas e cronistas são do ramo), não esquece nunca, não é mesmo?
Jornalistas esportivos e torcedores são muito parecidos.
Jornalistas esportivos são torcedores que resolveram ser jornalistas.
Torcedores são torcedores que resolveram ser qualquer outra coisa.
O resto é praticamente igual.
Com o tempo, o contato direto com os jogadores e a rotina do esporte diminui parte do encanto que a distância alimenta.
Amenizam a paixão.
E tornam os profissionais ligados ao esporte mais frios e equilibrados diante das vitórias e dos revezes da sua equipe do coração.
E de qualquer outro time.
Tudo isso é verdade.
Agora, dizer que nunca teve time, que não tem mais time, que não torce para ninguém, tudo isso é balela.
A intensidade diminui, os impulsos da paixão são controlados, mas aquele lado bonito da paixão por um time jamais deixa de existir.
Em nenhum deles.
Todo o resto é retórica.
Embora eu ache uma bobagem esculpida em suor, como diria o tricolor Nélson Rodrigues (que, por sinal, fez a mais apaixonada crônica da história sobre o rival Flamengo), jornalista esportivo tem todo o direito de não revelar para que time torce.
Mas há no mercado, aos baldes, jornalistas esportivos sublimes que não deixam de ser sublimes por terem assumido o time do coração.
Por um raciocínio próximo ao dos que escondem seu time, mas com uma justificativa efetivamente relevante, o jornalista especializado em política normalmente não revela em quem vota.
Mas há um detalhe fundamental: ele vota.
Torcer para um time sem contar isso em público e amar um time dizendo jamais ter tido um são duas coisas completamente diferentes.
Eu sempre tive vontade de estabelecer, em algum texto, essa diferença.
Nessa reta final do Brasileirão, achei o momento.
Em tempo: se ainda não ficou claro nas tascadas que cometo neste blog, torço para o Flamengo.
E você, amado amigo da blogosfera colorida, acha que jornalistas deveriam assumir ou esconder seus times do coração?
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