162 Um ano da tragédia. A dignidade da Chapecoense.  A dor das famílias. A irresponsabilidade pela LaMia
Dignidade.

Esse é o sentimento que dominou a Chapecoense, depois de exato um ano depois da maior tragédia da história do esporte mundial. Foram 71 mortes. Toda a delegação, time, Comissão Técnica e principais dirigentes, que viajavam esperançosos para a Colômbia, começar a decidir a Copa Sul-Americana. Seria a chance do primeiro título internacional do clube montado, bancado e organizado pelas empresas do Oeste catarinense, a 550 quilômetros de Florianópolis.

O sonho virou pesadelo, tristeza, desespero na noite de 29 de novembro de 2016. Tudo pela contratação da LaMia, companhia aérea de ocasião. Criada em 2009 e que nunca teve vôos regulares, vivia de fretamento. Com seu orçamento curto, descobriu no corrupto futebol sul-americano sua grande fonte de renda. Vivia no limite financeiro. Enganava dirigentes, arriscava a vida de times e seleções 'envelopando' seus poucos aviões com as cores das equipes que transportava.

A relação espúria de um ex-senador hispano-venezuelano Ricardo Albacete com os governos boliviano e venezuelano permitiu a existência da La Mia. Ele e sua filha Loredana eram donos dos aviões. Os pilotos Miguel Quiróga, morto no acidente em Medellin, e Marco Antonio Rocha Venegas, foragido, assumiam falsamente a propriedade da empresa. Albacete conseguiu, com seu relacionamento com a corrupta Conmebol, se aproximar dos clubes e seleções que jogavam pela América do Sul.

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A 'frota' se resumia a dois aviões British-Aerospace BAE-Avro 146, com quatro turbinas e capacidade para 90 passageiros. Eles foram adquiridos em fevereiro e março de 2014. Tinham 16 e 17 anos. O mais velho transportou a Chapecoense. A British deixara de fabricar esse modelo de avião em 2001.

Os preços atraentes, muito mais baratos que voos comerciais, eram o diferencial. Nunca houve um controle rígido da La Mia. Ou sequer investigação para sua situação econômica, seus planos de voo, nada. Prevenção aérea nunca foi especialidade de dirigentes de futebol. A publicidade era sempre o voo anterior. Se a Argentina com suas estrelas, principalmente Messi, estava voando de La Mia, era porque não havia problema algum.

Mal sabiam os dirigentes da Chapecoense da grave crise econômica que a empresa vivia. A ponto de o piloto Miguel Quiróga insistir em um plano de voo suicida. Com combustível exato para sair de Santa Cruz de La Sierra e chegar em Medellin. Um absurdo. Os 130 mil dólares, R$ 417 mil, que o clube catarinense pagou pelo fretamento pela ida e volta, não bastavam. Quiróga quis economizar R$ 10 mil que custaria reabastecer o avião em Bogotá.

Essa economia custou a vida de 71 pessoas das 78 que voavam. Inclusive a do próprio piloto, que se desesperou quando encontrou tráfego no aeroporto de Medellin. E escondeu estar sem combustível para que a LaMia não fosse multada pela irresponsabilidade. Preferiu mentir, alegar pane elétrica. Mas o que acontecia era pane seca. Com o fim do combustível, o avião caiu, se despedaçou no monte El Gordo, a 30 quilômetros de Medellin. Ou cinco minutos de voo, caso o avião tivesse combustível. Sem combustível para os motores, a bateria de reserva do avião mantém apenas o essencial, como o rádio e indicadores de altitude e velocidade. Voando às cegas, Quiróga não passou pelas montanhas que cercam Medellin.

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Desde o terrível acidente, comoção do mundo esportivo. Foi devastador. A solidariedade foi mundial. "Força Chape!" dominou o planeta. O velório, o enterro. A solidariedade dos colombianos, do Atlético Nacional, abrindo mão do título da Copa Sul-Americana, foram gestos inesquecíveis.

Vieram o amistoso entre Brasil e Colômbia, as partidas contra Barcelona, Roma. Visita ao Papa. Derrotas aplaudidas pelos adversários nas decisões da Copa Suruga e da Recopa.

A reconstrução do clube foi algo espetacular. Mostrou a força da organização, da gestão empresarial. Não se materializou a contribuição que os clubes brasileiros juraram fazer, diante da comoção da queda do avião. Os 19 rivais do Campeonato Brasileiro não cederam dois jogadores gratuitamente aos catarinenses. Muitos tentaram empurrar seus atletas mais fracos e com altos salários.

Pior ainda foi a postura da CBF. A proposta de alguns dirigentes de que a Chapecoense tivesse três anos para se reconstruir, disputando o Brasileiro protegida, sem a possibilidade de cair, foi sabotada pelo presidente Marco Polo del Nero. Ele temia o precedente e vários processos na justiça dos clubes rebaixados. A ideia foi travada por Del Nero e os dirigentes do clube catarinense decidiram se calar e aceitar as mesmas regras dos demais.

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E o planejamento sério, em meio ao luto, já foi responsável pela conquista do Campeonato Catarinense em 2017. Um feito incrível. E que só foi capaz de virar realidade pela organização, pelo dinheiro das indústrias do Oeste do estado, e também pelo apoio incondicional da população da próspera cidade de 250 mil habitantes. Depois, o feito de atingir 51 pontos, ficar em nono no Brasileiro, deixar 11 equipes atrás, faltando apenas uma rodada. A certeza de que nem a tragédia levou o time de volta à Segunda Divisão.

O momento é de dor, de lembrança, de celebrar a superação. Mas também de olhar com seriedade para as famílias das vítimas do acidente. O clube tem a obrigação de dar toda a assistência jurídica para que os familiares recebam o que têm direito. A apólice da La Mia era de 25 milhões de dólares, cerca de R$ 80 milhões. A seguradora é a boliviana BISA, que tem a britânica Clyde&Co como sua representante legal.

A Chapecoense pagou as indenizações aos familiares dos 19 jogadores mortos na queda do avião São 14 salários de cada uma das vítimas que jogava na equipe. E a CBF também bancou mais 12 salários para cada atleta morto. O problema maior segue sendo os parentes dos membros da Comissão Técnica e dos dirigentes. Os familiares dos nove jornalistas que iriam cobrir a final da Copa Sul-Americana estão resolvendo esta questão com as empresas que eles trabalhavam.

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O clube pagou cerca de R$ 40 mil para os parentes dos jogadores, funcionários e dos quatro sobreviventes: o zagueiro Neto, o lateral Alan Ruschel, o goleiro Follmann e o jornalista Rafael Henzel. O dinheiro veio de amistosos e doações.

O clube renasceu.

Tem novo elenco competitivo.

Os advogados dos familiares vão lutar na justiça pela indenização.

Mas a dor vai ficar para sempre.

A irresponsabilidade cobrou seu preço mais caro.

71 vidas desperdiçadas pela escolha de uma 'viação aérea' mambembe.

Que circulava pela América do Sul sob a proteção da corrupta Conmebol.

Sem a mínima averiguação dos clubes e seleções que transportava.

O fator determinante era a economia que oferecia.

E o avião envelopado com as cores do time que levava.

Quem optou pela LaMia decretou o final de 71 vidas...
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