1reproducao Tenho medo de voltar a trabalhar no futebol. Há muita sujeira. Não quero estragar tudo de bom que consegui com a minha carreira. Imagino o trevo que deva estar a cabeça do Rogério Ceni. Marcos, exclusivo...
30 de junho de 2002. Yokohama. Concentração brasileira. A Seleção vai disputar o título mundial com a Alemanha. Ele não consegue dormir. Está preocupado. Tenso. Nervoso. Seu medo é falhar e ficar marcado para o resto dos dias. Assim como Barbosa ficou na Copa de 1950.

Se ajoelha, reza, pede proteção a Deus. E, emocionado, promete.

"Se for campeão do mundo, vou doar 50% da premiação."

O goleiro termina de rezar e vai ao banheiro. Volta ao quarto, deita. Se prepara para dormir. Não consegue. Se levanta. Ajoelha no mesmo lugar onde havia feito a promessa. E diz.

"O Senhor de me desculpe. Mas eu quero mudar a promessa. 50% é muito. Vamos 'fechar' em 5%?"

Uma negociação que ficaria entre ele e Deus veio a público. Porque Marcos quis contar. Ele era assim quando jogava. Sincero, transparente. Puro, neste mundo sujo do futebol.

Por isso hoje, ainda hoje, quatro anos depois de parar de jogar, ainda provoca filas, confusão por onde vai. E não só de palmeirenses. Corintianos, são paulinos, santistas fazem questão de selfies, autógrafos, abraços, conversas. Ou basta um sorriso.

Passa credibilidade, simpatia, confiança.

Não mereceu documentário, livros, estátua à toa.

Por isso tudo, Marcos não sabe o que fazer. Desde a aposentadoria, no dia 11 de dezembro de 2012, ele não voltou a trabalhar. Fez algumas propagandas. Participou de campanhas publicitárias para o ex-clube e só.

Não tem vínculo nenhum profissional com empresa alguma.

Nem com o Palmeiras.

Em uma conversa descontraída, revela que tem sérias dúvidas em voltar a trabalhar com o futebol. Seu principal motivo é o orgulho da carreira limpa, da imagem decente que deixou. O medo de estragá-la se justifica.

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Marcos, não chega de férias, não? Você é um dos grandes ídolos do futebol brasileiro. Não vai voltar a trabalhar? Ser técnico, dirigente, preparador de goleiro? Empresário? Comentarista?

Olha, Cosme, vou ser muito sincero. Não sei se quero voltar a trabalhar com futebol, não. Tenho muito medo de voltar a trabalhar no futebol. O clima é muito pesado. Há muita sujeira. E graças a Deus, eu consegui ter uma carreira limpa. Ninguém tem nada para falar de mim. Dei minha vida, empenhei tudo que podia e o que não podia pelo Palmeiras, pela Seleção. Sou bem tratado onde vou. E não só por palmeirenses. Corintianos, torcedores todos os clubes me abraçam, beijam a minha careca. É uma coisa impressionante. E que me orgulho. Não quero arriscar tudo isso voltando ao futebol. E me queimar.

Como assim, Marcos?

Vou dizer. Eu não tenho vínculo nenhum hoje em dia com o Palmeiras. Se eu for bater lá e pedir para o Paulo Nobre me arrumar uma coisa, tenho certeza que arruma. E, suponhamos, me coloca como um elo entre os jogadores e o treinador. Parece bom, não é? Mas aí surge um jogador de um empresário importante. Eu acho que o cara tem potencial. Ele é contratado e não dá certo. Vai ter gente que pode dizer que eu ganhei alguma coisa por indicar o jogador. Se veto é porque posso estar ganhando do empresário que tem seus jogadores no clube. Sei como as coisas funcionam. Pronto. Em um mês posso ter jogado no lixo a minha imagem limpa. Não vale a pena.

O Zico passou por algo parecido no Flamengo...

Sim. E eu sei bem o quanto o Zico é honesto. Quando o cara é ídolo em um clube fica visado. Vira alvo. E arrisca o que tem de mais importante : sua credibilidade, as portas abertas com a imprensa, com o torcedor. Se está trabalhando com um presidente, a oposição tem de fazer o quê? Miná-lo, desmoralizá-lo. Para prejudicar quem manda no clube. Caso se alie a um candidato de oposição, está ganhando por fora. No futebol tem muita inveja. Tenho muito medo de estragar tudo que fiz.

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Mas você só se vê trabalhando como dirigente?

Não, nem como dirigente. Eu só te dei um exemplo. Como treinador não adianta. Não tenho perfil. Não quero essa pressão. E tenho mais saco para concentração, viagens, cobrança todos os dias. Não vale a pena. Além de sacrificar de novo o que mais amo: a minha família, os meus amigos. Fazer da minha vida treino, viagem, concentração, jogos, entrevista. E na segunda-feira, tudo de novo. E com o risco de ser xingado pela torcida que te amava. Não quero. Empresário, então...Não tem nada a ver comigo mesmo. Não tenho estômago para as negociações no futebol.

Preparador de goleiros, como o Taffarel. Que tal?

Cosme, vou te falar. Não tem como. A cartilagem dos meus joelhos está comprometida. Foram muitos jogos, muitas contusões. Tratamentos infiltrações. O organismo não suportou. Não posso ficar chutando bolas para os jovens goleiros. Eu acho que até gostaria de ensinar, passar o que sei. Só que não dá.

Dono de escolinha de futebol. Pronto...

Você não tem ideia do que está falando. Fui atrás para ver. Se um garoto quebra a perna treinando, o dono da escolinha pode ser processado. E ter de pagar milhões. É uma dor de cabeça imensa. A não ser que faça seguro de vida para todos os meninos. O que é completamente inviável.

Sobrou comentarista de televisão...

Houve algumas conversas. Mas também não me animei. Não está na minha índole falar mal de ninguém. Fui jogador e sei que uma frase de um comentarista pode acabar com a carreira de um atleta. Não quero carregar esse peso para mim. E também tenho de ser sincero com quem está assistindo, com a televisão que está me pagando. Não quero ficar enganando, posando de bonzinho. E nem seria justo comigo mesmo. Me calando diante do que estou vendo. Sou pela verdade sempre. Se não posso falar, me calo. Mas não minto.

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Sendo assim, como deve estar o Rogério Ceni?

Ele sabe muito bem tudo o que estou falando. Imagino que cabeça do Rogério deva estar um trevo. E é até bom que esteja. Um grande ídolo quando para precisa pensar. Sua maior riqueza é a sua imagem. Porque não vou negar que vem um vazio quando você não tem mais de treinar, jogar. Ficar longe daquela adrenalina. Por mais que você pense quando está chegando o final da carreira, é tudo diferente quando ela acaba. A gente se condiciona, se acostuma com a rotina. Imagino que ainda mal começou a cair a ficha para o Rogério Ceni. Está muito recente. Não é uma transição fácil.

Qual o lado bom do final da carreira?

Para mim, não tem nem o que pensar. A descoberta da família. Conviver com a minha mulher. Fazer tudo com ela. Ir marcar passagem aérea, reservar hotel, cuidar de documentos. Quando você é jogador, o clube faz tudo por você. Agora, não. Sou eu que tenho de cuidar das minhas coisas. Mas tem o outro lado. Chegar na praia com a minha família, ficar brincando com os meus filhos. E quando amanhece a segunda-feira de sol, dia que tinha marcado para voltar, dizer em voz alta. "Não vamos voltar, porcaria nenhuma. Vamos ficar aqui, torrando. O resto que se dane." Isso é um privilégio incrível para qualquer um. Ainda mais para ex-jogador acostumado a horários rígidos.

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Ainda bem que você teve cabeça e conseguiu montar um patrimônio.

Graças a Deus, vivo bem. Não sou rico. Me esforcei muito, dei minha alma. O Palmeiras soube reconhecer. Me preparei para parar. Mas sou de uma geração anterior a esta, que está ganhando bem de verdade. Ainda mais se for para a China. Nem se o cara forçar, fica pobre. Fico feliz porque é o reconhecimento aos jogadores. Quantos antes de mim têm dificuldades sérias, depois que a carreira parou?

Quais são seus planos futuros, Marcos?

Sinceramente, não sei. Estou vivendo muito bem. Descobrindo o prazer de ajudar meus filhos na escola. Passear para cima e para baixo com a minha mulher. Está ótimo. Quando eles se cansarem e me quiserem colocar para fora de casa, aí eu penso o que faço. Por enquanto, quero desfrutar a minha vida. Voltar ao futebol agora não atrai. Minha carreira foi linda demais. É essa imagem que quero guardar. E que as pessoas preservem...

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