
As três últimas demissões de Muricy Ramalho foram motivadas pelas diretorias.
Houve desde preconceito intelectual, rejeição, interferência e até ameaça de redução de salários.
As saídas de São Paulo, Palmeiras e Fluminense marcaram sua pele.
Como cicatrizes com queloide.
Não dá para esconder, ela estão lá.
Se as pessoas se esquecem, quem as têm, não.
A saída do São Paulo doeu na sua alma.
Tricampeão seguido do Campeonato Brasileiro, não conseguiu vencer a Libertadores.
Foram três em seguida.
Na última, diante do Cruzeiro, no Morumbi.
Mas nesta última seu trabalho foi sabotado.
Dirigentes trabalharam em alto e bom tom para trocá-lo.
Havia até quem para o atingir se referia de maneira pejorativa à maneira com que ele se vestia.
E o fato de não ser poliglota.
Não foi por acaso que Ricardo Gomes o substituiu.
Juvenal Juvêncio foi pressionado por dois anos seguidos.
O maior inimigo declarado de Muricy foi o vice presidente de futebol, Leco.
Eles até nem se falavam nos últimos tempos.
Muricy sabia que só continuaria no Morumbi se conquistasse a Libertadores.
Não conquistou e foi demitido da maneira humilhante.
Não se conformou com carros de imprensa o aguardando na calada da noite.
Percebeu o óbvio: jornalistas foram avisados da sua demissão antes dele.
Ao chegar do Palmeiras ele tentou se relacionar melhor com todos os membros da diretoria.
Mas encontrou grande resistência no vice Gilberto Cipullo.
Ele não queria Muricy treinando o clube.
Teve de aceitá-lo porque a escolha foi do presidente Belluzzo.
Mas Cipullo o avisou que os métodos do treinador não dariam certo.
O elenco era mimado demais para os gritos, a falta de intimidade com os jogadores...
E o ex-dirigente não gostava das escolhas de jogadores que Muricy indicava...
Punha defeito em tudo...
Os dois não se deram bem do primeiro ao último minuto...
Isso atrapalhou demais o treinador no Palestra Itália...
Também é verdade que seu esquema não encaixou e o time perdeu o título brasileiro, que parecia certo...
Em seguida, a mudança de ares...
Rio de Janeiro, Fluminense...
Foi tudo perfeito com Roberto Horcades...
Já havia chegado com toda moral pelos tricampeonatos nacionais...
A prioridade do clube era o Brasileiro e a classificação para a Libertadores...
Perdeu a Copa do Brasil, mas não houve cobrança...
A ótima campanha do time e a convocação para ser treinador da Seleção deixou seu prestígio nas alturas...
Tudo ficou ainda melhor com a conquista do Brasileiro...
Mas aí veio a troca de presidente....
Desde o primeiro dia, Peter Siemens havia sentido que o treinador tinha muito poder...
Dava palpite em tudo...
Cobrava pressa na construção de um moderno CT, criticava jogadores que não havia pedido...
Muricy fingia que não percebia...
Não quis se aproximar do novo presidente, como muitos treinadores fariam...
O fraco início da Libertadores era tudo o que Siemens esperava...
Foi duro com o técnico...
Cobrou as reclamações com a imprensa das contusões dos jogadores no péssimo gramado das Laranjeiras...
A famosa declaração que havia até ratos por lá foi a gota d'água...
O presidente primeiro demitiu o vice Alcides Antunes, homem de confiança do treinador...
Embora a amizade estivesse desgastada, era muito próximos...
Muricy não se conformou...
Depois recebeu o recado que seu salário deveria ser 'reajustado'...
Diminuído para os íntimos....
Em 40%...
Foi a maneira sutil de Siemens o forçar a pedir demissão...
Isso aconteceu...
Todas essas demissões explicam a situação atual no Santos...
O treinador tem o relatório do desgaste físico dos seus jogadores...
Gostaria de poupá-los para o jogo decisivo contra o América no México na terça-feira...
Mas há a semifinal do Paulista amanhã contra o São Paulo no Morumbi...
Para ele não haveria problema algum em jogar com um time misto...
Só que Muricy aprendeu a ler sinais de fumaça...
Percebeu que o presidente Luís Álvaro quer de qualquer maneira o bicampeonato paulista...
É uma questão de domínio territorial...
Quer mandar no quintal...
Ele acredita e também deseja a Libertadores...
Mas para ele é possível a dupla conquista...
Muricy decidiu não enfrentar a cabeça do dirigente...
Ele quer Neymar, Ganso e Elano contra o São Paulo...
Muricy vai colocar...
E rezar para o Santos conseguir uma boa vantagem que permita o tirar do jogo o mais rápido possível...
Mas o treinador cedeu...
Não vai bancar o martir...
Só não vai jogar um atleta que estiver perto de um estiramento...
Peitar o presidente, com a chance de ser eliminado pelo São Paulo e ainda perder para o América no México...
Demorou, mas Muricy se dobrou...
Percebeu que talvez o maior inimigo esteja na sala da presidência dos clubes onde trabalha...
Do que nos times adversários...
Este é o futebol brasileiro...
Isso é trabalho, meu filho...
Né, presidente?
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