1ap15 Sócrates. As histórias impressionantes  de um homem que não fez concessões. Um gênio que marcou a história do Corinthians, da Seleção. Foi fiel a si mesmo. E que não pode ser esquecido...
Contestador. Inteligente. Talentoso. Depressivo. Autodestrutivo. Diferenciado. Genial. Vários adjetivos que se encaixam para definir Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira. Foram 57 anos de uma vida intensa. Um dos jogadores com mais personalidade a nascer neste país.

A sua biografia até hoje é impressionante. E ela foi muito bem escrita. Mostrando lados desconhecidos. Várias peças formam um painel brilhante de um ser humano impressionante. Fiel até à morte às suas convicções.

O escritor Tom Cardoso assumiu a missão que muitos esperavam ser de Juca Kfouri. Mas o autor de 'O Cofre do Dr. Rui'; 'Tarso de Castro', biografia do jornalista fundador do O Pasquim; e "O Marechal da Vitória", sobre Paulo Machado de Carvalho, assumiu a tarefa. O livro ficou excelente.

Em uma longa e cativante entrevista, Tom descreve Sócrates como poucos poderiam imaginar. As histórias parecem roteiro do filme que virá. Impressionantes. Mas verídicas.

Melhor o próprio autor descrevê-las...

Como nasceu o Sócrates jogador? A família dele era intelectualizada?

Não. E também não tinha nenhum atleta na família. A história é interessante. O pai dele, Raimundo, era um cearense semianalfabeto, nascido em casa de chão batido, autodidata, que lia filosofia por conta própria. O curioso é que foram nascendo os filhos e ele foi batizando com os nomes dos filósofos que ele estava lendo.

E até tem uma história engraçada quando nasceu o Sócrates. O pai, lógico, lia Sócrates. Depois vieram Sóstenes e Sófocles. A mãe, dona Guiomar, resolveu parar com essa história de nomes de filósofos. E começou a dar nomes de nordestino. Raimundo, Raimar, que eram junções. Aí veio o Rai. O pai disse que era hora de parar com esses nomes cearenses, muito feios. E quis voltar a dar nome de filósofo. Ele estava lendo Xenofante. E quis batizar assim o menino. Dona Guiomar não quis de jeito nenhum. E o pai respondeu que não queria mais nomes que eram junções, por ser muito brega. E ficou Rai.

Mas a ligação do Sócrates com o futebol tem tudo a ver com o Pelé. Ele era santista na infância. Ele ia ver os jogos com pai. E a maior goleada do Santos foi 11 a 0, com oito gols do Pelé na Vila Belmiro. E o Machado, goleiro do Botafogo, evitou mais uns 30. E o Sócrates assistiu ao jogo no colo do pai. E passou a gostar de futebol por isso. Começou a se destacar jogando desde menino. E como seu Raimundo sempre deu muito valor à educação. Tanto que foi um dos 16 aprovados no concurso para fiscal da Receita Fiscal no Brasil. Estudou sozinho na luz do lampião, no Nordeste.

Seu Raimundo foi muito bem no concurso. E pôde escolher entre Santos e Ribeirão Preto. Como a família vivia em Belém, onde o Sócrates nasceu, ele optou por Ribeirão, que era mais quente, mais interiorana. Santos já era uma cidade portuária, muito agitada. Foi lá que nasceu o Raí. Sócrates sempre sarcástico, disse que o Raí fazia parte da geração filé mignon, quando o seu Raimundo já estava melhor de vida, fiscal da Receita Federal. Com dinheiro para dar carne boa para os filhos. Por isso o Sócrates dizia que o Raí era fortão e ele magrinho.

Tom, valorização do Raimundo em relação aos estudos fez com que o Sócrates só viesse ao Corinthians tarde?

Sim. Ele só veio para o Corinthians com 24 anos. Ele já jogava futebol em chácaras. Tinha um talento assombroso. Mas sempre indisciplinado. Mas o pai só deixou sair de Ribeirão Preto quando estivesse formado médico. E o Sócrates respeitou a vontade do pai.

Pesou também o fato de o Sócrates ter começado a beber cerveja muito cedo. Bebia e fumava com 14 anos. Por isso o pai falou que ele só iria para um time grande formado. E ele escolheu medicina porque tinha o sonho de ser médico social, atender a população carente de graça. Ele tinha essa consciência social desde cedo. Ele jogava com os peões das fazendas e via a desigualdade. Uma pena que nunca exerceu a medicina.

Ele também foi influenciado pelo pai, que lia muita literatura de esquerda. Inclusive, na época da Ditadura Militar, chegou a queimar os livros que tanto amava. Com medo que se alguém descobrisse o que lia acabasse prejudicando a família. Aquela cena do pai queimando os livros marcou muito a vida do Sócrates.

 Sócrates. As histórias impressionantes  de um homem que não fez concessões. Um gênio que marcou a história do Corinthians, da Seleção. Foi fiel a si mesmo. E que não pode ser esquecido...

Tom, qual é a verdadeira história da ida do Sócrates para o Corinthians?

O Sócrates jogava no Botafogo porque a diretoria o deixava ficar sem treinar. Apenas jogar. Ele passava muito tempo estudando. Mas todos sabiam que, quando ele se formasse, iria para um time grande. E era acompanhado de perto. Principalmente pelo São Paulo. O presidente do clube na época, Antônio Nunes Leme Galvão, se antecipou. Foi até Ribeirão. E participou de vários churrascos com o pai do Sócrates. E dizia que, quando se formasse, iria jogar no São Paulo. Estava tudo certo.

Mas nisso, havia um conselheiro do Corinthians que estava em um dos churrascos. E ele avisou a diretoria do Corinthians. O então presidente corintiano, Vicente Matheus, soube. Teve uma ideia. Disse que estava interessado em comprar o Chicão. Sabia que o São Paulo iria esperar o dinheiro desta compra e, com ele, buscar o Sócrates.

Enquanto deixou o São Paulo esperando, disfarçou. Disse que estava indo para a Argentina comprar o Maradona, jovem revelação do Argentino Júniors. Saiu na capa de todos os jornais da época. Só para despistar o pessoal do São Paulo. E ele pegou o chofer dele e foi para Ribeirão Preto.

Como o Vicente Matheus era carismático, ele acabou cativando o Sócrates, o seu Raimundo e acabou contratando o jogador. Não quis comprar o Chicão e deu um puta rolo com o São Paulo. O Corinthians venceu. Mas não foi um bom negócio financeiro para o Sócrates.

Como assim?

O Vicente Matheus acabou oferecendo uma miséria para o Sócrates. Ele veio ganhando 45 mil cruzeiros. O Zico ganhava, na mesma época, 450 mil cruzeiro. E o Sócrates já tinha quatro filhos, com 24 anos. E para criar todos, mais a mulher em São Paulo, iria consumir todo o seu salário. Não tinha noção disso. Ele foi morar então em um apartamento com o Palhinha. Ia para o treino de carona do Palhinha. Muito apertado de dinheiro.

Entrevistei o Datena para o livro. Ele era repórter de futebol, de Ribeirão Preto, e amigo do Sócrates. E me disse que chegava na casa do Sócrates e lá parecia uma comunidade hippie. Com todos os filhos dormindo em colchões no chão. Não parecia uma estrela do futebol que já havia até sido convocado pela Seleção, pelo Coutinho.

E o relacionamento do Sócrates com a torcida do Corinthians não foi bom no início, foi?

De jeito nenhum. Pouca gente sabe, mas o Sócrates passou os primeiros anos sendo infernizado pela torcida do Corinthians. Primeiro porque ele era o avesso do estereótipo do jogador corintiano, de jogador de raça. Era mais frio, econômico nos gestos. Fazia o gol comemorando o punho fechado, fazendo o gesto dos Panteras Negras (organização política ligada aos negros norte-americanos. Lutava pelo fim da segregação racial nos anos 60.)

Ele tinha uma grande identificação com os Panteras Negras e a torcida não sabia que droga era aquele braço levantado. Os corintianos queriam que ele pulasse alambrado. Mas depois dele daria uma entrevista dizendo que ele mal tinha fôlego para jogar. Se ele tentasse pular o alambrado, ele morreria. E mais. Primeiro ele achava também que não precisava fazer média.

Tem uma história que quase ninguém se lembra. Em 1981, o Corinthians teve de disputar a Taça de Prata no Campeonato Brasileiro (uma Segunda Divisão disfarçada). Naquele ano estava muito mal. Tanto que perdeu uma partida no Pacaembu para o XV de Piracicaba. E o Sócrates foi dar uma carona para o Palhinha. Só que ele tinha comprado um Fiat 147. Verde! Os torcedores quando reconheceram os dois dentro do carro, logo depois do jogo, quase lincharam a dupla.

Quando escaparam, o Palhinha falou para o Sócrates: "Magrao, seu filho da puta, você não querer correr para o alambrado depois do gol, tudo bem. Mas comprar comprar um carro verde, seu merda?" O Sócrates respondeu. "Não vou vender meu carro para fazer média com torcida. E quando os repórteres perguntavam para que time ele torcia, dizia que era para o Santos do Pelé. Ele era assim.

O Sócrates só virou ídolo da torcida do Corinthians depois da Democracia Corintiana. Antes disso ele era tido como um Ganso no São Paulo. Jogador descompromissado, frio, que não dava sangue. Acredito que dê para fazer um paralelo entre os dois.

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Tom, explique a Democracia Corintiana. O Sócrates era, na verdade, um ditador?

O bom é que eu pude desmistificar essa história do Sócrates político. Não era. Em 1979, ele deu uma entrevista para a Playboy. Nela, elogiou o general Figueiredo. Disse que não era hora de democratização. Achava a militância política um saco. E que no grêmio estudantil de Ribeirão Preto ele gostava era de tomar cerveja. Achava um porre esses discursos acadêmicos de esquerda. Dizia que estava mais para a esquerda festiva do que a tradicional.

Quem levou a política para a Democracia foi o Wladimir. Ele era um negro que estudava iorubá (idioma africano), muito consciente do momento político brasileiro, idealista, filiado ao PT. O Sócrates, apesar de consciente, não era tão envolvido. Era o cara da cerveja. Foram o Wladimir e o Adilson Monteiro Alves, um sociólogo. Ele era um sociólogo que ganhou de presente o futebol do Corinthians. Foi um cara que foi preso no famoso Congresso de Ibiúna, com o Zé Dirceu.

Muita gente acha que a Democracia era o Sócrates, quando na verdade, não. Ele foi o catalizador por causa da Seleção. Foi líder, mas não o ideólogo.

A Democracia foi 'democrática'?

Não. Ela levava em conta o voto do massagista, mas em alguns momentos, ela falhou. Um dos momentos marcantes foi a vinda do Leão. Foi votada a vinda dele e o Sócrates foi a favor. Quando fizeram a votação, deu um puta tumulto. O Casagrande era o principal jogador contrário. Dizia que ele era um reacionário. Mas o Sócrates defendia porque dizia que o Corinthians precisava de um goleiro bom.

O Zenon me disse que, quando houve a contagem, houve uma confusão e o Adilson pegou os votos e nem contou direito. E já foi logo dizendo, "o Leão vem". Dez minutos depois, o Leão foi apresentado aos jogadores. Ele já estava dentro do clube. Estava contratado pelo Adilson. E depois se descobriu que o Adilson tinha jantado com o Sócrates e o Wladimir para falar do Leão. Tanto que o (técnico) Mario Travaglini pediu demissão três dias depois por não ter sido consultado sobre o Leão. Ou seja, a Democracia não era democrática.

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Como foi a vida do Leão no Corinthians, com a Democracia?

O Sócrates sempre disse que se arrependeu amargamente. Ele dizia: "pense em tudo em que uma pessoa ruim pode ter. Essa pessoa é o Leão". Ele boicotou a Democracia. Dividiu o clube entre ele e o Sócrates. Era uma questão pessoal. Tem uma história que ilustra bem a polêmica que cercou o Leão.

Na semifinal de 83, jogaram Corinthians e Palmeiras. O primeiro jogo acabou empatado em 1 a 1. O Adilson Monteiro acreditava que o Leão havia falhado de modo estranho no gol do Palmeiras. No segundo jogo, o Corinthians entrou em campo faltando apenas cinco minutos para a partida começar. Eles se trocaram no ônibus. Não foram nem para o campo. Porque o Adílson convocou uma reunião. E disse. "Se você falhar neste jogo e o Corinthians perder, vou para a imprensa e digo que você está nos boicotando por causa da Democracia Corintiana." E o Leão foi o melhor em campo. Mas mesmo campeão, ele sai porque não tinha mais ambiente para ele.

Tom, como foi a ida do Sócrates para a Fiorentina? Ele foi porque não foi aprovada no Congresso a emenda das eleições diretas para presidente?

Sabe qual foi o principal motivo dele ter ido embora? O romance dele com a cantora Rosemary. Era amante dele. A Regina, mulher dele e mãe dos quatros primeiros filhos, descobre. Depois, o Adilson Monteiro Alves não estava mais no Corinthians. A turma do Vicente Matheus, Romeu Tuma Júnior, chegou ao poder. Era o retorno dos conservadores. A derrota das Diretas contribuiu. Além da proposta milionária da Fiorentina, ele ganharia seis ou sete vezes mais. Mas o que pesou foi o casamento em crise.

Tom, eu falei com um jornalista italiano e ele me revelou. A imprensa italiana acredita que a contratação do Sócrates foi uma das piores de todos os tempos. O apelido dele, inclusive, era Palhaço. Por quê tanta raiva dele?

Existe uma soma de coisas. Primeiro, a indisciplina. Não obedecia o técnico, queria treinar pouco como aqui. A escola italiana era de força, muita marcação, como ainda é hoje. O que era totalmente contrário do estereótipo do Sócrates como jogador. A ciumeira do Passarella. Para o Sócrates ser contratado, a Fiorentina dispensou um outro argentino. Além disso havia a família Pontello, dona do clube. Ela era representante da Democracia Cristã italiana, o maior partido de direita.

E quando ele foi apresentado no estádio da Fiorentina, fez seu gesto tradicional. Levantou o punho cerrado. O Flávio Pontello perguntou, assustado. "O que é que isso? Gesto comunista aqui?" O Sócrates foi avisado da gafe. E respondeu. "Ah, ele não gostou? Então é agora que vou fazer toda hora." Seis meses depois dá uma entrevista ao jornal do PCI, Partido Comunista Italiano. O gesto do punho fechado, erguido, é também ligado à esquerda. Lembra quando o Zé Dirceu é preso e faz a mesma coisa?

Depois, na entrevista de apresentação, foi perguntado sobre se fumava. Ele falou. "Fumo de dez a 15 cigarros por dia". Os repórteres perguntaram também sobre a bebida. 'Vai deixar de beber?' O Sócrates respondeu: "Não vou". Não fez média.

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Tom, o Sócrates fumava mesmo dez a 15 cigarros por dia? E bebia todos os dias?

O Sócrates fumava mais do que isso. Um, dois maços. E bebia todos os dias. Como já disse, desde os 14 anos. Ele sempre bebeu cerveja. Mas no final da vida, trocou pelo vinho. Só que bebia vinho na quantidade de cerveja. Acho que iria pelo vinho que era mais saudável. Mas a quantidade que bebia era absurda. Sempre foi alcoólatra. Mas só reconheceu no final da vida.

Mas como ele conseguia jogar?

Olha, o Sócrates só ficou seis meses em forma. Foi quando o Telê o convenceu a jogar a Copa de 1982. Ele ficou 'limpo'. Parou o cigarro totalmente como a cerveja. O (preparador físico) Gilberto Tim cuidou especialmente dele. O Júnior me deu uma entrevista e disse que o Sócrates vomitava nos treinamentos do Tim. Na época eram treinos revolucionários. Todos tinham de dar oito piques de 300 metros. O Sócrates vomitava. Não tinha condicionamento algum.

Mas durante a Copa, o Sócrates dá arrancadas fenomenais. Ele vira atleta de fato. Se dedicou tanto assim pelo Telê. Ele identificava muito o técnico com o seu pai. Franco, direto, trabalhador. E que não era tanto tático. Gostava de dar liberdade aos atletas, confiava neles. Isso combinava com a maneira de o Sócrates enxergar futebol.

O quanto o Sócrates queria vencer a Copa de 82?

Ele teve um envolvimento emocional com os companheiros daquela Seleção. Apesar de diferentes, ele adorava o Zico. Havia uma preocupação no começo em relação aos dois e ao Falcão. Os três eram capitães nos seus times. Quem iria mandar, quem seria o líder daquele time? O Falcão me falou que o Sócrates era tão líder que exerceu sua liderança de forma silenciosa.

O Sócrates foi tão influente que fez toda a Seleção jogar em função dele. Com toque de bola rápido. Essa história que o Guardiola diz que era moleque e se espelhou no Brasil de 82 é verdadeira. Isso por causa do Sócrates. O próprio Zico confirmou que no Flamengo driblava e carregava muito a bola. Mas na Seleção, na Copa da Espanha, passou a tocar muito a bola. Por causa do Sócrates. O estilo da Seleção de 82 era puramente Sócrates.

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O Sócrates influenciou na mudança de personalidade do Serginho na Copa?

Não. De jeito nenhum. Não partiu dele. Os dois se adoravam. Bebiam juntos. O Sócrates gostava do jeito estourado do Serginho. Mas nunca tiveram problema algum. Há uma história que mostra essa ligação. Em um jogo de 82, o Corinthians enfrentava o São Paulo. E o Serginho começou a dar pontapés. Mas só no Sócrates. Ele não se aguentou e perguntou. "Que porra é essa, Chulapa? Por que você está me chutando?" "Magrão, o próximo jogo do São Paulo é em Marília. Eu peguei a mulher do delegado. E ele me jurou de morte. Tenho de ser expulso." "Chulapa, então vá chutar a canela de um cara que você não gosta. E para de chutar a minha." Aí o Serginho foi chutar outros e foi expulso.

Mas como foi o impacto da derrota em 1982?

Ele sentiu muito. Mas o Sócrates foi frio. Primeiro ele não acreditava que a Seleção Brasileira era muito melhor do que a Italiana. E reconhece que a Itália jogou melhor. Mas o que pouca gente sabe é o que o Sócrates teve um pressentimento. Quando o Falcão empata aquela partida em 2 a 2, ele vai comemorar e, de repente, o semblante dele fica fechado. Naquela hora, ele que não era místico, sentiu uma espécie de 'anjo triste' avisando que tudo estava acabado. Ele sentiu que aquele gol era o último do Brasil na Copa.

Acaba o jogo, o Brasil está eliminado, mas o Sócrates parece sereno.

Ele disse que aquele dia foi o pior de toda a sua vida. Só que nunca mostrou muita tristeza falando da Copa. Por causa das amizades que fez. Zico, Falcão, Júnior, Leandro. Disse que não trocava o título pelas amizades.

E a Copa de 86? O que significou para o Sócrates?

O impacto foi muito menor. Aquela já era uma geração envelhecida. De todos os convocados, o mais contestado foi o Sócrates. Ele estava mal demais fisicamente. Ele já tinha fôlego de veterano com 19 anos no Botafogo. Com 32 anos, mal podia correr. Sua participação foi mais política. Bate de frente com a CBF.

Ele se revoltou porque cada um só tinha cinco minutos para falar com a família no Brasil por telefone. Contestou o prêmio dos jogadores. Não era mais o capitão. Ele pensava mais fora do que dentro de campo. Tanto que não ficou tão abalado quando o Brasil perdeu. Sabia que o time não era tão bom quanto o da Copa passada.

Tom você disse que o Sócrates era um contestador. Na Itália, em um time comandando pela Democracia Cristã, ele não pode ter se dado bem fora dos gramados.

Tem uma história que resume bem isso. Havia uma enorme ciumeira dele na Fiorentina. Mas ele estava deprimido. Era Carnaval. O Sócrates decidiu fazer uma festa de Carnaval na casa dele. Mandou trazer um monte de chope. E decidiu. Não seria uma festa. Mas duas. A primeira para os brasileiros na Itália. E a segunda para os gringos. Disse que iria mostrar para esses filhos da ... como se faz festa.

O primeiro dia seria para os brasileiros. Para o Júnior, Zico, Cerezo, Pedrinho. E no primeiro dia, todos beberam muito. Não só isso. O Sócrates ficou na porta e obrigava a quem chegava a dar uma cheirada de lança perfume. "Aqui na minha festa, todo mundo tem de ficar doidão", dizia o Sócrates. E todos obedeciam. Quando acabou o lança perfume, ele passou a usar um monte de laquê da mulher, que também dava barato.

E cada laquê tinha uma cor. O Zico me disse que cada um foi ficando com o nariz de uma cor. O do Cerezo estava amarelo, do Leandro vermelho, e por aí. O Zico falou que a única vez na vida dele que ficou doidão foi nesta festa.

Todos vararam a noite. E quase todos desmaiaram no fim da festa. Não conseguiram ir embora. Dormiram encostados pelos cantos. Só que logo cedo, no dia seguinte, chegaram os gringos para o 'carnaval brasileiro do Sócrates'.

Enquanto os brasileiros chegaram com pandeiros, bumbos, os italianos chegaram de terno, gravata. O Sócrates falou para os seus amigos daqui. "Filho da puta não entra na minha casa de gravata." Foi no quintal e pegou o cortador de grama, que era um 'tesourão' imenso. Aí ele viu aquelas gravatas Versace, Armani e começou a cortar. Todo mundo que chegava, ele fala 'dá licença' e ia cortando as gravatas. Os brasileiros como Zico e o Júnior chorando de rir.

O último a chegar foi o Passarella, capitão da Fiorentina, personalidade forte. Todos pensaram que o Sócrates não fosse cortar sua gravata. Ele não só cortou como fez picadinho da gravata. O Passarella ficou louco, constrangido.

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Por que a depressão do Sócrates?

Na verdade, o Sócrates já estava muito puto. Sofria boicote na Fiorentina. Não passavam a bola para ele. Além disso declarou mais tarde que percebeu algo estranho. A máfia de resultados na loteria no Campeonato Italiano. Pensou que fosse chegar em Firenze e tomar um banho de cultura. No fim encontrou um clube dominado por uma família de direita, reacionárioa. Além disso, enfrentou o pior inverno dos últimos 30 anos na Itália. Ficou mal. Ficou pouquíssimo tempo e quis voltar. Nem pensar em seguir na Europa.

Ele esteve para jogar na Ponte Preta...

Sim, é verdade. O Luciano do Valle quis tocar um projeto para o seu retorno. Disse que havia conseguido empresas patrocinadoras. O Sócrates fez até uma capa para a Placar com a camisa da Ponte. Posou, assinou contrato. E disse para os italianos que iria embora. Quando chegou no aeroporto, o Luciano do Valle falou que deu tudo errado e não havia dinheiro algum.

O Sócrates teve de voltar com o rabo entre as pernas para a Fiorentina. Teve de voltar para a Itália, quis entrar no clube, mas o segurança estava avisado. E ele foi avisado que não poderia passar pelo portão, pisar na Fiorentina. O resultado: perdeu muito dinheiro. Teve ódio do Luciano do Valle.

Até que foi feito um pool no Flamengo para trazê-lo de volta ao Brasil. Assim como havia acontecido com o Zico. Ele vem para o Rio. Só que deu tudo errado. Caiu de cabeça na noite carioca. Entrevistei a Nana Caymmi e ela me contou que o Sócrates dava festas que varavam a madrugada na sua casa. Só que os jogadores do Flamengo não iam. Isso porque o Zico foi uma vez e o Sócrates trancava a porta e escondia as chaves. Dizia, 'ninguém sai da minha casa antes de amanhecer'.

A casa tinha muros altos. O Zico ficou desesperado. Falou que a sua mulher o estava esperando em casa. Quando viu que o Sócrates não iria abrir, ele teve de arrombar a porta. Os jogadores souberam e ninguém do Flamengo aceitava ir. O Sócrates não parecia, mas era muito festeiro. Precisava ser controlado.

Foi o que fez o Jorge Vieira no Corinthians. Sabia que ele era fundamental no time. Só que não saía da noite. Adora o Gallery. O que ele começou a fazer? Ia com o Sócrates para o Gallery. Mas com a sua mulher e obrigava o Sócrates a levar a dele. O Sócrates ficava com a cara emburrada. E quando dava meia-noite, o Jorge Vieira dizia que era hora de ir embora. E todos iam. Só isso segurou o Sócrates no Corinthians.

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A diretoria do Flamengo não queria matar o Sócrates?

Não. Porque ele teve uma hérnia e um problema no joelho. Então aceitava suas ausências. O Bebeto surgiu, assim como uma grande geração no Flamengo. O Sócrates foi deixado de lado.

Por que o Sócrates não voltou para o Corinthians?

O Vicente Matheus era o presidente. E não queria ele de volta. Mas estava sendo muito pressionado pela torcida, pela imprensa. O que ele fez? Chamou o Sócrates para uma reunião. E depois dela, malandro, disse que era o Sócrates que não queria voltar. O que não era verdade. Mas não houve comoção da torcida. O Sócrates só virou mesmo grande ídolo do Corinthians na Democracia. E só foi lembrado com saudade quando morreu.

Depois do Flamengo o que aconteceu?

Ele disse que iria parar de jogar por causa das contusões. E começa a namorar a Silvana Campos, uma tenista jovem. Ele separa da mulher. E recebe uma proposta do Santos. O clube estava em uma crise desgraçada. Mesmo assim, o Jair da Rosa Pinto, um ex-jogador com quase 60 anos dá uma declaração quando sabe da contratação. "Se o Santos acertou com o Sócrates, tem de me contratar também. Estou correndo mais do que ele."

O Sócrates chega para o seu time de coração. Mas contestado para caramba. O clube sem dinheiro. O presidente inventa uma excursão para a China. O Sócrates vai e leva a Silvana Campos. No meio da excursão, ele abandona o time. E diz que abandonou o futebol.

Mas muda de ideia e vai jogar no Botafogo. Aí vira técnico. Tenta implantar a Democracia Corintiana lá. Leva cerveja no vestiário. Não dá certo. Depois é contratado pela LDU do Equador. Mesma coisa. Tenta impor a Democracia. Mas quando a diretoria vê que ele quer consultar o massagista para tomar as decisões, pensam que ele é um louco e o mandam embora em três meses.

Daí o Sócrates vai para a Cabofriense, time do Leandro. Tenta impor a Democracia por lá e também é demitido. O Sócrates é isso. Não levou adiante seus sonhos políticos.

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E o lado político do Sócrates?

Ele foi chamado para vários cargos. Mas aceitou ser secretário de Esportes do Antônio Pallocci, então prefeito de Ribeirão Preto. Ele quer abrir o principal clube da cidade para os internos da FEBEM. Queria socializar os garotos internos. A classe média de Ribeirão fica horrorizada. Não permite.

Depois foi convidado várias vezes para ser Ministro dos Esportes pelo Lula, não topou. E recusou outros inúmeros convites para sair candidato.

Por que o Sócrates bebia tanto? Era autodestrutivo?

Ele só assumiu no final da vida ser alcoólatra. Detestava policiar as pessoas. O Casagrande cheirava muito no Corinthians. E o Sócrates mais velho, capitão, deveria chegar e proibir que ele cheirasse. Não. Preferiu dar uma dica como médico. Chegou nele e disse: "Casão, carrega uma caixa de quindim no seu carro. Porque quando você cheirar, a glicose vai atenuar o efeito da cocaína e você não vai se sentir tão mal em campo".

Se o Sócrates não policiava o amigo, o companheiro de time que cheirava, não iria admitir que ninguém fosse controlar sua cerveja. Como todo alcoólatra, não admitia que era alcoólatra. Só foi aceitar, quando estava com cirrose.

E ele tinha muita resistência à cerveja. Era absurdo. O Datena contava que ele não pagava no Pinguim (principal bar de Ribeirão Preto). Começava a beber às 9 da manhã e ia ficava até o bar fechar. Os amigos deles também bebiam demais. O Sócrates nem percebia porque nem tinha ressaca. Só acordou para o quanto a cerveja fazia mal quando ele teve quatro hemorragias seguidas. Perto do fim.

Que característica do Sócrates te chamou mais atenção?

A coerência. Ele ficou anos brigado com o Casagrande. Sem se falarem. E eles sempre se adoraram. Tudo porque eles se encontraram em um almoço e o Casão estava com terno da Globo. E o Sócrates falou: "Aí, Casão. Virou comentarista da Globo. Roupinha da Globo, todo engessado. O Casagrande tinha filho para criar. Era difícil ser Sócrates 24 horas por dia.

O Casagrande ficou magoado. E deixaram de se falar. Mas os dois continuaram a se gostar muito. Tanto que quando o Casão soube que o Sócrates estava em coma, ele foi desesperado para o hospital. E invade o quarto. Fica perto dele e começa a chorar, a agradecer, se desculpar, dizer o quanto gostava dele.

O Sócrates poderia ter se aproveitado dos vários convites que teve do PT. Ficar calminho ganhando seus dólares na LDU. Ter um cargo público. Mas nunca se deixou levar. Sempre foi coerente com sua personalidade. Isso me impressionou no personagem. Por isso quis escrever o livro.

O Sócrates foi o primeiro comentarista de futebol no Sportv. Foi convidado mas chegou para comentar bêbado. Foi um desastres. No segundo jogo, foi um clássico entre Palmeiras e Corinthians. Ele torceu abertamente pelo Corinthians. Acabou, lógico, dispensado. Casagrande foi convidado para o seu lugar. E se enquadrou. Logo passou do Sportv para a Globo, onde está até hoje. O Sócrates continuou autêntico. Por isso a ironia quando encontrou o Casão. E doeu tanto no Casagrande. Ele sabia que teve de se adaptar a Globo para sobreviver. Fez o que o seu grande amigo se recusou. E se submete ao que Sócrates nunca se submeteria.

3reproducao12 1024x576 Sócrates. As histórias impressionantes  de um homem que não fez concessões. Um gênio que marcou a história do Corinthians, da Seleção. Foi fiel a si mesmo. E que não pode ser esquecido...

Tom, todos esperavam que quem fosse escrevê-lo seria o Juca Kfouri. Ele e o Sócrates eram muito amigos.

Olha, o meu livro do Sócrates teve ótimas resenhas. Teve um espaço bacana. Eu havia escrito dois livros anteriores. Um sobre o Paulo Machado de Carvalho, comandante da Seleção em 58 e 62. O Juca falou bem. Depois citou o livro que escrevi sobre o jornalista Tarso de Castro. E achava natural que ele como jornalista esportivo e, como amigo do Sócrates, fizesse alguma menção do livro.

Não precisava ser elogio. Mas que falasse do livro. Achei estranho o silêncio dele. Achei uma atitude pequena, mesquinha. Todos dizem que ele deveria ser o cara que teria de ter escrito a biografia do Sócrates. Mas não escreveu. E eu acho que no Brasil, as pessoas se sentem donas do personagem. Tanto que o meu livro tem lacunas em relação à família. Acredito que outra pessoa pode escrever esse lado mais pessoal. Como o próprio Juca pode escrever, tendo sido tão próximo.

Acho pequeno um jornalista tão importante quanto ele ficar enciumado porque um jornalista escreveu sobre o Sócrates. E fazer uma retaliação não escrevendo uma linha sobre o livro. E também pedi para o Vladir Lemos, do Cartão Verde, programa que o Sócrates participava, que citasse a biografia. Mas nada. Depois fui saber que o Vladir também queria escrever um livro sobre o Sócrates.

Você acha que o silêncio foi por respeito ao Juca?

A crônica esportiva que cobra um corporativismo dos técnicos também é corporativista. Achei curiosa essa ciumeira. O livro foi mais falado fora da área esportiva. Senti uma coisa ruim. Uma panela que eu desconhecia. O Trajano também elogiou o meu livro do Tarso de Castro se calou sobre o do Sócrates. Achei que foi uma ciumeira, uma bobagem. Até hoje não entendi porque o Juca não escreveu.

O Sócrates foi o primeiro a enxergar o quanto Ricardo Teixeira se aproveitava do futebol?

Sim. Ele foi quase um trovador solitário. Foi o primeiro a bater no Ricardo Teixeira. Mostrar como a CBF se aproveita do futebol neste país. Foi candidato simbólico à presidência da CBF. Falou da corrupção sem medo. Falou do Pelé. Os dois haviam brigado pela transmissão do Campeonato Brasileiro. Depois fizeram um acordo. E o Sócrates falou absurdos do Pelé. Disse que não era um cara de coragem. Bateu duro. Não tinha medo de ninguém.

O livro vai virar filme?

Sim. É um projeto que o Raí está envolvido. Esta ainda no começo. Mas um personagem como o Sócrates. Merece livro, documentário, filme. Foi um dos maiores jogadores deste país. E isso apesar de ter bebido e fumado a vida toda. Acredito que se fosse um atleta, teria potencial para ter uma carreira igual a do Zidane. Com o mesmo reconhecimento do mundo. Só que talvez tirando a bebida e o cigarro do Sócrates ele seria outra pessoa. Talvez não encarasse a vida, a genial maneira que descobriu para jogar, mesmo tendo as limitações físicas que o álcool e a bebida ofereciam. Sócrates fez o que pouquíssimos homens têm coragem de fazer: foi fiel a si mesmo. Sem concessões a ninguém...

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