132 Soco, palavrões, mentiras, conquista da Libertadores, rebaixamento, pentacampeonato. Vinte anos de absurda convivência com Luiz Felipe Scolari. Por sorte, sem levar nenhum murro na cara...
Não, não era o baixinho da Kaiser.

Mas eu conhecia aquele bigode, aquele olhar. Ele olhou para mim, foi ficando vermelho, sem graça. Constrangido, perguntou. "Tudo bem?" Não quis nem ouvir a resposta. Entrou na sala mais próxima e se trancou. Mas pude ouvir sua bufadas. Sim, ele também bufa, quando fica nervoso.

Era sexta-feira, dia 31 de maio de 1997. 14 horas. O treino no Palmeiras só começaria às 16 horas. Mas eu precisava confirmar uns dados com o Odilon, apelido de Milton del Carmo. Ele era o responsável pelos contratos dos jogadores, pela logística do time. E um grande amigo de repórteres desesperados. Quando ele tinha uma notícia, já concretizada, discretamente, ele confirmava ou não. Trabalhador incansável.

O acesso a ele era possível na hora do almoço, antes dos jogadores se apresentarem. E os seguranças estavam desatentos. Não se preocupavam com funcionários. Conseguiu muitas informações e telefones importantes com ele. Sua paixão pelo JT deixava a porta escancarada.

Naquela sexta-feira, fui conversar com Odilon.

Estava intrigado. Falei segunda e terça-feira rapidamente com Luiz Felipe Scolari no telefone. Ele estava no Japão. Me garantiu várias vezes que não viria trabalhar no Palmeiras. "Eu tenho contrato. Não posso sair daqui antes de dezembro. Já até recebi antecipado. Não dá para ir. Pode escrever, eu garanto." Só que, desde quarta-feira, não consegui mais falar com ele. Sem a força atual da Internet, o Japão ficava... no Japão. Não à distância do teclado do computador.

Todas as pessoas que me passavam informações garantiam que a Parmalat queria e não abriria mão de Felipão, o truculento técnico do Grêmio. A multinacional que despejava dinheiro e jogadores no Palmeiras queria títulos. E atropelaria os dirigentes puristas que exigiam um treinador apaixonado pela beleza, que respeitasse as Academias de Futebol. Futebol com arte. E não com força, bolas aéreas, truculência, jogo feio, como era característica do tricolor gaúcho nas mãos de Felipão.

Só que a marca queria conquistas. Todos me diziam que seria Scolari. Só ele me negava. Até que chegou aquela sexta-feira. E voltei para a redação voando, no meu Chevette preto, movido a lenha, como dizia um dos meus chefes. Chamei meu editor. "Tenho a manchete. Podemos escancarar. Felipão é o novo técnico do Palmeiras." Eu não tinha visto o baixinho da Kaiser. Mas vi Flávio Teixeira, o conhecido Murtosa. O assistente de Scolari estava conversando com Odilon.

O JT bancou Felipão no Palmeiras.

Deu o furo.

Graças a Murtosa.

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Irritado com as mentiras que ouvi de Felipão, fiz um texto mostrando sua incoerência. Deixava claro que ele havia mentido. Sem medo, como aprendi na redação. Chegou a segunda-feira, dia da apresentação de Scolari.

"Quem é Cosme Rímoli, quem é Cosme Rímoli?", ouvi depois de entrevista formal. Me apresentei. "Olha aqui, você disse que eu menti para você. Mas eu tinha contrato com o Jubilo. Só me liberaram na última hora. Não poderia adivinhar que eles iriam ceder", falava alto e me mostrava algo que parecia documentos.

Perfeito.

Só que eu sabia que Felipão estava acertado com o Palmeiras há mais de dez dias, antes de eu falar com ele, portanto. Seu texto de apresentação no JT também não foi simpático. Deixei claro, outra vez, que ele havia mentido. E mais, escancarei sua postura cínica. Porque me mostrou o que seria 'seu contrato'. Só que, em japonês.

Felipão poderia ter me mostrado a melhor receita para fazer sushi de anchova ou a letra de 'Não Se Reprima', dos Menudos, em japonês, que a minha reação seria a mesma. Não havia tradução sequer em inglês. Não me deixei intimidar por sua maneira de falar alto, que sempre gostou de usar com repórteres que o contrariam.

Ele aprendeu essa técnica sutil de abordagem quando era zagueiro. E passava o unguento Vic Vaporub nas 'partes baixas' quando atuou como um tosco zagueiro do Caxias, do Juventude, do Novo Hamburgo e do CSA. Ele mesmo contou. Era para ficar 'mais esperto'. O unguento usado nos testículos durante uma atividade física, como jogar futebol, provoca um ardor, irritação constante. Era assim que desejava marcar o centroavante adversário, com raiva, irritado. Não drama na consciência, ao dar um pontapé.

Felipão já havia chegado ao Palmeiras com dez pés atrás com a imprensa paulista. Acreditava que era odiado porque o Grêmio se impôs no cenário nacional. Batendo em partidas importantíssimas, o próprio time da Parmalat. Para o treinador, sempre foi mais fácil generalizar. Era paulista, era palmeirense, era anti-gaúcho. Uma bobagem.

Foi intenso cobrir Felipão na sua primeira passagem pelo Palmeiras. Nosso relacionamento seguia péssimo. Até que consegui piorá-lo. Ouvi sua comemoração com o dirigente Paulo Angioni. Ele havia descoberto quem era a pessoa que passava as informações para o comentarista Dalmo Pessoa, que trabalhava na Bandeirantes, na TV Gazeta. "Matei a raposa felpuda. É o Januário D'Alessio." Januário era muito influente no clube e amigo de Dalmo.

Publiquei sem dó.

Felipão ficou maluco. Gritou com Angioni, queria discutir. Respondi perguntando se não era verdade. Ele falou que era, mas não era para publicar. Respondi que pedisse off. O clima seguiu insuportável entre nós.

Até que Angioni tomou uma decisão. Nos levou para uma sala e nos fechou. O constrangimento durou dez segundos. Logo começamos a falar alto um com o outro, discutir. Fui rebatendo seus ataques com mais ataques. Falei bem claro que não seria manipulado. E não é porque cobria o Palmeiras, defenderia o clube. Felipão falou sobre relação de confiança. Combinamos que ele poderia falar o que quisesse. Se pedisse off, não escreveria.

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Felipão nunca foi sutil. No dia seguinte, fiquei até o final do treino, explorando ao máximo o tempo a mais que tinha de fechamento, por trabalhar no Jornal da Tarde. Ele me chamou. Um repórter do Lance! me acompanhou, sem ser chamado. Scolari nos olhou e fez cara que iria revelar o segredo de sua vida. Mostrou rapidamente sua bolsa e dentro dela, o que parecia ser um cabo de madeira.

"Estou andando armado. Essa torcida do Palmeiras é louca. Preciso me proteger. Mas isso é em off."

Fui para a redação. Fiz uma matéria sobre o time. No dia seguinte, vejo a capa do Lance! "Com medo da torcida, Felipão anda armado!" Sorri. Sabia que a minha tarde seria interessante. Mal acabou o treino, Felipão manda nos chamar. Eu e o repórter que havia publicado a matéria. Na sua sala, abre a bolsa. E puxa o tal cabo de madeira. Era um pequeno guarda-chuva." Ele me olha e diz. "Já vi que você não é filho da puta. Está tudo bem entre nós." Nunca mais aceitou dar exclusivas ao repórter do Lance! Eu pude fazer algumas.

Ficamos mais próximos, mas a relação seguiu difícil. Felipão se sentia traído quando era criticado. Acreditava que os jornalistas que iam ao Palmeiras tinham de defender o clube. E seu time era instável.

Até que chegou a sexta-feira, dia 17 de novembro de 1998. Treino em Barueri. Os jornalistas ficavam muito próximos do time. Não havia sala de imprensa, nada. Lembro de João Carlos Assumpção, então repórter da Folha, lendo a biografia de Mia Farrow, "What Falls Away, a Memoir". Ele lia, em inglês, sentado na grama, enquanto o time fazia aquecimento. Eu não me conformava com sua postura zen.

Já Gilvan Ribeiro, sempre agitado, trabalhava no Diário de São Paulo. Felipão estava irritadíssimo naquela sexta-feira. Eu já esperava por um clima ruim, quando ele fosse falar com os repórteres de jornal. Ele já havia sido grosso com os da tevê e rádio. Seu humor foi piorando. Quando me preparava para fazer a primeira pergunta, Gilvan atropelou. Talvez tenha sido minha sorte.

"Felipão, por que você não deixou a torcida acompanhar o treino? "Eu não tenho nada ver com isso, foi a diretoria", respondeu. Gilvan insistiu. "Falei com os dirigentes, eles dizem que foi você." "Não, estou falando que não." Os dois foram subindo o tom de voz. Jogadores se aproximaram. Gilvan. "Eu sei que foi você. Você está mentindo."

Scolari sempre fez questão de mostrar sua autoridade diante do time que treina. "Olha, já falei que não fui eu. Vá se foder", sentenciou o técnico. Torci para Gilvan abaixar a cabeça e deixar passar. Só que ele encarou Felipão. E disse alto. "Vá se foder você."

Até os pássaros pararam de voar.

Todos prenderam a respiração.

E agora?

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Scolari fechou a mão direita e soltou o cruzado. Cruzados são sua especialidade. O soco explodiu no rosto do repórter. Velloso voou e segurou Felipão. Nós, repórteres, puxamos Gilvan. Indignado, o repórter foi à delegacia, fazer um boletim de ocorrência. O então diretor Sebastião Lapolla pediu desculpas a todos, a Gilvan, ao Diário de São Paulo. E conseguiu domar o caos.

Só que ele viria em outra situação. O Palmeiras em 2000 havia perdido na Libertadores para o Corinthians a primeira partida da semifinal, por 4 a 3. E Scolari queria vingança. Principalmente de Edilson. E fez uma preleção no CT da Barra Funda.

"Quem é que no começo do jogo vai dar uma catarrada na cara do Edílson? Eu tenho um grupo de jogadores rodados, experientes, que na hora do bem-bom não sabem dar um pontapé, dar um cascudo! Ir lá irritar o cara"... "Enfiar o dedo nele." "Tem de ser esperto com o Edílson"... "Tem que ter malandragem com ele, porque é um cara malandro mas é cuzão, covarde, cafajeste". "Tem que ter raiva dessa porra de Corinthians."

Suas declarações foram gravadas. A repórter Luciana di Michelli gravou a bronca do técnico. Colocou o microfone na janela do vestiário. Todas as palavras foram captadas. E editou os trechos da 'catarrada' e de 'enfiar o dedo'. No dia seguinte, Felipão ficou irritadíssimo mas não quis cobrá-la. Ele tem um cuidado especial com mulheres. O Palmeiras venceu a segunda partida por 2 a 1. E ganhou a disputa para chegar à final nos pênaltis. Edilson? Não jogou nada.

O último contato diferente com Felipão foi na Coreia do Sul, em 2002. Mal chegamos, cansados do voo, desmaiamos. Na manhã seguinte, fui um dos primeiros jornalistas a acordar. Estava no mesmo hotel da Seleção. Foi quando escuto. "Cosmeeeeee...", com o sotaque gaúcho inconfundível. Pensei, será que estou delirando, ainda sonhando? Não era verdade. Felipão estava bufando à minha frente.

"Cadê o filha da puta do Barsetti?" Silvio Barsetti é um excelente repórter carioca e que trabalhava no Estadão. "Cadê ele? Escreveu umas loucuras no jornal. Quero falar com aquele escroto." Felipão estava transtornado. O motivo: uma matéria que Barsetti escreveu afirmando que as jogadores da Seleção iriam revezar algumas revistas com mulheres peladas. Seria o 'kit sexo'.

"Calma, Felipão. Calma, não vai estragar a Copa por uma bobagem", tentei acalmar o treinador. Realmente, eu deveria estar delirando. Scolari saiu bufando, com muita raiva.

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Silvio comprou a 'informação' de um dos amigos de Ricardo Teixeira que estava no voo. O tal 'kit sexo' era, na verdade, revistas Vip, Trip e existia uma 'perigosa' Playboy. Os jogadores não iriam precisar 'recorrer' às revistas. Felipão e todo o time sabiam disso. As folgas após as partidas da Copa de 2002 estavam liberadas. Os atletas poderiam farrear até as cinco da manhã do dia seguinte. E como farrearam. Como fizeram na Alemanha, em 2006. Mas a vitória, o penta, escondeu essa história para debaixo do tapete.

Felipão não bateu em Barsetti. Só o tratou mal durante todo o Mundial.

A conquista da Copa, a assessoria de Acaz Felleger, ter se tornado o técnico brasileiro mais rico, transformaram Felipão. Ele virou um personagem inacessível, perdeu a autenticidade. O rancor domina sua alma depois do fracasso na Copa de 2014. De ter encaminhado o segundo rebaixamento do Palmeiras, quando optou por dar a alma para vencer a Copa do Brasil.

Não perdoou a traição de Marin, que jurou que ele seguiria comandando o Brasil, mesmo depois do fracasso no Mundial. E nem a TV Globo, a quem permitiu acesso e exclusividade durante toda a Copa. Mas depois exigiu sua demissão de forma veemente, que magoou profundamente sua família.

O 7 a 1 foi o fundo do poço.

Acompanhei toda a caminhada em 2014. E vi o quanto estava perdido. Iludido. Ultrapassado. Foi traído pela Copa das Confederações. Pela puxação de saco dos dirigentes. Pelo estrabismo do seu assessor. Pela assessoria da CBF tentando agradar a Globo. Já não nos falávamos. Ele não perdoava minhas críticas diárias pela farra na Granja Comary.

Não fique satisfeito por ter acertado.

Por ter ido contra a corrente.

Apenas lamentei Felipão não ter se rebelado.

Não ter dado um soco em Luciano Huck quando ele invadiu o aquecimento da Seleção. Ou pegado pelo pescoço Mumuzinho, que agarrou Neymar quando ele iria cobrar um escanteio em um coletivo durante a Copa do Mundo.

Fiquei profundamente triste no que transformaram Felipão.

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Scolari pensou que daria a volta por cima no Grêmio.

Novo fracasso e demissão.

Jurou que nunca mais voltará ao futebol brasileiro.

Está na China enriquecendo ainda mais.

Fará 69 anos em novembro.

Foi muito intensa a relação que tivemos.

A sensação: um passeio de montanha russa de 20 anos.

Inesquecível, na sua primeira passagem pelo Palmeiras.

Quando mudou o estilo, a tradição de um clube marcado pela técnica.

É um vencedor, sem dúvida.

Incoerente, fiel aos amigos, religioso, inteligente.

Explosivo, desconfiado e que adora tentar enganar repórter.

Aprendi, foi sofrido, divertido.

Convivi por anos com um dos treinadores mais importantes deste país.

E, importante, escapei sem um soco na cara...
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