138 Se eu perdi sozinho a Copa de 2014, ganhei sozinho a de 2002. Quem é o último campeão do mundo com o Brasil? Sou eu. Felipão tentando explicar a maior derrota da história do futebol deste país. O vergonhoso 7 a 1 para a Alemanha na Copa do Mundo do Brasil...
O ex-coordenador e editor de Esportes do jornal Estado de São Paulo, Luiz Antônio Prósperi, teve a ideia. E se cercou de jornalistas do mais alto nível. Criaram um blog coletivo que se chama Chuteira F.C. Conta com publicações do mais alto nível. Opinião, informação, análise, contestação. Leitura instigante.

Blogs coletivos estão presentes na imprensa norte-americana e na europeia.

Prósperi edita com Luiz Augusto Monaco e Matheus Silva Alves. Conta um time de colunistas muito forte. José Eduardo de Carvalho, Charles Martí, Eduardo Castro, Chico Bicudo, Chico Maia, Luiz Ruffato, Eduardo Baptistão.

Para entrar no mercado, o Chuteira F.C. começa com uma exclusiva com Felipão.

Pela primeira vez, ele fala abertamente sobre os 7 a 1.

E mostra que o rancor por ser considerado culpado não passa.

Tanto que seguirá exilado na China.

A leitura é obrigatória.

Esse blog coletivo traz muitos neurônios que faltavam ao jornalismo esportivo.

Aqui, a entrevista de Prósperi.

E as respostas de Scolari...

Felipão, você se sente o único culpado pela derrota de 7 a 1 para a Alemanha?

É a primeira vez que falo daquela derrota à imprensa do Brasil. O mínimo que eu posso dizer aos que querem me culpar é que, se sou o culpado pela derrota de 2014, então sou o único responsável pela vitória de 2002. Eu pergunto: quem é o último campeão do mundo com o Brasil? Sou eu. Então, se perdi sozinho a Copa de 2014, ganhei sozinho a Copa de 2002.

O que de fato aconteceu naquele jogo contra os alemães?

O resultado absurdo contra a Alemanha não refletia nossa situação. Vínhamos jogando muito bem e, às vezes, de forma razoável. Objetivo era passar de etapa a etapa. Estávamos cumprindo bem o objetivo. Naquele jogo houve uma falha coletiva geral. Posso garantir que só vai acontecer outro resultado igual daqui a uns 2 mil anos.

Apenas falha coletiva? Não houve um erro de avaliação da comissão técnica a respeito da Alemanha e também de planejamento para a Copa?

Naquele jogo deu tudo certo para a equipe deles, foram muito felizes. Não tivemos tempo para uma reação. Tomar dois, três gols, em menos de 10 minutos, não é fácil. Fica difícil no vestiário você recuperar o estado anímico dos jogadores, do ambiente, quando se está perdendo de cinco. Mesmo assim criamos algumas situações de gol (no começo do segundo tempo) que poderiam dar outro efeito ao jogo.

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Quando o Neymar se machucou contra a Colômbia nas quartas de final, toda aquela comoção na Seleção entre os jogadores com ele de cadeira de rodas na Granja Comary não prejudicou o time? Não abalou o grupo? Não teria sido melhor tirar Neymar daquele ambiente, tirar a pressão dos jogadores, pensar só na Alemanha?

Eu, pessoalmente, me fortaleceria com aquela situação do Neymar. Teria mais força para jogar. Seria um algo a mais. E dedicar a ele a vitória. Um deveria jogar pelo outro, é assim que eu penso. É claro que o Neymar fez falta. Faz falta até hoje quando não está na Seleção. Thiago Silva, por suspensão, também fez muita falta. Perder Neymar e Thiago num jogo de semifinal de Copa não é fácil. Mas tínhamos gente (na Seleção) de muita qualidade para suprir os dois.

A pressão de jogar a Copa no Brasil, a concentração aberta na Granja Comary, em Teresópolis, sem privacidade, as escolhas da comissão técnica na convocação dos jogadores para a Copa. A errática gestão da CBF. A choradeira dos jogadores no Hino Nacional… Tudo isso atrapalhou? Você se arrepende de alguma coisa? Faria diferente?

Até aquele jogo da semifinal não havia uma grande diferença entre Brasil e Alemanha. De nada adianta falar que a Granja (Comary) aberta prejudicou, que a confederação (CBF) atrapalhou, que isso ou aquilo do nosso comprometimento com País, a pressão da Copa ser aqui, que nossa atitude poderia ter sido diferente. Se jogássemos fechados… O resultado do nosso trabalho não vinha sendo ruim. Estava bem feito. Naquele jogo deu errado. Os alemães foram felizes e nós, não. Às vezes procuram muitas explicações no futebol onde não se tem.

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Mas o 7 a 1 acabou na sua conta. Virou o novo Barbosa, goleiro condenado pela derrota da Copa de 50, do futebol brasileiro. Não se sente assim?

Não acho justo que falem que sou culpado de tudo. Repito, se sou o culpado por 2014, então sou único responsável pela conquista de 2002. Não estou pedindo que me julguem. Se quiserem entender assim, não tenho o que falar. Depois da Copa, voltei a trabalhar normalmente. Superei. Já se passaram dois anos e nesse período conquistei cinco títulos depois do Mundial. Agora, se A, B ou C querem me culpar pela derrota, paciência.

Depois da derrota na Copa muito se falou em uma reflexão profunda no futebol brasileiro, uma revolução, uma volta às nossas origens. Mas até hoje, fim de 2016, nada foi feito em nenhum setor do futebol. O que pensa a respeito?

Entendo que nossos treinadores deveriam reagir depois da Copa, se valorizar mais, dar uma resposta aos que acham que tudo de bom que acontece está na Europa. Parece que depois da Copa de 2014, nenhum técnico do Brasil tem mais valor, não presta. Não é assim. Na Europa, na China, em todo lugar do mundo, não tem nada de diferente que nossos treinadores não tenham feito no Brasil. Treinamentos, preparação, estratégias de jogo, tudo é muito igual. O que tem é que um técnico na Alemanha deve se adequar ao futebol que se joga na Alemanha, cada país com suas características. Só isso. O resto é tudo igual.

Nossos treinadores não têm de se aprimorar…

Eu te pergunto: quem é o campeão brasileiro de 2016? O Cuca com o Palmeiras. Onde ele estava antes? Na China. Quem é o campeão da Copa do Brasil? Renato Gaúcho com o Grêmio. Onde ele estava antes? Na praia. Nenhum deles foi à Europa estudar. Cuca e Renato, cada um a seu jeito, se aperfeiçoaram. Muita gente imagina que é fácil ser técnico no Brasil. Não é nada fácil. Tu olha os estrangeiros que chegam aqui. Não duram muito tempo.

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Acredita mesmo que a desvalorização do treinador brasileiro depois da Copa de 2014 é um equívoco?

Nossos técnicos têm de reagir aos que dizem que eles não sabem nada, estão ultrapassados. A Associação Brasileira de Treinadores tem de se manifestar, se impor. Nossos treinadores são muito bons. A CBF tem feito cursos de boa qualidade, de aprimoramento dos treinadores. É preciso valorizar os jovens que começam a surgir, eles são muito bons. E ter um pouco mais de respeito com os mais velhos. Vi um entrevista recente do Joel Santana (assumiu o Boavista do Rio) a respeito do Jair Ventura (técnico revelação do Brasileirão eleito pela CBF). Joel pegou o Jair e deu a ele a missão de fazer alguns ajustes nos treinamentos do Botafogo. Depois, com o Ricardo (Gomes), o Jair aprendeu mais um pouco. E hoje está aí como uma revelação e com grande trabalho no Botafogo. Não foi na Europa aprender. Temos bons valores, excelentes treinadores, que não podem se sentir menores que os de outros países.

Discussão à parte do nível dos nossos treinadores, antes e depois do 7 a 1, não entende que deveríamos fazer uma reflexão profunda na gestão do futebol brasileiro?

Digo que não apenas no futebol, mas no País. Estou de férias no Brasil há menos de dez dias e o que ouvi nesse pouco tempo tem me deixado de cabelo em pé. Estou estupefato com as coisas que andam acontecendo aqui. Quando estou lá fora, procuro defender o Brasil de uma ou outra situação quando falam do País, mas, do jeito que está, é impossível defender. Temos de fazer uma reflexão muito séria, profunda do que queremos, modificar tudo. Não pode continuar dessa forma. Isso reflete também no futebol. Temos de nos reinventar em muitas situações. Pelo amor de Deus!

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Depois de tudo o que aconteceu na Copa de 2014, você enfrentou um período difícil. Foram 15 dias de muita decepção. Pensou em abandonar a carreira, deixar o futebol?

Não pensei em parar. Queria apenas selecionar melhor minhas escolhas profissionais. Surgiu a proposta do Grêmio e eu não sabia se era o melhor momento de voltar. Quando o doutor Koff (Fabio, presidente do clube) me ligou, eu disse não. Mas aí ele veio a São Paulo (Felipão morava no bairro Pompéia) e não tive como recusar. Não me arrependo. Demos início a uma reestruturação no clube, abertura aos jovens valores (lançou jovens jogadores como Luan, Wallace, Everton, entre outros). Tudo esteve bem enquanto o doutor Koff esteve lá.

Pelo jeito, não pensa em voltar a trabalhar no Brasil. Está há um ano e meio na China e há pouco renovou contrato com Guangzhou Evergrande?

É isso. Renovei contrato com Guangzhou por mais um ano e com opção de ficar mais um ano no clube. Quero te explicar uma coisa: quando renovo o contrato, já deixo tudo estipulado para o próximo ano, os valores, os aumentos aos integrantes da comissão técnica… e não negociar depois novos valores, multas… Se me quiserem depois de vencer esse atual contrato, a renovação é automática.

Está satisfeito com seu trabalho no futebol chinês ou é apenas uma questão financeira?

Muitas pessoas e parte da imprensa entendem que vamos à China apenas por questões de valores de contrato. Não é assim. O ambiente de trabalho que encontramos no nosso clube é excelente, fantástico. Tenho certeza que o futebol chinês vai se desenvolver muito mais. Não é uma questão só de dinheiro.
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