1getty5 São Paulo renasce na Libertadores. Com coração, raiva. E chuveirinhos. Mais difícil que vencer o San Lorenzo, só a própria diretoria trabalhando contra. Ingressos caríssimos, atrasos de salários e Morumbi esburacado...
O recado dado por Álvaro Pereira ao seus ex-companheiros prevaleceu. Foi a vergonha na cara e não o bom futebol que fez o São Paulo vencer o San Lorenzo. Os 'colhões'. O gol de Michel Bastos aos 44 minutos do segundo tempo não foi tramado, articulado. Ou nasceu de uma jogada espetacular. Pelo contrário, o time apelou para a velha estratégia de Muricy Ramalho, os nada imaginativos chuveirinhos na área. Como fez inúmeras vezes ontem. Só que, no finalzinho da partida, quando a torcida já vaiava e xingava, deu certo. Veio a obrigatória vitória por 1 a 0.

Muricy foi o principal responsável pelo resultado que deixa o time vivo no grupo da Morte. Soma agora seis pontos. É o segundo colocado, três pontos atrás do líder Corinthians. De maneira feia, mas efetiva, fez sua parte. Diante do muito bem organizado atual campeão da Libertadores, o São Paulo teve personalidade, vontade, raiva. Entrou para mostrar que estava em casa e não iria se submeter. Mesmo de maneira ortodoxa, sem grandes novidades estratégicas. Não foi na tática que São Paulo venceu, foi graças a um órgão que parecia ter perdido: o coração.

O time brasileiro se impôs desde os primeiros segundos, literalmente. Ao 25 segundos, Michel Bastos cabeceou na trave de Torrico. O ótimo cruzamento de Alexandre Pato custou a saída do atacante. Ele pisou em um buraco, no gramado que havia criticado desde o ano passado. A reforma feita às pressas não deu resultado. E, depois de torcer o tornozelo pelo buraco, teve de ser substituído aos 16 minutos. Entrou Centurión, ainda intimidado, mas dentro do espírito de luta, de competição.

Técnicos, jogadores, dirigentes e jornalistas costumam subestimar a inteligência, a consciência do torcedor. Afinal é a emoção e não a razão que costuma dominar seu raciocínio. Mas não há como negar que as vaias e palavrões direcionados a dois jogadores do próprio São Paulo tinham razão de ser: Carlinhos e Paulo Henrique Ganso.

1reproducao18 São Paulo renasce na Libertadores. Com coração, raiva. E chuveirinhos. Mais difícil que vencer o San Lorenzo, só a própria diretoria trabalhando contra. Ingressos caríssimos, atrasos de salários e Morumbi esburacado...

O lateral esquerdo se mostrou frio e inseguro. Complicando jogadas simples. Ofensivamente não tinha paciência, visão para tentar tabelas, infiltrações. Insistia nos chuveirinhos, quase que para se livrar da bola. Não vibrava, parecia que estava contaminado pelos insignificantes jogos do Campeonato Paulista. E não disputando a sobrevivência na Libertadores. No final, teve a chance da redenção, com o cruzamento que foi parar na cabeça de Michel Bastos, no salvador gol.

Mas Paulo Henrique Ganso não teve essa chance. O meia passou a partida toda submisso à marcação. Foi presa fácil do exagerado sistema defensivo de Edgardo Bauza, que respeitou demais os brasileiros. Com o meio de campo congestionado com cinco argentinos, o camisa 10 do São Paulo destoava dos companheiros. Lutar, disputar bolas com raiva, insistir, tentar o drible em direção ao gol, não faz parte do seu repertório.

Ganso foi se intimidando com a tensão da partida. Recuando para receber bola na intermediária do São Paulo, distante 60 metros do gol adversário, sem levar o mínimo perigo. Quando avançava, insistia em tentar lançamentos, passes onde haviam dez pernas fechando os espaços. Previsível, inseguro, improdutivo. Quando as vaias dos torcedores começaram a chegar aos seus ouvidos, passou a descontar reclamando do árbitro Wilmar Roldan.

Como castigo maior, Ganso foi substituído por Boschilia, aos 42 minutos do segundo tempo. Toda a frustração da torcida, que amargava até então o 0 a 0, veio à tona. Palavrões e vaias ao talentoso jogador que deveria ser a esperança e não outra vez a apatia.

"Não procuro escutar o torcedor, mas sim fazer o meu trabalho. Fiz o meu papel, dei o meu melhor e corri bastante", tentava se enganar após o jogo.

Mas o que deve ser destacado nesta vitória foi a superação, a raça do São Paulo. O time com um esquema simples, primário, conseguiu encurralar o San Lorenzo em seu campo. Teve um gol legítimo anulado de Centurión. Mas foi a velha jogada predileta de Muricy que deu resultado.

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Foi sua paixão pela bola área que deu três Brasileiros ao São Paulo, com ele no comando. O treinador fechou o treinamento de terça-feira para a imprensa. Nem tanto para confirmar Pato e Luís Fabiano na frente. Mas para treinar como um obcecado chuveirinhos, cruzamentos. Foi assim que Michel Bastos fez o gol desejado, suado o da imprescindível vitória. Porém ele mesmo havia acertado a trave, assim como Luís Fabiano. Em cabeçadas.

No 4-4-2, com os volantes Denílson e Souza adiantados, marcando forte a saída de bola argentina, empurrando o próprio meio de campo são paulino para o combate, Muricy dominou o jogo. Ofereceu espaço para contragolpes. Mas o San Lorenzo entrou preocupado demais em segurar o 0 a 0. Faltou ambição.

O resultado foi excelente para reanimar um time que começava a perder a confiança. Apesar da vitória por 4 a 0 contra o Danubio, a derrota por 2 a 0 contra o Corinthians era uma sombra grande, enorme. O São Paulo precisava se impor contra um adversário de respeito para se sentir revigorado, pronto para disputar a competição que mais cobiça.

 São Paulo renasce na Libertadores. Com coração, raiva. E chuveirinhos. Mais difícil que vencer o San Lorenzo, só a própria diretoria trabalhando contra. Ingressos caríssimos, atrasos de salários e Morumbi esburacado...

Se o time conseguiu cumprir sua obrigação, a diretoria do São Paulo continua sabotando a equipe. Na insana chantagem para formar legiões de sócios-torcedores, os preços dos ingressos para torcedores comuns continuam absurdos. R$ 120,00 era o mínimo. Mas havia ingressos de R$ 180,00, R$ 240,00 e R$ 300,00!

Resultado, pouco mais de 26 mil torcedores. Péssimo para a diretoria que sonhava com, no mínimo, 40 mil. Esta política de encurralar os próprios são paulinos, feita por Carlos Miguel Aidar, é um enorme tiro no pés. Consegue acabar com a tradição, com a paixão do torcedor que sempre lotava o Morumbi quando o clube disputava a Libertadores. É primária a necessidade de abaixar o preço dos ingressos, como imploram os conselheiros e mesmo membros da diretoria. Mas Carlos Miguel é vaidoso, não aceita.

Outra necessidade urgente é o presidente deixar o orgulho de lado. E entender que as queixas de Pato sobre o gramado do Morumbi são verdadeiras e merecem toda a atenção. Não só por ele ter atuado nos pisos perfeitos da Europa. Mas por ser inconcebível haver buracos, capazes de provocar torções em tornozelos avaliados em R$ 30 milhões e que custam R$ 400 mil mensais por atuar emprestados no São Paulo.

Não custa lembrar que a partida que valerá a vida para o clube na Libertadores será no Morumbi, dia 22 de abril, neste mesmo gramado.

Fora os salários que os próprios jogadores confirmam não ter sido pagos até agora. Desmentindo Aidar, que jurou estar tudo resolvido. Situação absurda.

Ou seja, o time de Muricy conseguiu fazer sua parte. No sufoco, no peito, na raça, venceu o jogo obrigatório. Está vivo na Libertadores. Recuperou a confiança. Mas a diretoria continua perdida, atrapalhando, e muito, a caminhada do São Paulo na competição mais desejada de 2015...
1getty6 São Paulo renasce na Libertadores. Com coração, raiva. E chuveirinhos. Mais difícil que vencer o San Lorenzo, só a própria diretoria trabalhando contra. Ingressos caríssimos, atrasos de salários e Morumbi esburacado...

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