1 Ronaldo, Susana Werner, Bial, esquema para a França ser campeã? Bastidores da Copa de 98...
11 de julho de 1998.

Último treino da Seleção Brasileira.

Inúmeros jornalistas tinham nas mãos uma camisa do Brasil, dada pela patrocinadora. E mal prestavam atenção às últimas cobranças de faltas, pênaltis e escanteios, ensaiadas por Zagallo.

Não. Não havia ansiedade por entrevistas, pelas últimas palavras dos jogadores antes da grande final contra a França. O que eles queriam eram o autógrafo dos jogadores naquelas camisas. "Imagina o quanto essa camisa não vai valer no futuro? Consegui todas as assinaturas de um time campeão do mundo", comemorava um radialista, perto de mim.

Ganhei a camisa, mas ela estava guardada para a minha namorada, na mala. Aprendi no JT que não há lugar para intimidade com jogador, treinador ou dirigente. Fiquei muito constrangido com a cena. Porque muitos não eram movidos a patriotismo. Mas à ganância, pensavam em lucrar com a camiseta.

Os jogadores acossados por jornalistas, autografavam.

Havia uma estranha certeza de título.

Estranha porque o Brasil de Zagallo não havia trilhado um caminho confiável até a decisão. Havia dois grandes problemas. O primeiro veio antes mesmo de a Copa começar. O corte de Romário.

Para mim, foi uma lição inesquecível. Nosso editor havia sido convencido por uma repórter iniciante que falava francês a mandá-la para a Copa. Como produtora. Ele chegou antes para tentar 'agilizar' nossa cobertura. Tratar de deslocamentos, reservas em hotéis. Essa parte burocrática.

O jornal cometeu um erro. Nos mandou um dia depois da chegada da Seleção à França. Arrasados pelo cansado do vôo na classe econômica, fomos dormir. E começaríamos a trabalhar à tarde, quando haveria o treino. A produtora acompanharia a manhã, que deveria ser morta. Estava avisada que, se acontecesse alguma coisa, ela avisaria.

Quando acordo, às 11 horas, vejo meu chefe apavorado. O meu eterno parceiro de coberturas, Luiz Antonio Prósperi, havia saído desesperado, no único carro que havia à disposição.

Romário estava sendo cortado da Seleção.

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E a produtora não nos avisou.

Decidiu fazer ela mesma o que seria uma das maiores matérias da Copa. Fiquei tão irritado que quase fui correndo, a pé à concentração que ficava a pelo menos 15 quilômetros de onde estávamos.

Os gritos do meu editor cobrando a traição dessa produtora não saem da minha memória. Ela que se mostrava tão amiga, tão dócil, tão parceira. Ela se defendeu da maneira que muitas mulheres escolhem quando estão erradas. Chorou. Pediu perdão. Finalmente entendeu que nenhuma letra que escrevesse seria publicada sem a liberação do editor.

Nos traiu à toa.

Naquela época, a Internet não estava adiantada como hoje. Porque se estivesse, o nosso editor talvez tivesse o desprazer de ler a matéria do corte de Romário já publicada. Pelas mãos da produtora que, além de tudo, escrevia muito mal. Prósperi chegou a tempo e, mesmo atrasado, conseguiu escrever uma página emocionante. Quando o jornal chegou, mais lágrimas da produtora.

O clima ficou insuportável e ela foi deslocada para Paris.

Nós preferimos nos virar sozinhos.

Acabou a confiança.

Aprendi que, durante qualquer cobertura importante, principalmente Copa do Mundo, o sono não pode ser profundo.

Como o Brasil havia vencido a Copa de 1994, os veículos de comunicação resolveram triplicar o número de jornalistas no Mundial da França. Muitos editores de jornal, que detestavam futebol, se enfiaram na cobertura. Queriam desfrutar de Paris. Assistir as finais de Roland Garros. Ficaram nos melhores hotéis, viajavam de primeira classe, tinham as maiores diárias, se divertiam. E escreviam seus artigos sem acompanhar um treino.

Enquanto isso, a 27 quilômetros de Paris, em Ozoir-la-Ferrière, cidade dormitório e uma miniatura de São Caetano, acompanhávamos a cobertura da Seleção Brasileira. O então assessor de imprensa do Brasil, Carlos Lemos, não sabia lidar com tantos jornalistas. O que ele decidiu? Criou um esboço de zona mista. Cerca de cem repórteres ficavam atrás de uma improvisada cerca de metal, de dez metros, onde os jogadores passavam antes e depois dos treinos. Tínhamos de chegar uma hora antes para guardar lugar. Eu ficava de um lado e o Prósperi do outro. José Eduardo Savóia, outro nosso companheiro, também decidia onde ficaria.

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Acompanhávamos o treino em pé, já pensando em ficar o mais próximo possível dos jogadores. E esticávamos nossos imensos gravadores. Para não perder uma palavra. 80% das vezes só quando ouvíamos as gravações é que decidíamos as pautas.

Quando o time chegava ou partia era um massacre. Os jogadores, de sacanagem ou não, saíam e entravam em comboio. Verdadeira insanidade. Cem jornalistas se espremendo, gritando, não ouvindo nada, gravadores se espatifando. Seguranças franceses nos olhavam com nojo e balançavam a cabeça. Ouvi um gordinho murmurar para seu companheiro.

"Savages."

Ele não estava errado. Tantos anos depois, éramos mesmo selvagens. Continuamos.

Executivos da Brahma sabiam das distâncias e criou um casa de convivência para os jornalistas. Entre o treino da manhã e o da tarde, oferecia sanduíches e refrigerantes para os jornalistas. E um espaço para entrevistas com ex-jogadores e personalidades que passavam por lá.

Tudo era muito estranho. A convicção dos repórteres brasileiros na conquista da Copa era absurda. Mesmo com o time não jogando bem. Zagallo que não havia observado a Holanda em 1974, também não levava a sério o futebol competitivo e vibrante da França. Conduzida por Zidane, empurrada pela La Marseillaise, hino da França, cantada por todo o estádio onde o time jogaria. Como o Brasil copiou em 2014.

O preenchimento dos espaços, a força física, as jogadas ensaiadas, a marcação pressão, a volúpia do time de Aimé Jacquet era desprezado.

Tudo passou a mudar no dia 12 de julho de 1998. Uma hora antes da partida, as escalações eram distribuídas aos jornalistas. E no lugar de Ronaldo estava Edmundo. Foi um desespero no Stade de France, em Saint-Denis.

Nós acompanhamos o treinamento do sábado. O 'treino dos autógrafos' e Ronaldo estava bem. O que teria acontecido? Falei com vários jogadores que assistiram às famosas convulsões do atacante. Roberto Carlos era o seu colega de quarto. E jura que desenrolou sua língua, no auge da crise. As explicações misturam grande pressão psicológica com excesso de remédios para as fortes dores que sentia nos dois joelhos.

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Na Casa Brahma, o grande assunto não era a Copa. Mas a namorada de Ronaldo, na época, Ronaldinho. Susana Werner. Modelo no auge da beleza fazendo entrevistas durante o Mundial com Pedro Bial. Susana era tão carinhosa com Bial que a imaginação corria solta. Muitos a imaginavam traindo Ronaldo. O jogador estava uma pilha de nervos com essa história que, lógico, já havia chegado à concentração. Tanto que logo depois do Mundial, os dois se separaram.

O que pode ser uma grande injustiça. Encontrei Susana pouco antes da decisão da Copa. E ela era mesmo muito carinhosa com todos os jornalistas e fãs. Era a personalidade de Susana, que a câmera de televisão ampliava sua meiguice de maneira assustadora.

A tensão de Ronaldo aumentou ainda mais com uma crise entre seus pais, que já estavam separados, mas não paravam de brigar na França. E toda a noite, o jogador tinha de administrar essas brigas, por telefone.

A bula das injeções que aplicava nos joelhos deixa claro.

O uso em excesso pode provocar convulsões.

Ronaldo estava estressado, com dores e tomando injeções e injeções.

Ninguém havia descoberto o que havia ocorrido, quando Ronaldinho entra em campo com a Seleção. O Brasil é engolido pela França. 3 a 0 foi até pouco, diante da diferença tática e técnica dos times. Zidane marcou dois gols de cabeça em escanteio, absurdo.

Para quem pensa na teoria que o Brasil vendeu a Copa, basta deixar a preguiça de lado e companhar a semifinal contra a Holanda, que o Brasil ganhou nos pênaltis. Os holandeses foram muito melhores. Dói o orgulho nacional, mas os franceses mereceram vencer.

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Após a partida, fomos todos os repórteres para os vestiários. Foi quando Zagallo surgiu cercado de seguranças. Jornalistas que pegaram os autógrafos no treino de sábado estavam babando de ódio. Um deles me perguntava. "Como é que vou explicar para minha filha, que deve estar chorando?" Perguntei quantos anos ela tinha. A resposta: "três".

Naquele clima insano, reparo que a entrada do vestiário estava lotada de guardas. Não só seguranças. Eles nos encaram com raiva, desprezo. O ódio da derrota está nos olhos da maioria dos jornalistas.

Há o aviso. Zagallo vai fazer um depoimento. E perguntas não serão permitidas.

O técnico começa seu monólogo.

Quando surge Mauro Leão, então repórter do jornal O Dia. Que o conhece não esquece jamais. 2 metros e dez, magro, engraçado, provocador. Sempre reclamando e sonhando com romances em qualquer cobertura.

Ao ouvir que Zagallo pensava em tirar Ronaldinho, não se contém.

"Por que você não tirou?", gritou Mauro, interrompendo Zagallo.

Zagallo ficou histérico. Começa a atacar o jornalista. "Estou aqui pelos franceses que estão aqui", diz o técnico. E vai embora, tenso. Era a deixa que os guardas esperavam. Eles partiram para cima, queriam prender Mauro Leão. Acreditavam que ele havia xingado o técnico da Seleção.

Chegara a hora de prender um 'savage'.

Só que os jornalistas brasileiros decidiram descontar a vergonha da derrota, a revanche seria contra os guardas enfrescalhados. Cercamos o Mauro Leão. Eu, também me empolguei. E passamos a gritar. "Aqui ninguém vai prender ninguém", em português mesmo. Os guardas olharam as autoridades da Fifa que estavam por perto. Assustadas, elas evitaram o nascimento de uma improvável guerra entre Brasil e França.

Mauro Leão, que fez o que qualquer jornalista de respeito deveria fazer, saiu como herói. Ganhou um programa na FM O Dia. E se redescobriu na vida, graças à sua postura nos vestiários do Stade de France.

Eu e o Prósperi fomos jantar após escrever sobre o fracasso brasileiro. Encontramos outros jornalistas. Fizemos uma mesa grande em um bom restaurante na Champs-Élysées. Comemos, na hora do café, alguns franceses que estavam no restaurante, descobriram com os garçons, que éramos brasileiros. Dois deles, eufóricos, subiram na nossa mesa. Sim, na mesa.

E começaram a cantar. "Un, deux, trois. Ale, ale, ale." Logo todo o restaurante começou a cantar e nos apontar. Já havíamos ouvido a mesma música no estádio. Era uma adaptação do 'hino da Copa da Franca', 'Go, go, go. Ale, ale, ale", cantado por Ricky Martin. Em vez do go (verbo ir, em inglês), os números um, dois, três. Menção aos gols que o Brasil tomou.

Não podíamos fazer nada.

Foi naquele momento que comecei a perceber o quanto é amargo perder a final de uma Copa. Por mais que tenha sido justa a derrota.

Mas minha dor nem se comparava com um radialista com quem embarquei de volta para o Brasil. Antes do entrar no avião, por meio de mímica, ele perguntou a uma francesa que trabalhava em uma lanchonete do aeroporto, se queria a camiseta amarela, cheia de autógrafos de jogadores da Seleção. Ela balançou a cabeça, afirmativamente.

Ele apontou a própria bochecha. Queria um beijo. O ganhou prontamente. E deu a camisa.

Percebeu que eu acompanhei a cena.

Deu de ombros e me disse.

"O que eu ia fazer?

"Camisa de vice não vale nada.

"Ainda ganhei o beijo de uma francesa.

"Saí no lucro..."

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