147 Romário dançando sem camisa, em cima da mesa, dando champanhe na boca de três mulheres. Marco Antônio Teixeira chorando depois de tomar soco de um repórter. Zetti dopado. Primeira derrota do Brasil em uma eliminatória. Os inesquecíveis bastidores da Copa de 1994...
Hoje é o dia.

Floyd Mayweather e Conor McGregor.

O mundo vai parar para acompanhar o combate/show entre o invicto 12 vezes campeão mundial de boxe com o atual campeão peso leve do UFC. A luta envolve cerca de R$ 2 bilhões.

Há 23 anos, assisti um confronto tão marcante quanto.

Pelo menos para mim.

Estava no hall do hotel Marriott, em Furletton, cidade próxima a Los Angeles. Era 22h30. Era uma balbúrdia generalizada.

Música no último volume. Dezenas de pessoas cantando, gritando, se abraçando. Quase todas elas de amarelo.

Passa por mim, um sujeito com um copo cheio de gelo e uísque. Cambaleante, embriagado. Só o reconheço quando se senta. É Ricardo Teixeira, então presidente da CBF.

"Ganhamos essa porra, apesar da paulistada filha da puta!", diz, olhando para um fotógrafo carioca. Queria o apoio. O que recebeu foi flashes na cara.

Teixeira se senta para não cair. E segue bebendo, ficando com as bochechas vermelhas e os olhos embaçados. Totalmente embriagado.

Mas toda a minha atenção fica voltada para o que acontece perto do bar. Um homem sem camisa está em cima de uma mesa dançando. Segura uma garrafa de champanhe que denuncia sua baixa estatura. Com a alegria digna de digna de Calígula, antecipando o que viria em seguida, ele se diverte distribuindo goles da bebida francesa nas bocas de três garotas que circundam a mesa. A festa particular estava garantida.

Este baixinho 'caliguliano' era Romário.

Mas, contrariado, sou obrigado a parar de acompanhar a cena libidinosa.

"Paulista babaca, filha da puta."

As ofensas são feitas com ódio.

"Babaca e filha da puta é você"

O troco vem ainda mais alto.

Trash talk que envergonharia Connor e Mayweather.

O confronto no hotel Marriott envolveria dois quarentões.

De um lado, obeso, flácido e alcoolizado, Marco Antônio Teixeira. Tio de Ricardo e, em bela demonstração de nepotismo explícito, secretário-geral da CBF.

225 Romário dançando sem camisa, em cima da mesa, dando champanhe na boca de três mulheres. Marco Antônio Teixeira chorando depois de tomar soco de um repórter. Zetti dopado. Primeira derrota do Brasil em uma eliminatória. Os inesquecíveis bastidores da Copa de 1994...

Do outro, magro, veias do pescoço saltadas pela raiva, Luiz Antônio Prósperi, repórter do Jornal da Tarde.

Ambos mineiros.

Marco Antônio não suporta receber o troco do jornalista. Fecha o punho direito e, surpresa, dá um direto no nariz de Prósperi. Ele estava com a guarda baixa, não faz o pêndulo. Não imaginava que as palavras se transformariam em ação. Logo seu nariz começa a sangrar.

Mas Luiz Antônio não deixa por menos. Reage instantaneamente. A mão direita sai de baixo. E acerta um upper. O soco sobe pela boca até o nariz de Marco Antônio. Arrebenta seus óculos. A haste que segurava a lente provoca um corte no início de sua testa.

A reação de Marco Antônio foi inesperada.

Ele senta em uma cadeira e começa a chorar.

Vitória por nocaute, de Prósperi.

Vejo que seguranças da CBF e do hotel se aproximam de Luiz Antônio e o arrasto para o banheiro para lavar o rosto e se acalmar. Policiais e seguranças nos cercam e somos expulsos do Marriott.

No meio da confusão, vejo Romário do outro lado, apertando o botão do elevador.

Sem camisa e acompanhado pelas três garotas.

E eu, abraçado com o Prósperi.

622 1024x684 Romário dançando sem camisa, em cima da mesa, dando champanhe na boca de três mulheres. Marco Antônio Teixeira chorando depois de tomar soco de um repórter. Zetti dopado. Primeira derrota do Brasil em uma eliminatória. Os inesquecíveis bastidores da Copa de 1994...

Esse combate inesquecível deveria ser o ponto inicial de um livro que nunca foi escrito. Tinha até título. "A Conquista da Copa de 1994. Do ponto de vista dos inimigos. Os paulistas."

Eu e o Prósperi cobrimos o turbulento caminho para a conquista do tetracampeonato. E vimos todo improviso, bagunça, falta de preparo que marcava a CBF. O esquema mecânico de Carlos Alberto Parreira. E o poder do talento de um jogador para mudar o rumo das coisas.

323 Romário dançando sem camisa, em cima da mesa, dando champanhe na boca de três mulheres. Marco Antônio Teixeira chorando depois de tomar soco de um repórter. Zetti dopado. Primeira derrota do Brasil em uma eliminatória. Os inesquecíveis bastidores da Copa de 1994...

Sem querer, criei uma situação que quase comprometeria aquela conquista. Estava no amistoso entre Brasil e Alemanha, em Porto Alegre. O jogo seria no dia 16 de dezembro de 1992. Vejo o time escalado por Parreira. Taffarel, Jorginho, Paulão, Célio Silva e Branco; Mauro Silva, Luís Henrique, Silas e Zinho; Bebeto e Careca.

Romário era a sensação da Europa, atuando no PSV. Ele passa após o treino perto dos jornalistas. Me antecipo e pergunto. "Romário, você vem da Holanda, está muito bem e não vai jogar. Tudo bem para você?"

Ele me encara, com ódio.

"Não. Não está nada bem. Viajei 16 horas até aqui para jogar. Tinha certeza que seria titular. Se soubesse que era para ficar no banco, não teria viajado. Vou conversar com o Parreira porque não estou satisfeito."

Me arrependo de ter feito a pergunta perto dos outros jornalistas. Logo Romário está repetindo o desabafo nas tevês, nas rádios. Ele realmente cobra Parreira. Zagallo toma as dores. Os dois discutem. O atacante não seria mais chamado para as Eliminatórias.

"Romário é um fato de desagregação da equipe", desabafou Zagallo.

Sem ele, o time de Parreira disputa as Eliminatórias de forma deprimente. Ainda mais para um país que nunca havia perdido um jogo. Veio o primeiro e o empate com o Equador e fomos para La Paz acompanhar o confronto com a Bolívia. Mal desembarco, a tampa da minha cabeça parecia que iria explodir. E o nariz de Prósperi não pára de sangrar. Efeitos da altitude. O Brasil joga mal demais e perde por 2 a 0.

O JT nos havia colocado no vôo da Seleção. Tínhamos de escrever o texto do jogo na correria. Não tive dúvidas. Pedi dois bules de chá de coca. "Bien fuertes", pedi, no meu fraco espanhol. Fiquei dois dias sem dormir, eufórico.

522 Romário dançando sem camisa, em cima da mesa, dando champanhe na boca de três mulheres. Marco Antônio Teixeira chorando depois de tomar soco de um repórter. Zetti dopado. Primeira derrota do Brasil em uma eliminatória. Os inesquecíveis bastidores da Copa de 1994...

No avião, na parte da frente ia o time. Da metade para trás, os jornalistas. No meio, seguranças. As entrevistas estavam proibidas. Foi quanto Antônio Maria, repórter de O Globo, começa a assoviar. Nós reconhecemos as notas. Era "Pra Frente, Brasil", tema da Copa de 1970. Começamos todos os cerca de 30 jornalistas a assoviar e batucar. Os jogadores não entenderam nada. Parreira e Zagallo, sim. Era o protesto diante do que havia se transformado a Seleção Brasileira, em 24 anos.

Em seguida, o Brasil iria enfrentar a Venezuela, em San Cristóbal. Tínhamos acesso à concentração. Liguei no jornal para contar a nossa pauta. Quando ouço que tudo mudou. Havia estourado uma bomba. Zetti havia sido pego no doping. Naquele tempo sem Internet, tudo era lento demais. O JT tinha uma ótima na Fifa. A notícia ainda não havia chegado à CBF.

Lá fui eu, discretamente, chamar Zetti que estava almoçando. Ele me conhecia do São Paulo. E perguntou o que acontecia, afinal, era reserva de Taffarel. Não sabia como dizer. Mostrei a minha elegância, a minha sutileza de elefante. "Você foi pego no doping contra a Bolívia. Por cocaína." Zetti ficou vermelho, tenso. "Você está brincando, de sacanagem." "É sério", respondi.

Ele pediu para eu esperar. E falou com Parreira. A notícia havia acabado de chegar na concentração. Zetti teve a hombridade de voltar e terminar de falar comigo. "Vou provar que não fiz nada. Você me conhece." Zetti sempre teve fama de ser mais correto do que uma freira. Seu caráter pesou e todos se convenceram que ele havia comido biscoitos artesanais, feitos com folha de coca. Ele e o lateral Rimba, da Bolívia, que também alegou ter comido os tais biscoitos, foram perdoados pela Fifa.

"Se fosse outro jogador e não o Zetti, pegaria um ano", brincávamos os jornalistas.

Zetti brinca com a situação até hoje, quando me vê.

O time capengou. Até que chegou precisando desesperadamente do último jogo, contra o Uruguai. O medo era generalizado que o Brasil ficasse de fora da Copa dos Estados Unidos. A opinião pública pressionou Ricardo Teixeira. E ele pressionou Parreira e Zagallo. Ambos tiveram de ceder. E Romário foi chamado.

415 Romário dançando sem camisa, em cima da mesa, dando champanhe na boca de três mulheres. Marco Antônio Teixeira chorando depois de tomar soco de um repórter. Zetti dopado. Primeira derrota do Brasil em uma eliminatória. Os inesquecíveis bastidores da Copa de 1994...

Aquela partida no Maracanã antigo foi uma das mais emocionantes da minha vida. Havia 101.553 pagantes. A vibração era extraordinária. Dias antes, havia feito uma exclusiva com Ricardo Teixeira em São Paulo, com o auxílio de Jota Hawilla. Ele deu ao JT como troco por críticas que recebia da Folha. Era assim que Teixeira agia.

Romário teve uma atuação exuberante, marcou os dois gols. Naquela época, repórteres, inclusive de jornal, podiam ficar esperando os jogadores atrás das traves, após a partida. Mal acaba o jogo, ele corre muito em direção ao vestiário. Corro também e quando vou começar a descer o túnel com ele, quatro seguranças me impedem. Por uma sorte absurda, Ricardo Teixeira desce a escada neste momento.

"Presidente, presidente, presidente", grito histérico. Ele olha para mim. "Me deixe falar com o Romário. Me deixe." Teixeira faz um sinal com a cabeça. Os seguranças me largam. Quase dou um beijo naquelas bochechas gordas de Teixeira.

"Eu não sempre falei que tinha de ser titular dessa Seleção?", me diz Romário. Depois deu coletiva. Mas a exclusiva foi capa no JT e no Estadão, já que era jornais do mesmo grupo.

Depois veio a Copa. O Brasil não começou bem. As críticas foram duras. Mas o futebol pragmático de Parreira foi salvo pelo talento, pelo gênio dentro da área chamado Romário.

Esperava a definição das cobranças dos pênaltis para poder chegar perto e entrevistas os jogadores, em Los Angeles. Foi quando houve a festa inesquecível no gramado. Depois, todos saíram. E eu vi, por superstição ou não, grande parte daquele time dando tapas na careca do novato do elenco, para comemorar o título.

Ele se chamava Ronaldo.

Depois, todos para o Marriott.

Onde estava marcado o sangrento combate.

Entre Marco Antônio Teixeira e Prósperi.

E mais uma festa, na vida de um certo Romário...
 Romário dançando sem camisa, em cima da mesa, dando champanhe na boca de três mulheres. Marco Antônio Teixeira chorando depois de tomar soco de um repórter. Zetti dopado. Primeira derrota do Brasil em uma eliminatória. Os inesquecíveis bastidores da Copa de 1994...

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