Para desespero dos dirigentes, a eliminação do Boca Juniors da Libertadores é um marco. Os clubes serão punidos pela selvageria de seus torcedores. O futebol da América do Sul passa a ser civilizado...
Até que enfim o futebol sul-americano saiu da Idade das Trevas. Deu o primeiro passo. O Comitê Disciplinar da Conmebol eliminou o Boca Juniors da Libertadores. A estúpida agressão com gás pimenta de membros de suas organizadas aos jogadores do River Plate custou caro. O time mais popular da Argentina não só não disputa mais esta Libertadores.

Muito mais importante do que o lamentável caso: foi derrubada de vez a tese de que o clube não tem nada a ver com os atos de seus torcedores. Ainda mais jogando em csa.

Na próxima competição organizada pela Conmebol, pode ser a Copa Sul-Americana, o Boca atuará quatro partidas na Bombonera com portões fechados. E seus torcedores estarão impedidos de irem em outros quatro jogos quando o time não for mandante. Mais o pagamento de 200 mil dólares, cerca de R$ 600 mil.

Mas não foi nada fácil. Desde 1960 foram 55 edições. E nenhum clube havia sido eliminado da competição, por mais absurdo que seus torcedores possam ter cometido.

Em 1962, uruguaios jogaram garrafas em jogadores santistas. Dois episódios lamentáveis no Pacaembu. Em 1991, o Corinthians perdia por 2 a 0 para o Flamengo. Aos 28 minutos do segundo tempo, as organizadas resolveram invadir o gramado, acabar o jogo. Foram além. Roubaram garrafas de cerveja dos bares do estádio. E passaram a jogá-las no campo. Depois desse absurdo, as garrafas de vidro foram proibidas na América do Sul.

Em 2006, as organizadas e a PM travaram uma batalha homérica. Os torcedores queriam linchar jogadores tanto do Corinthians como do River Plate. Inúmeros casos de racismo. Pedras em ônibus, nos jogadores, guerras de rojões. E infelizmente até morte na arquibancada, quando um sinalizador esfacelou o cérebro de Kevin Spada, menino de 14 anos que resolveu ver o campeão mundial Corinthians enfrentar seu time de coração, o San José, em Oruro, Bolívia.

Torcidas do Palmeiras, do São Paulo, do Santos, do Inter, do Cruzeiro, do Atlético Mineiro, do Flamengo, Vasco já apedrejaram ônibus adversários. Fizeram tocaias. Soltaram rojões em hotéis para adversários não dormir. A selvageria não é privilégio de nenhum clube.

Foram anos e anos de descaso, impunidade, vergonha. Os 'julgamentos' eram arbitrários, sem nenhum fundamento técnico. De acordo com as ditaduras militares que dominaram a América Latina por décadas. Os próprios dirigentes da Conmebol determinavam as punições. De acordo com o poderio político, financeiro dos times envolvidos, vinham as 'penas'. Quem fazia justiça não eram advogados, juízes de direito. Mas meros executivos da entidade. Muitos deles canalhas, corruptos, tão ou até mais criminosos do que os vândalos.

Foi a Fifa, apenas em 2010, que obrigou que a Conmebol criasse seu Comitê Disciplinar. Sempre houve resistência. Os executivos da entidade gostavam das benesses de se fingir de juízes de Direito.

Mas o Comitê Disciplinar é um órgão estranho. Sujeito à pressões. Em muitos casos de suspensão, como por exemplo, o de Emerson, do Corinthians, apenas uma pessoa é incumbida de determinar a pena. O máximo que o clube faz é enviar as imagens do incidente, as explicações por escrito e as desculpas do jogador. "Não há um julgamento normal. Tudo vai depender da boa vontade desse membro do comitê. Não há lógica, não há nada. Os clubes ficam de mão amarradas." O resumo é de João Zanforlin, experiente advogado do Corinthians.

O que aconteceu ontem à noite foi algo que parecia lógico. Tudo que aconteceu na Bombonera foi inacreditável. Mas eliminar pela primeira vez um time da Libertadores. E ainda mais o Boca Juniors acabou sendo marcante, difícil demais. Até o governo da presidente Cristina Kirchner tentou interferir. Mergulhado na recessão, como o vizinho Brasil, Cristina não queria o clube mais popular fora da competição.

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A pressão foi imensa na sede da Conmebol, no Paraguai. Ela já fica em Assunção e não pode ser presidida por brasileiros ou argentinos. Foi um acordo para que ela não seja favorável a uma das maiores potências da América do Sul. Os dirigentes sabem quem são.

Os membros do Comitê Disciplinar ficaram reunidos quase 12 horas até chegar ao veredito. Enquanto isso, a omissa e absurda polícia argentina tentou amenizar a situação do Boca. Divulgou sua mentirosa suspeita que o gás pimenta que atingiu os jogadores do River Plate chegou voando, das arquibancadas. E não veio do túnel, onde torcedores do Boca Juniors rasgaram ou queimaram um pedaço do túnel inflável, por onde os atletas rivais entraram no gramado.

Logo ficou claro que a versão era falsa. Até a absurda trajetória dos tiros que mataram John Fitzgerald Kennedy em 1963 foi melhor explicada. O gás pimenta partiu mesmo das mãos dos torcedores. O túnel fica 'grudado' nos alambrados do acanhado, histórico, mas ultrapassado estádio Bombonera.

Nas 12 horas de discussão, os auditores da Conmebol sabiam que estavam tomando uma decisão com enorme peso. Não só por tirar o Boca da competição. Mas por deixar claro que, a partir de agora, os clubes serão severamente punidos pelos atos dos seus torcedores.

Foi um absurdo o Corinthians não ser eliminado da Libertadores de 2013 após o assassinato do boliviano Kevin Beltran. O sinalizador partiu das suas organizadas. Mas como não havia precedentes. O julgamento foi político. Pesou o peso do governo brasileiro, defendendo o clube mais popular da rica São Paulo. E que havia acabado de ganhar não só a própria Libertadores como o Mundial de Clubes.

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A tese ridícula do então presidente do Corinthians, Mario Gobbi, prevaleceu. A que o Corinthians não tinha nada a ver com suas organizadas. Enquanto ele berrava nos microfones, trabalhava como um moro pela libertação dos 12 membros das torcidas presos em Oruro. A prisão foi sim arbitrária, outra estupidez. Mas negar a ligação das organizadas no clube é hipocrisia. O grupo que administra o clube desde 2005 veio das arquibancadas. Andrés Sanchez é um dos fundadores da Pavilhão Nove.

O grande medo dos dirigentes sul-americanos sempre foi ver seus clubes punidos pelos atos de seus torcedores. Mas a regra no mundo civilizado é essa. Além de a polícia mandar os vândalos para a cadeia.

A Conmebol fez história ontem. Os dirigentes do Boca Juniors são dominados por suas violentas torcidas organizada, as barras bravas. Há traficantes, assassinos, ladrões, cambistas, drogados infiltrados nas principais. Todos sabem e ninguém age. Na Argentina como no Brasil não há vontade política para separar os criminosos das torcidas. O medo de medidas antipopulares que reflitam nas eleições.

Com a punição, os clubes daqui por diante terão de vigiar seus torcedores. Acabou a farra. Foi aberto o precedente. A eliminação foi importantíssima. Mas, mantendo a tradição política da Conmebol, a Bombonera foi poupada. O estádio deveria ser interditado por pelo menos seis meses. Para que fosse alterado o lugar onde entra para campo o time visitante. E também que servisse de exemplo para outras arenas onde o torcedor faz o que quer.

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Como por exemplo controlar um drone fantasiado de fantasma, com a letra B no peito. A piada em relação ao River Plate, que já visitou a Série B, está perfeita. O que não é possível é um mecanismo de ferro ficar voando livre sobre as cabeças de milhares de pessoas. Se ele cai pode ferir seriamente qualquer pessoa, matar outro menino.

Mesmo diante de todos os fatos e o julgamento, o presidente do Boca Junior, Daniel Angelici, já recorreu. Não concordou com a eliminação da Libertadores. Quer seu time jogando os 45 minutos restantes.

Com a maleável Conmebol não é bom comemorar antes. Enquanto Cruzeiro e River Plate não começarem a disputar uma vaga para a semifinal da Libertadores, tudo é possível.

Caso tudo siga o seu rumo normal e a sentença seja confirmada, o futebol sul-americano tem muito o que comemorar. E os dirigentes de seus principais times aprendam de vez. Eles estão ligados uterinamente com suas organizadas. As consequências da estupidez do crime que seus torcedores decidirem praticar recairão sobre os clubes. Como em qualquer lugar civilizado do mundo...
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