
Paulo Roberto Falcão.
56 anos.
Um dos principais responsáveis na quebra do eixo Rio-São Paulo.
O País teve de se dobrar aos gaúchos do Internacional.
"O maestro, o cérebro, o arquiteto.
Somando tudo isso não é suficiente para resumir o que foi Falcão para o Inter.
Para a Roma. Para a Seleção Brasileira.
Ele foi brilhante. Brilhante.
Um dos maiores jogadores não só do Inter, mas do Brasil em todos os tempos", resume o seu ex-treinador Rubens Minelli.
"Foi um privilégio ter atuado com ele na Seleção." Zico.
"Um dos caras mais inteligentes e talentosos que o futebol criou." Sócrates.
"Ele foi homem para apostar em mim na Seleção. Quando todos duvidavam." Cafu.
As citações a Falcão se sucedem.
Sempre há alguém no futebol disposto a um elogio, a uma reverência.
Todos sabem que ele é muito mais do que o excelente comentarista da TV Globo.
Do que o surpreendente colunista da Zero Hora.
O que ele representa vai muito mais além.
Falcão está lançando o livro "O time que nunca perdeu".
Ele dá a sua visão e entrevistou os companheiros de time que fizeram o Internacional campeão brasileiro invicto em 1979.
É até hoje a única equipe da história que conseguiu vencer o Brasileiro sem uma derrota.
Em cinco dias já foram vendidos três mil exemplares, resultado excelente.
Mal foi lançado, o livro já está na segunda edição.
A escalação da equipe conseguiu a façanha na final contra o Vasco.
Benítez, João Carlos, Mauro Pastor, Mauro Galvão e Cláudio Mineiro; Batista, Falcão e Jair; Valdomiro (Chico Spina), Bira e Mário Sérgio.
O técnico foi Ênio Andrade.
Mas foi impossível falar com Falcão e não comentar sobre outros assuntos.
Copa de 1982, a passagem como treinador da Seleção Brasileira, Dunga, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, a preocupação com a Seleçao Inglesa na Copa da África e a possibilidade de voltar a trabalhar como técnico.
A conversa com Falcão poderia durar horas, dias.
Fica claro que ele tem a obrigação de lançar uma biografia e repartir tudo o que viveu e o muito que sabe sobre futebol.
Falcão: fale sobre o livro que você acaba de lançar....
Foi uma coisa que me deu muito prazer fazer. Este ano completa 30 anos de um feito difícil de outra equipe alcançar. Ser campeã brasileira invicta. Conseguimos formar um time maravilhoso, comandado com todo o talento por Ênio Andrade. Foi um feito. Jogamos 23 partidas. Vencemos 16 e empatamos sete. Foi uma equipe experiente, competitiva mas que tinha muita técnica. Eu fiz questão de falar com todos os jogadores que participaram da campanha. Eles estão espalhados pelo mundo. Estou bastante satisfeito com a qualidade do trabalho. E o nome do livro corresponde exatamente à verdade: "O time que nunca perdeu". Essa equpe nunca perdeu. Assim que acabou o Brasileiro vários atletas saíram. Esse time ficou para a história.
Qual o segredo deste time?
Foi um encontro de talentos. Nós conseguimos ter peças fortes em todos os setores. Mas, sem falsa modéstia, o nosso meio de campo era bom demais. Éramos eu, o Batista, o Jair e o Mário Sérgio, que nos ajudava. Nossa proposta de jogo era corajosa. O time tinha personalidade também. Entrava em campo sabendo que venceria o adversário. Foi uma conjunção de fatores. Deu tudo certo. E o mais impressionante é que o Inter entrava para os seus jogos com a pressão de conseguir o resultado e com todos cobrando a manutenção da invencibilidade. Além do talento, a personalidade do elenco, do Enio Andrade foram fundamentais. Sabíamos que fazíamos história.
E o Brasileiro vivia aquela fase da política: onde a Arena vai mal, um time no Nacional. Foram mais de noventa clubes. Os jogos mais marcantes foram as semifinais contra o Palmeiras? Lembro que o jornal paulista Jornal da Tarde teve a coragem de colocar na sua capa a seguinte provocação no dia do jogo: Falcão ou Mococa (antigo volante do Palmeiras)? Após a vitória do Inter por 3 a 2 e com uma exuberante atuação sua teve de admitir no dia seguinte com outra capa: Falcão, lógico...
Olha, Cosme, tenho de confessar que os jogos contra o Palmeiras foram mesmos inesquecíveis. A nossa vitória no Morumbi foi decisiva. E eu tinha lido o jornal no dia da partida. Me mostraram, talvez querendo me motivar, me deixar nervoso. Mas eu sabia o que nós poderíamos fazer. O adversário era terrível. Era o Palmeiras do Telê Santana, que havia acabado de eliminar o maravilhoso Flamengo de Zico ganhando por 4 a 1 em pleno Maracanã. Sabia da importância daquela partida em São Paulo. Ganhamos por 3 a 2. (De virada. O Inter esteve perdendo por 1 a 0 e 2 a 1. Falcão marcou dois gols e decidiu a partida.) O sentimento era quase de uma final. Depois empatamos em Porto Alegre, olha a força do Palmeiras...E depois confirmamos o título com duas vitórias sobre o Vasco. A nossa campanha foi fantástica. Além de ouvir os meus companheiros de time, faço um pequeno comentário sobre cada jogo. Com histórias de bastidores. Ficou muito gostoso fazer o livro. Essa história precisava ser resgatada.
Falcão: vocês tinham consciência que, com aquele campeonato, estavam rompendo de vez uma velha história? A que o futebol brasileiro se resumia ao eixo Rio-São Paulo?
O Atlético Mineiro já havia vencido o Brasileiro de 1971 e o Inter vencido o de 1975 e 1976. Mas o bairrismo ainda dominava o comando do futebol brasileiro. Pense bem se tem cabimento o Minelli ganhar dois brasileiros com o Inter e depois vencer com o São Paulo o de 1977 e não ir comandar a Seleção Brasileira? Um tremendo absurdo. O Inter ganhava tudo e ninguém era chamado para a Seleção Brasileira. Na Copa de 1978 só foi o Batista. Havia vários, não um, nem dois, mas vários jogadores do Inter que deveriam ter sido chamados. Foi uma pena, um desperdício. Uma coisa revoltante. Mas a conquista invicta do Internacional serviu para abalar de vez e mostrar que o Brasil ia muito além de Rio-São Paulo. Minas e Porto Alegre ganharam seus espaços na marra. O que acabou sendo bom para a Seleção Brasileira.
Você foi um injustiçado. Brigou com o falecido Coutinho e não foi para a Copa de 1978. Mas veio a de 1982. Explique mais uma vez, depois de tanto tempo, por que o Brasil perdeu aquela partida para a Itália. Bastava empatar e o time se expôs e foi derrotado por 3 a 2.
Do meu problema com o Coutinho que me tirou da Copa de 1978 não vou falar. Até por respeito a ele que não pode mais se defender. Tudo bem, passou. Falo da Copa de 1982. E sou claro: quem perdeu foi o futebol mundial com a derrota daquela Seleção Brasileira. Sabíamos que estávamos fazendo algo marcante. Se conseguíssemos vencer a Copa da Espanha faríamos com que o futebol privilegiasse mais o talento do que a marcação. Só que fomos derrotados. E quem faz a história são sempre os vencedores, infelizmente. Foi coisa do destino, inexplicável. Sabíamos que éramos melhores. Os italianos, que também tinham um grande time, sabiam da nossa superioridade. Só que não conseguimos vencer naquele dia. Nossa filosofia de jogo era uma declaração de amor ao futebol bem jogado, que privilegiava o talento, o ataque. Repito, Cosme: quem perdeu naquela partida decisiva de Sarriá não foi o Brasil. Foi o futebol mundial.
Você teve uma carreira maravilhosa na Itália. Virou Rei de Roma. Se machucou, teve uma passagem rápida pelo São Paulo. E depois que parou assumiu a Seleção Brasileira. Foi logo depois da Copa de 1990. Por que não deu certo? Disputou apenas alguns amistosos e a Copa América do Chile, em 1991?
Eu acho que dei muito mais do que certo. O que me foi proposto pelo presidente da CBF eu cumpri. Me pediram para não levar os jogadores que foram mal na Copa de 1990. E lançar novos jogadores. Foi assim que fui enfrentar a Copa América. E lancei toda uma geração que conseguiu ganhar a Copa de 1994. Cafu, Márcio Santos, Mauro Silva, Ricardo Rocha, Raí...No elenco só havia jovens jogadores. Fomos segundo colocado. Perdemos para a Argentina que levou seus titulares. E o trabalho não pôde prosseguir. Mas sei que deixei uma base que junto com jogadores mais vividos, experientes ganharam o Mundial de 1994. (Falcão foi proibido pela CBF de convocar os atletas que, além de perder a Copa de 1990, brigaram por premiação. Romário, Dunga, Jorginho, Ricardo Gomes, Müller foram alguns deles. Além disso, Falcão escolheu um assessor de imprensa paulista que, tentando preservá-lo, se indispôs com grande parte da imprensa brasileira. Principalmente a carioca. Elegante, Falcão não toca no assunto.)
E depois da Seleção Brasileira? Por que não continuou como treinador?
Fiz um ótimo trabalho com o América do México. E um também muito bom com a Seleção do Japão. Depois passei a me dedicar mais à minha família. Ainda assumi o Inter, mas peguei o trabalho no meio, o resultado não foi o que queria. E ao mesmo tempo fui me apaixonando pelo que faço. Amo comentar na televisão, escrever sobre futebol, falar na rádio. Me sinto bem demais. Adoro o que faço. Para voltar a treinar só se fosse um convite excelente. Mas para começar um trabalho. Não para pegar no meio. Sei do meu potencial. Posso montar uma boa equipe. Sei como tudo funciona. Só que deixa assim, Cosme. Estou muito feliz como as coisas estão.
Como você explica o sucesso do Dunga na Seleção Brasileira?
O Dunga é uma pessoa muito inteligente e determinada. Ele também sabe como tudo funciona na Seleção Brasileira. É um vencedor. Tem também bastante sensibilidade para formar o grupo com quem trabalha. É fácil perceber a sintonia que há entre todos os membros que comandam a Seleção. E os resultados mostram que ele está certo. Dunga conseguiu montar uma Seleção competitiva, que marca forte e ainda dá espaço para quem tem talento jogar. A força física da Seleção Brasileira também é um fator importantíssimo. Eu acho que o Brasil chegará para a Copa como precisa chegar: sabendo de suas forças e respeitada. O mérito é todo do Dunga, que foi uma surpresa agradável para todos. Não tem como tirar o que ele conseguiu.
Como você analisa o Ronaldo? Há lugar para ele na Seleção Brasileira? Vai disputar a Copa?
Não vai. Infelizmente, não tem condições físicas. Ele é um jogador com um enorme talento. Mesmo fora de forma é capaz de grandes jogadas. Lances geniais. Mas dentro do Brasil. Infelizmente não conseguiu se recuperar para disputar uma competição tão forte, tão exigente como uma Copa do Mundo. Por mais que todos gostem muito do Ronaldo, como eu também gosto, é preciso ser realista. Eu acredito que ele não será convocado pelo Dunga. Não irá para a Copa da África. Acho uma pena. Mas eu estou falando o que sinto.
E o Ronaldinho Gaúcho? O que aconteceu com ele?
Ah...Esse é o grande mistério do futebol mundial. Ele tem um talento absurdo, mas simplesmente ficou três anos sem jogar. Seu futebol sumiu. Eu não tenho explicação. Nunca vi nada parecido. O que me anima é que nos últimos meses parece que o seu olhar com fome de bola voltou. Ele está se aplicando, tentando as jogadas. Sinceramente, eu tenho esperança que dará tempo. Acredito que ele poderá disputar a Copa da África. Ele tem talento, força física. E, ainda bem, parece motivado. Eu espero que, para o bem do Brasil, ele continue assim até a convocação final. Ele tem condições de se superar e fazer muito bem ao grupo.
Quem será o grande adversário do Brasil na Copa?
Não se pode esquecer dos tradicionais: Itália, Argentina, Alemanha, França. Mas para mim, quem irá surpreender nesta Copa será a Inglaterra. Finalmente conseguiram um treinador com um potencial vencedor. O Fabio Capello ganhou por onde passou. E está trabalhando forte, sem alarde. Com dez reservas em campo deu um trabalho enorme no último amistoso contra o Brasil com seus titulares. A Seleção ganhou po 1 a 0 sofrendo muito. Eu aposto que a Inglaterra será o grande adversário de todos na Copa da África.
Você está empolgado com a Copa de 2014 no Brasil?
Acredito que o Brasil precisava de uma Copa. E principalmente a população precisa das melhorias que um Mundial trará. Mas eu acho que será necessário muito transparência com os gastos. Não pode haver dúvida que o dinheiro será bem investido. A oportunidade é única. A corrupção não pode prevalecer. Aliás, a corrupção não é privilégio brasileiro. No mundo inteiro há problemas. Mas eu desejo do fundo do coração que tudo siga o caminho que o nosso povo merece na Copa de 2014.
Você irá lançar o seu livro em São Paulo, no Rio de Janeiro ou será apenas um evento gaúcho?
Olha, acredito que no início de janeiro devo lançar nas grandes capitais do Brasil. Há vários pedidos para tardes de autógrafos. Estou muito orgulhoso do meu trabalho com o jornalista Nilson Souza de Zero Hora. Estou vivendo uma fase muito feliz da minha vida...
Mas você está devendo uma biografia. Com detalhes de sua carreira...
Vamos ver...Vamos ver... Um abraço, Cosme...