514 Os motivos do vexame da Itália. E o difícil caminho da reconstrução do seu futebol
Os italianos acreditavam que o maior vexame do futebol na sua história era a eliminação do time na primeira fase da Copa do Mundo de 1966. O time foi eliminado por União Soviética e, o motivo da vergonha, também pela Coreia do Norte. A reação foi imediata foi fechar as fronteiras para jogadores estrangeiros. Eles estariam impedindo o surgimento de novos talentos. Só quem tinha o passaporte italiano pôde atuar por lá entre 1966 e 1980.

Mal sabiam eles que o destino reservava um vexame muito maior. A não classificação para a Copa da Rússia. Com a população chocada, a promessa é de mudanças profundas.

Para explicar os motivos que levaram ao fracasso colossal e o que o futuro reserva para o país tetracampeão mundial, o blog ouviu um dos maiores conhecedores do futebol italiano na imprensa brasileira.

Luis Augusto Monaco. Depois de uma carreira marcante no jornalismo, desde 1989. Entre outros empregos, foi editor de Esportes do Jornal da Tarde e do Estado de São Paulo. É um dos fundadores e editores do Chuteira FC, importante portal esportivo. Cobriu Itália nas Copas de 2006 e 2014 e na Copa das Confederações em 2013.

Tem fontes importantíssimas na Europa.

Troca muitas informações com jornalistas consagrados.

Se há alguém de explicar o caos que domina hoje a Itália é ele.

Como o futebol italiano chegou a esta decadência? Quais os primeiros sinais? E por que não houve jeito de mudar o que estava errado?

Na Itália ocorre um processo inverso ao que vemos no Brasil. Aqui os times vão mal, o nível do campeonato é fraco, mas a Seleção se recuperou com o Tite e é apontada no mundo todo como uma das favoritas ao título em 2018. Na Itália a seleção vem caindo, tanto que não custa lembrar que foi eliminada na primeira fase em 2010 e 2014, mas o nível dos times vem melhorando. A Juventus foi finalista da Champions League em 2015 e 2017, e nesta temporada o campeonato está muito bom, com cinco times separados por apenas quatro pontos e jogando bem.

Napoli, Juventus, Roma e Lazio jogam bem, a Inter melhorou bastante sob a direção do Luciano Spaletti. A seleção fracassou em 2010 porque o Marcello Lippi, que havia saído depois do título de 2006 e voltado depois da Eurocopa de 2008, cometeu um erro muito comum entre treinadores: apostou, quatro anos depois, na mesma base que tinha sido campeã na Alemanha, mas o rendimento deles já não era o mesmo. Em 2014 o ambiente foi minado pela divisão entre “senadores”, que é como os italianos chamam os veteranos, e novatos. As referências da seleção foram saindo de cena ou envelhecendo, e não surgiram novos jogadores com talento e personalidade para assumir o bastão.

Muitos especialistas dizem que o problema está nas péssimas gestões dos grandes clubes. Com exceção da Juventus, bancada pela Fiat. Milan e Inter se perderam na última década, por exemplo. É certa essa análise?

O problema dos clubes italianos é que, financeiramente, não conseguem competir com os grandes da Espanha, Alemanha e Inglaterra, e agora também com o PSG. Um dos principais motivos, e isso é dito há anos pelo Adriano Galliani, que foi vice-presidente do Milan por muito tempo, é que os italianos não têm receita com a exploração dos estádios.

O único grande que é dono do próprio estádio é a Juventus, e isso só a partir de 2011. Coincidência ou não, desde então ganhou todos os Campeonatos Italianos. Os estádios de Milão, Roma, Nápoles, Roma, Verona, todos pertencem ao munícipio. Os clubes não têm receita com lojas, venda dos naming rights, visitas guiadas, museus dentro do estádio, aluguel para outros eventos... E com menos receita para concorrer no mercado de contratações fica difícil atrair as estrelas de primeira grandeza. A solução poderia ser apostar na formação de jogadores, mas os clubes continuam se enchendo de estrangeiros.

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Como um técnico com trabalhos insignificantes, como o Ventura, acabou no comando da Seleção Italiana?

Foi uma escolha desastrosa do presidente da Federação, Carlo Tavecchio. A entidade não pode pagar o salário pago por clubes ricos como Chelsea, Bayern e Juventus, e por isso quando o Antonio Conte deixou a seleção depois da Eurocopa de 2016 para trabalhar justamente no Chelsea o jeito foi procurar um treinador barato. Mas nem isso justifica a opção pelo Ventura, um técnico que em 35 anos de carreira nunca esteve à beira do campo num jogo de Champions League. Era preferível apostar num ex-jogador com experiência nas seleções de base, porque com certeza seria alguém mais antenado com o presente do que o Ventura.

Quais os principais erros do Ventura? Houve alguma injustiça nas convocações? Como os jogadores importantes, os chamados 'senadores' reagiam ao seu comando?

A lista de pecados do Ventura é extensa. Convocava mal, escalava mal, substituía mal... Mas, fundamentalmente, o grande erro foi a escolha do esquema tático. Ele apostou num sistema que chamava de 4-2-4, com dois meio-campistas centrais, dois homens abertos e dois centroavantes.

Não havia ninguém para colocar a bola no chão e pensar, o time saía de trás com bolas longas e depois bombardeava a área com chuveirinhos em busca dos centroavantes. Aí, quando o time foi para a repescagem e a água bateu no pescoço, mudou para o 3-5-2 achando que seria a fórmula mágica e recorreu a jogadores que tinha usado pouco ou nada, como Jorginho, El Sharawy e Gabbiadini. Desespero total. No último jogo com a Suécia o time cruzou umas quatrocentas bolas, e os defensores suecos eram mais altos do que os atacantes. Sem falar que deixou três zagueiros em campo até o fim contra um time que não atacava e não usou o Insigne, um dos poucos dribladores do futebol italiano.

Os 'senadores' foram perdendo a confiança no Ventura, e dois episódios mostram isso. Segundo a Sky, emissora de tevê, depois da derrota na Suécia alguns jogadores foram falar com o Ventura e sugeriram mudanças na escalação e na forma de jogar. Ele ficou furioso, ameaçou pedir demissão e disse que faria suas próprias escolhas. O outro foi durante o jogo. De Rossi ficou louco da vida por ter sido sacado do time, e quando o assistente técnico, no meio do segundo tempo, pediu para ele ir se aquecer, levou uma resposta atravessada. Sem sequer se levantar do banco, ele falou: “Pra que me colocar? Precisamos vencer, e não do empate.” E apontou para Insigne, que deveria ter entrado e ficou os 90 minutos no banco.

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O que significa para o futebol italiano ficar fora da Copa? Quais os prejuízos? Patrocinadores? Desinteresse no Campeonato Italiano?

Falei com amigos de lá e eles estão arrasados. Muito menos gente vai comprar pacotes para ir à Rússia, muito menos gente vai ver os jogos pela tevê, os jornais não terão aquelas tradicionais edições com mais tiragem com cobertura de jogos da Azzurra e enviarão equipes menores, os patrocinadores vão pagar menos pelos anúncios... Quem já teve a chance de cobrir algum jogo da Itália numa Copa ou Eurocopa sabe o que é a “Casa Azzurri”, ou “casa dos azuis”. É um espaço espetacular bancado pelos patrocinadores e montado perto da concentração.

Abriga as salas de entrevista, a sala de trabalho para a imprensa, estúdios para a RAI e a Sky apresentarem seus programas, sala de convivência e restaurante. Por conta dos patrocinadores, durante todo o dia são servidos frios, pratos quentes, vinhos, cervejas, sorvetes, doces, sanduíches... E vira e mexe algum artista italiano vai lá à noite e se apresenta. O local vive cheio de jornalistas e convidados, com grande exposição para os patrocinadores. Mas na Rússia não haverá 'Casa Azzurri'...

A média de público do Italiano já caiu para apenas 22 mil torcedores. Era de 31 mil há dez anos. O que aconteceu? Só crise financeira, que espantou as grandes contratações e impediu a briga direta com espanhóis e ingleses pelas grandes estrelas?

É claro que se a Itália fosse o destino principal das grandes estrelas, como foi nos anos 80 com Maradona, Zico, Falcão, Sócrates, Júnior, Cerezo, Matthaus, Gullit, Van Basten e Platini, mais gente iria aos estádios. Acho que também conta o fato de a Juventus vir dominando o campeonato há seis anos, sem falar no declínio de Milan e Inter.

O líder do partida de extrema direita Liga Norte, Matteo Salvini, disse que a responsabilidade do vexame italiano é dos estrangeiros. Eles tiram o lugar de italinos com potencial. Você concorda? Ou ele tenta apenas se aproveitar do vexame?

Num momento como este é natural que surjam declarações oportunistas, mas ele não deixa de ter sua razão. O Napoli, líder do campeonato, tem só dois italianos entre os titulares – e um deles nasceu no Brasil, o Jorginho. A Juventus normalmente tem três, a Roma tem dois... A Itália ficou em terceiro no Mundial Sub-20 este ano, mas ninguém daquele elenco tem espaço num time grande. Os que pertencem a algum grande estão emprestados a equipes menores, e muitos não são titulares nem nesses times.

A Federação limita a dois o número de estrangeiros que cada clube pode contratar por temporada, e isso só se negociar um estrangeiro, mas essa medida tem sido inócua. Com a União Europeia, um alemão ou um português não são considerados estrangeiros. E as leis da União Europeia garantem a liberdade de circulação e trabalho para todos os seus cidadãos. A Itália não pode proibir a entrada de jogadores comunitários.

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Qual a reação da imprensa , já que você conhece e tem amizade com jornalistas importantes italianos?

A maioria está revoltada, considera o que aconteceu uma vergonha tremenda, e outros acham que era preciso acontecer algo drástico para que se comece do zero um trabalho capaz de tornar a seleção forte novamente, como a Alemanha fez por mais de uma década até ganhar o título em 2014. Mas todos, sem exceção, estão arrasados porque não verão a Itália em campo na Rússia.

Com as várias aposentadorias de líderes italianos, como o Buffon, quais jogadores serão responsáveis por reerguer o futebol italiano?

O jogador de que mais se espera que seja um líder técnico é o Verratti, mas já surgiram desconfianças sobre se ele será capaz de fazer isso. Ele é apontado já há alguns anos como o “sucessor do Pirlo”, mas ainda não mostrou na seleção o futebol que mostra no PSG. É o mesmo caso do Insigne. A Itália está bem servida para substituir os zagueiros, porque tem bons jovens para a posição como Rugani, Caldara e Romagnoli. O problema é do meio para a frente. Não existem mais Pirlos, Del Pieros nem Tottis.

Qual a parcela de culpa da Federação Italiana no fracasso?

Grande, sem dúvida. A escolha do Ventura para treinar a seleção é injustificável, do nível da burrada que a CBF fez ao contratar o Dunga depois do vexame de 2014 sem que ele tivesse feito nada de bom nos quatro anos anteriores. O Carlo Tavecchio está sendo cobrado até pelo presidente do Comitê Olímpico Italiano, que dá dinheiro para a Federação, para renunciar. Em 2014, depois da eliminação no Brasil, o técnico Cesare Prandelli pediu demissão durante a entrevista coletiva depois da derrota para o Uruguai e foi seguido pelo Giancarlo Abete, que era o presidente da Federação.

A Itália clama para que o Tavecchio saia junto com o treinador, mas ele não dá mostras de que esteja disposto a largar o osso. Se ele sair, o nome forte para assumir o cargo é o Demetrio Albertini, que foi jogador do Milan e da seleção e foi dirigente da Federação na gestão do Abete.

Qual o treinador indicado para comandar o renascimento italiano? Ele terá de abrir mão de ganhar um salário tão alto quanto em um clube?

Os quatro nomes mais citados nas enquetes feitas pelos veículos de comunicação italianos são Carlo Ancelotti (sem clube), Massimiliano Allegri (Juventus), Antonio Conte (Chelsea) e Roberto Mancini (Zenit), e pelo que me dizem o mais provável é que o escolhido seja o Ancelotti. É claro que não terá o salário que teria num grande clube da Europa, mas com certeza receberá bem mais do que o 1,5 milhão de euros que o Ventura recebia. Um jornalista amigo dele me disse que o convite, se vier, chegará em boa hora para o Ancelotti. Ele já ganhou muitos títulos em diferentes países e agora seria bom trabalhar sem o estresse do dia a dia no campo, podendo ver muitos jogos, viajar e reunir os jogadores uma vez por mês.

Há como comparar a vergonha dos italianos com a que os brasileiros sentiram nos 7 a 1?

Sem dúvida. Hoje os italianos se sentem alvo da chacota mundial, e sabem que não há como fugir disso. A Islândia irá à Copa e a Itália verá os jogos pela tevê. E, como aconteceu com o Brasil, o vexame foi em casa, com estádio todo a favor. No caso da Itália, diante de um adversário ruim como a Suécia.

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Taticamente, como você mesmo vem escrevendo, clubes italianos têm jogado de maneira moderna, com a bola no chão, com intensidade, dinâmica ofensiva.
Por que a Seleção Italiana atuava de maneira tão atrasada, insegura, sem consistência ofensiva? Só culpa do Ventura?
E ninguém reagia? Como os jogadores? A impressão é que a Itália atua como na década de 90. Marcando forte e só contragolpeando.

Esse foi um dos pecados do Ventura. O bom momento dos times italianos, com um jogo conectado com o que grandes equipes da Europa mostram, jamais se refletiu na seleção. Napoli, Juve, Roma, Inter e Lazio jogam com a bola no chão, apostam em meio-campistas técnicos e em três homens na frente, mas o time de Ventura sempre foi vulgar. É incrível a diferença, para o bem e para o mal, que um técnico pode fazer. Na última Eurocopa, sob o comando do Conte, a Itália deu um banho na Espanha e ganhou por 2 a 0. Depois, caiu nos pênaltis diante da Alemanha num jogo que poderia ter ganho.

E quase com o mesmo grupo o Ventura nunca teve uma cara definida, levou um chocolate da Espanha em Madri por 3 a 0 sem ver a bola porque não tinha gente nem para tentar tirar a bola dos espanhóis nem para construir jogadas. Ele só dirigiu times pequenos, passou a vida armando os times para jogar na defesa. Dirigir uma seleção tetracampeã do mundo era muita areia para o caminhão dele, e a prova é que em 180 minutos de bola rolando contra um adversário modesto como a Suécia a Itália não fez um gol sequer.

Você é um amante do futebol italiano, cobriu o país nas últimas Copas do Mundo, esta era a pior seleção que você jogar? Quais foram os jogadores que decepcionaram nas Eliminatórias? Você considera a geração muito fraca?

O grupo não era uma maravilha, mas poderia ter rendido mais. Como eu disse anteriormente, talentos como Pirlo, Totti e Del Piero fazem falta, porque eram acima da média. Mas, mesmo sem um craque indiscutível, a Itália poderia ter jogado melhor. O Napoli não tem uma grande estrela, mas joga muito bem e lidera o campeonato porque tem um ótimo treinador (Maurizio Sarri) e seus jogadores têm confiança e entrosamento. Mas não se pode jogar a culpa pelo fracasso só nas costas do Ventura. O Parolo foi invisível nos dois jogos com a Suécia, os centroavantes (Belotti e Immobile) perderam gols que não podiam perder, o Verratti foi muito mal... Não houve conjunto nem organização, mas também não apareceu um jogador que assumisse a bronca e mostrasse o caminho para os outros.

Há algum aspecto positivo para a Itália nesta eliminação da Copa da Rússia?

Se o vexame servir para a Federação iniciar um trabalho de reconstrução da seleção e para os clubes se tocarem de que precisam dar mais espaço para os jogadores que formam, ótimo. Se for para empurrar a sujeira para baixo do tapete, vamos acabar descobrir que é possível descer mais e que o fundo do poço ainda não chegou.
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