82 O renascimento de Jô. O alcoolismo quase acabou não só com sua carreira. A religião e a família o resgataram. Para o Corinthians, talvez para a Seleção. Com certeza, para a vida...
Artilheiro do Campeonato Brasileiro. No meio de uma pressão enorme da mídia para a volta à Seleção Brasileira, de onde saiu expurgado, desde a Copa de 2014. Peça fundamental da histórica campanha do Corinthians, líder do Brasileiro, 34 partidas sem derrotas.

Aos 30 anos, João Alves de Assis Silva garante ter renascido. A religião e o amor da família salvaram não só sua carreira. Mas sua vida.

Ele estava completamente dominado pelo alcoolismo.

Casagrande, comentarista da TV Globo, já quase morreu por causa da cocaína. Sabe como é difícil abandonar um vício. E conhece bem a história de recuperação dentro e fora do campo de Jô. E por isso, defende publicamente, a sua convocação.

"O Jô tem condições sim, independentemente de o Gabriel Jesus estar bem ou não", declarou Tite. Há grande possibilidade de o corintiano estar na lista dos chamados para os jogos contra Equador e Colômbia. O técnico deve aproveita a classificação antecipada do Brasil para a Copa da Rússia e fazer alguns testes.

Seus empresários, Kia Joorabchian e Giuliano Bertolucci acompanham o seu renascimento. E até vislumbram a possibilidade de retorno ao Exterior. Embora tenha contrato com o Corinthians até 2019, no final de 2017, se o clube for campeão brasileiro, podem buscar algo que não esperavam. Uma nova negociação para fora do país ao atacante.

Jô garante que tudo se deve à religião e à família.

As entrevistas que dá sobre este tema são diretas.

Como precisam ser.

E elas se complementam.

Trazem um quadro que tornam compreensível a decadência e a reviravolta.

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Como a que deu hoje ao Lance! Mostra mais uma pedra do triste quebra-cabeças. As confissões públicas passaram pela Fox Sports, Folha, globoesporte.com. Formam um relato não só assustador, mas didático.

Dados dos Alcoólicos Anônimos do Brasil apontam que são cerca de 20 milhões de alcoólatras no país. E este número não para de crescer. Principalmente em jovens. E mulheres.

O álcool mata a cada ano 3,3 milhões de pessoas (uma em cada 20 mortes). Mais do que a Aids, a tuberculose e a violência juntos, divulga a ONU, que teme um agravamento da situação. Mais de 200 doenças estão ligadas ao consumo de álcool, de acordo com um relatório da Organização Mundial da Saúde.

As fotos dessa matéria mostram até onde Jô chegou.

Havia piores.

"Eu não tenho vergonha de falar e vou responder sempre que me perguntarem, porque com certeza vai servir de exemplo para alguém, para não fazer as coisas que fiz. Se eu não tivesse feito tanta coisa talvez tivesse jogado em clubes maiores na Europa, talvez estivesse na Europa ainda hoje. Mas talvez tudo isso também tenha sido para o meu aprendizado.

"Foi tudo em 2014, quando eu vi que tinha saído de uma Copa do Mundo e tinha perdido meu futebol. Estava perdendo a vontade de jogar futebol, perdendo prazer. Tinha acabado de me separar da minha esposa com um filho de três meses, então ali eu vi que estava no fundo do poço e não estava percebendo, achava tudo natural. Imagina um atacante que estava há quase sete meses sem fazer gol, isso não tem cabimento.

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"Quando eu era muito novo morava com meus pais e não saia. Eles eram muito rígidos. Até porque perdi meu irmão com 15 anos. Eram duas irmãs e dois homens. A pressão se voltou para mim. Meu pai me pressionou muito. Às vezes, saia escondido, mas não bebia. Acabava um jogo, eu saia como todo ser humano faz. Aí, ali você começa a ganhar gosto. Vai duas vezes ao mês, vai toda semana. Quando vê, se pega saindo quase todo dia. Mas ainda era meio controlado.

"Quando fui pra Rússia que as coisas saíram do controle. Comecei a beber. Em vez de ser uma vez na semana, eram três, quatro vezes. Sem dormir, aí você começa a perder o controle.

"Depois eu casei e voltou a ser mais tranquilo. Só que como você começa a ganhar fama e dinheiro, você quer fazer as coisas escondido. Aí começa a dar os problemas. Você começa a brigar em casa. Você briga e quer sair. Ela discutia comigo, eu saia. Quando ela ia embora, eu ficava sozinho. Aí sozinho você pensa besteira e começa a fazer coisa errada. Isso foi por muito tempo, estou casado há dez anos.

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"Alguns treinos que faltei por causa de noite. Ou voos que perdi porque bebi muito e não me apresentei. Me arrependo, porque sou profissional. Graças a Deus, nunca passei perto da morte, um acidente de carro.

"Teve um episódio no Inter que deixei de viajar para um jogo na Libertadores, que foi contra o The Strongest. Bebi um dia antes. O jogo era numa quarta-feira, íamos viajar numa segunda-feira. Acabou o jogo do (Campeonato) Gaúcho no domingo e fui beber. Saí e cheguei tarde em casa. E dormi. Estava separado na época. Até acordei no horário, mas de ressaca, não tinha como. E não fui. Muita coisa saia na mídia. Poderia ter me resguardado mais, minha família, minha esposa.

"Foi o álcool. Nunca mexi com outra substância. Nunca tive nem intenção de experimentar. Mas é através do álcool que você faz outras coisas, você parte para a traição. Você vai entrando em um caminho realmente sem fim. Não tenho medo [recaída] porque já vivi os dois lados. Já vivi o outro lado, o lado negro.

"Rolava traição à minha esposa. Me deixava levar.

"Em um momento, meu pai falou à imprensa que tinha medo que eu virasse 'um novo Adriano'. Pai é um sentimento que... Hoje sou pai e entendo. Na época, fiquei chateado, mas pai é pai. Nunca quer ver o filho em situação de desespero. Até para chamar atenção, ele falou aquilo. Mas eu entendo perfeitamente, porque sempre vou querer o bem do meu filho e tudo que puder fazer por ele, vou fazer.

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"Minha mulher sempre acreditou na minha mudança e esteve do meu lado nos problemas extracampo. Meus pais também sempre estiveram do meu lado e pediam para eu pensar no que estava fazendo. Se eu não tivesse essas pessoas, acho que hoje eu nem estaria aqui. Acho que estaria numa pior. De repente até uma morte por dirigir bêbado diversas vezes.

"Esse período durou quatro ou cinco anos. Foi desde o fim da minha passagem pelo City, quando me desequilibrei emocionalmente, em questão de brigar muito com minha esposa e realmente me entregar às bebidas. No Internacional foi uma das piores ou a pior passagem que eu tive. E uma parte no Atlético Mineiro. Foram uns quatro ou cinco anos de desequilíbrio da minha parte pessoal.

"Hoje eu acho muito difícil ter uma recaída. Não vou falar impossível, porque essas coisas não podemos cravar. Se você se desviar da palavra de Deus você cai. Mas eu procuro estar me vigiando, estar firme no propósito, porque aí sim posso dizer que não vou recair. Eu estou sempre me vigiando, procuro não ir a lugares com bebidas, festas, sou muito caseiro e estou sempre atento, sem dar brecha.

 O renascimento de Jô. O alcoolismo quase acabou não só com sua carreira. A religião e a família o resgataram. Para o Corinthians, talvez para a Seleção. Com certeza, para a vida...

"Ainda tenho uma esposa muito especial sempre comigo, minha mãe é obreira da igreja, então estou fortalecido nessa parte espiritual para não errar mais. Não posso achar que sou o mais forte do mundo, tenho que estar sempre atento, sempre me vigiando. Eu não quero trocar a vida que eu levo pela vida que eu vivia, não quero voltar. Por isso me alimento da palavra de Deus e foco no que eu quero. Hoje levo uma vida segura, convertido há três anos.

"Minhas ações acho que já mudaram muito a minha imagem, o homem que me tornei tem um certo respeito, eu mostrei para o Brasil realmente, porque tinha ficado fora e muita gente tinha dúvida. Agora consegui mostrar que sou um novo homem. E aí começa a voltar o sonho de voltar à Seleção Brasileira. Não vou me frustrar se não for na próxima convocação, vou continuar até a última convocação antes da Copa, porque quando você tem esperança e fé as coisas podem acontecer. Tenho esperança e fé, estou fazendo um grande ano, e agora é aguardar."
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