O presidente do São Paulo mantém na diretoria Ataíde, apesar de expulso do Conselho Deliberativo. Leco pensa apenas na sua reeleição. E, na Suíça, Jamil Chade se recusa a carregar a tocha olímpica. Duas realidades bem diferentes...
Conversava ontem à noite com com um conselheiro importante do São Paulo. E fiquei espantado com a postura de Carlos Augusto de Barros e Silva. O presidente que é tratado como Leco. Ele não aceitou a demissão de Ataíde Gil Guerreiro. O homem que foi expulso pelo Conselho Deliberativo do clube, na segunda-feira.

Leco o quer no cargo, como diretor de relações institucionais. "Eu não aceitei o pedido de demissão dele, ele continua diretor de relações institucionais do São Paulo. Recebi por e-mail a mensagem dele escrita, com o pedido de demissão anexo e eu nem sequer li, nem abri o anexo. Decidi no fim do dia de ontem e liguei para ele dizendo que minha decisão era de não aceitar a demissão. Falei que queria que ele prosseguisse, e ele se mostrou muito sensibilizado. Ele teve um momento de emoção e de alegria, e aceitou", disse ao UOL.

Pois bem, o que leva um presidente a enfrentar a decisão de seu Conselho Deliberativo? Desprezar que Ataíde era vice de Carlos Miguel Aidar. E sabia de todas as negociações como a de Maidana, participação de Cinira Maturana nas transações envolvendo fornecedor de material esportivo, com a namorada de Aidar podendo ganhar comissão do clube, o oferecimento de rachar comissão na vinda de Gustavo, jogador da Portuguesa, comissão mal explicada para advogado que cobra R$ 100 mil de vários clubes e R$ 8 milhões do São Paulo?

E que, em vez de Ataíde levar as denúncias ao Conselho Deliberativo, resolve chantagear Aidar? E depois agarra o pescoço do presidente em uma reunião.

Por que Leco o quer no cargo? Porque Ataíde é o comandante do grupo de conselheiros Legião. Formado por cerca de 30 conselheiros influentes é uma das bases da eleição do atual presidente. Como todos sabem no Morumbi, Leco já assumiu pensando na sua reeleição. O novo pleito está marcado para abril de 2017.

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A Legião, ao lado do grupo Vanguarda, sustentam Leco no cargo. Ataíde é muito influente nas duas alas. Sua saída da diretoria poderia significar o fim do sonho de novo mandato. Até porque a atual diretoria está sendo muito criticada. Os resultados pífios do futebol se juntam com o descontentamento com a falta de patrocínio master. A estagnação diante do Morumbi ultrapassado. A falta de pressão para que o prometido metrô chegue no estádio. A crescente dívida.

Por isso, para tentar se manter no cargo, Leco enfrenta o Conselho Deliberativo.

Mantém na diretoria o homem que foi expulso como conselheiro.

Porque sabe que precisa de sua influência para ser reeleito.

Essa situação me lembrou outra. Completamente diferente. E que mostra que o ser humano ainda merece crédito.

O Comitê Olímpico Internacional descobriu a publicidade que traz a tocha olímpica. Partindo do país que foi berço da competição, a Grécia, ela viaja milhares de quilômetros até onde acontecerão os jogos. No trajeto até o Rio de Janeiro, 12 mil pessoas a carregarão por pequenos trechos.

Políticos, celebridades, atores, esportistas e até jornalistas farão parte desses 12 mil selecionados. Terão direito a fotos, vídeos. Quanto mais famoso, melhor. O cantor sertanejo Luan Santana, 'importante' figura na divulgação dos esporte olímpicos, já está confirmado, por exemplo.

Até a capitalista Coca Cola usa a sua força econômica e premia alguns consumidores com o direito de carregar o símbolo, pelas ruas do Brasil.

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Pelo menos um convidado do COI não aceitou.

Ele se chama Jamil Chade. É um dos jornalistas mais importantes desta geração. Correspondente do Estado de São Paulo na Suíça. Revelou as falcatruas, a corrupção da Fifa, de administrações da CBF, da Copa do Mundo no Brasil. Mostrou o drama dos imigrantes que buscam refúgio na Europa. Relembrou em detalhes o drama de Chernobyl. Enfim, é uma referência como repórter. Por isso tantos prêmios.

Pois bem, ele acaba de recusar convite para carregar a tocha.

Aqui, a sua resposta, brilhante, digna. Muito digna...

A TOCHA EM NOSSAS MÃOS

"Há alguns meses, recebi um convite do COI para ser uma das pessoas que levaria a tocha olímpica no Brasil. Em comum acordo com o jornal, recusei o convite. E por uma simples razão: meu papel é o de cobrir o evento e informar ao cidadão o que ele está ganhando, perdendo ou pagando por isso. Meu papel não é o de fazer parte da "família olímpica".

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"Sempre tive sérias hesitações em relação ao percurso da tocha, um instrumento da propaganda nazista e usada por Hitler para promover seu regime antes dos Jogos de Berlim de 1936.
Hoje, entendo que a propaganda seja outra: a dos valores dos direitos humanos, do respeito e do movimento olímpico.

"Quando o COI organizou o evento para acender a tocha, na Grécia na semana passada, um dos recados dos dirigentes era de que aquele símbolo poderia unir de novo um Brasil que vive sua pior crise como nação em décadas.
Nesse aspecto, discordo de forma profunda. Não precisamos de um símbolo para nos unir. Não é isso que ergue uma democracia. Numa sociedade cada vez mais intolerante, o que precisamos, no fundo, é da capacidade de respeitar a diversidade e diferentes opiniões, sempre que não usem os instrumentos democráticos para prestar tributo a torturadores e corruptos.

"Precisamos de uma sociedade pluralista, mas cada vez menos desigual. Uma nação cada vez mais sólida em sua multiplicidade de atores. Mas cada vez menos classista, racista e xenófoba.
Se a tocha for apenas mais uma manobra para cegar a multidão, ela está fadada ao fracasso. Se ela for o palanque daqueles que estarão empunhando a tocha "por Deus, pela minha cidade e pela minha família", melhor nem começar.
Mas se ela for o espaço para reconhecer o outro e seu papel, temos uma boa chance de transformar o evento numa surpresa aos organizadores. Está literalmente em nossas mãos.

"E é por isso que, a partir da semana que vem, quando a tocha começar a percorrer o Brasil, vou estar aplaudindo de pé meus companheiros e outros tantos que também tiveram a honra de receber o convite. E por uma simples razão: respeito a decisão de cada um desses profissionais – muitos deles meus ídolos de infância – de empunhar a tocha.
Eu, de minha parte, vou estar empunhando o lápis, o caderno e o microfone, no que acredito ser meu papel. Mas não deixarei de estar emocionado por aqueles que vão lustrar os anéis olímpicos com seu sentido de ética e, cada qual de sua própria maneira, promovendo uma silenciosa insurreição das mentes. E, de repente, nem tão silenciosa.

Que venha a tocha!"

Ou como diria Leco, que fique o Ataíde...
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