152 O porco de Viola pôs fim de jejum ao Palmeiras. E como evitei que Ronaldo espancasse Zé Aparecido
13 minutos do primeiro tempo. Falta para o Corinthians na lateral direita da grande área. Jogada ensaiada por Nelsinho. Neto cobra do outro lado. Viola sabia onde a bola cairia. Correu, livre e se joga no ar, esticando o corpo. O pé esquerdo consegue o desvio. A bola vai para o fundo do gol de Sérgio. E o atacante cai atrás das gol.

Cercado de câmeras e repórteres, ele fica de quatro. E começa a grunir como um porco. Revolta generalizada da torcida palmeirense. Delírio dos corintianos. Eles dividiam o Morumbi lotado naquele 6 de junho de 1993.

"Todo mundo procurando o porco. E o porco está no fundo do gol. O gol vai para a minha mãe, que deve estar fazendo uma feijoada, cheia de carne de porco." E primeiro jogo das finais do Paulista termina 1 a 0 para o Corinthians.

Desci para os vestiários corintianos e percebo que o clima não era de festa, como eu imaginava. Nelsinho e os demais jogadores estavam muito preocupados. Viola estava tenso. Todos sabiam que o Palmeiras da Parmalat tinha um time muito forte. E a imitação do porco não foi motivo de risadas, humilhação. Muito pelo contrário. Dirigentes, técnico e demais companheiros ficaram irritados.

"O Viola não deveria ter imitado o porco. Quando eu vi, corri, saltei sobre ele. Outros jogadores fizeram a mesma coisa para tentar encobrir, disfarçar. Mas todos já tinham visto e ouvido. Perdemos o título paulista naquela comemoração. E o Viola sabe disso", me disse Paulo Sérgio, anos depois.

O motivo secreto daquela comemoração remonta à final do Campeonato Paulista de 1988. Com apenas 21 anos, Viola marcou o gol do título, contra o Guarani. Aos quatro minutos do primeiro tempo da prorrogação, contra o time campineiro, que era melhor que o corintiano. Wilson Mano chutou errado e o jovem atacante desviou a bola para as redes.

Marqueteiro, ele entrou em campo com duas camisas. E ao marcar o gol no Brinco da Princesa, correu até a torcida corintiana, ele tirou uma e a atirou para os torcedores. O Corinthians foi campeão e Viola virou manchete no Brasil todo, naquele tempo, o Campeonato Paulista era tão importante quanto o Brasileiro. Os clubes não haviam descoberto a Libertadores.

No dia seguinte, como era praxe, o Jornal da Tarde mandou uma ótima repórter e ex-apresentadora de tevê, Wania Westphal, ir até a casa de Viola. Sua missão era fazer um perfil da jovem promessa. Ela foi muito bem recebida. A partir de agora, o relato é dela, direto do Canadá, onde está morando.

"Eu cheguei muito cedo na casa que ele morava com a mãe e o irmão, na Vila Brasilândia (periferia de São Paulo). A mãe me mostrava o quarto, a cama em que ele dormia tinha um boné verde e branco. Eu perguntei para mãe dele, o Paulo Sérgio (nome do Viola) é palmeirense? Ela respondeu sim. "O pai e o irmão são santistas. Mas o Paulo Sérgio é palmeirense.")

A matéria teve grande destaque e repercussão.

Cinco anos depois, Viola quis aproveitar a chance para provar que não tinha mais ligação nenhuma com o Palmeiras. E escolheu da maneira mais ofensiva possível.

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Eu cobria o Corinthians naquela decisão histórica. No Parque São Jorge, dirigentes e jogadores comentavam, em off, que tinham medo do poderio financeiro da Parmalat. E que a empresa gastaria o que fosse para 'comprar' o título. A desconfiança da Federação Paulista era gigantesca. E mesmo se o Papa fosse escolhido para apitar, irmã Dulce para ser a bandeira vermelha e Madre Teresa de Calcutá, a amarela, os corintianos tinham a certeza que o trio fazia parte do 'esquema Parmalat'.

Lembro muito bem que o clima no Corinthians, graças ao porco de Viola, ficou de puro nervosismo. O Palmeiras estava há 16 anos sem conquistar qualquer título. E havia a certeza que Vanderlei Luxemburgo, no auge da sua carreira, iria insuflar seu excelente time com a provocação do atacante. E realmente, em Atibaia, o treinador mostrou todos os dias para os seus jogadores, a comemoração. E perguntava.

"Vocês não têm vergonha na cara? Não têm culhões? Como vão encarar suas esposas, seus filhos, seus pais, seus amigos. O Viola humilhou todos nós. Temos de dar o troco. Não na porrada. Na bola. Ganhar, golear, matar o Corinthians, na bola. Na bola, caralho! Na bola!", me detalhou, anos depois um importante jogador palmeirense.

O Jornal da Tarde sempre fazia cadernos completos e com direito a várias exclusivas do time campeão. O que acontecia era óbvio. Os setoristas faziam entrevistas dos dois times. Preparávamos 70% do caderno com antecedência. Foi o que fizemos naquele 1993. Entrevistei Nelsinho Baptista, Neto e Ronaldo. Tive de fazer o perfil de Viola com tudo o que ele falou até o jogo anterior. Ele não queria falar naquela semana. Havia percebido o erro que foi imitar o porco.

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Caprichei, escrevi o melhor do que pude. Fiz esses cadernos antecipados em várias finais. Mas aquele estava diferente. Não sentia convicção nos corintianos. Eles sabiam que o Palmeiras tinha um time mais poderoso. Havia a suspeita do 'esquema Parmalat'. E todos temiam a vingança pela provocação de Viola.

O tom do caderno que nunca saiu elogiava a superação corintiana. A vitória do coração contra os milhões, já que a multinacional italiana formou uma Seleção Brasileira no Palestra Itália. Viola personificaria a confirmação da ousadia.

Na véspera do jogo decisivo, faleceu o pai do zagueiro e um dos líderes do time, Marcelo Djian. O clima ficou ainda mais pesado no Corinthians. O time entra com uma faixa negra, em sinal de luto na final.

A Federação Paulista de Futebol escolheu o juiz José Aparecido de Oliveira. Repetindo, fosse qual fosse o árbitro, a desconfiança seria a mesma. Mas o nome foi 'caprichado'. José Aparecido havia tomado uma cusparada de Neto em 1991, no clássico exatamente contra o Palmeiras. A escolha foi completamente descabida e tirou o que restava de concentração dos corintianos. Todos temiam uma 'vingança'.

As organizadas palmeirenses decidiram não se vingar só de Viola. Mal ele pegava na bola era xingado de todos os palavrões que existem na língua portuguesa. Mas provocar Ronaldo. Usaram a tática que repetiriam na final do Brasileiro, em 1994. Descobriram que a noiva do goleiro se chamava Andreia. E criaram uma música deplorável. "Andreia vagabunda..." O resto é impublicável. E este coro foi ganhando força no estádio, irritando o personalista Ronaldo que, na época, era muito explosivo.

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O Palmeiras fez o que quis do Corinthians. Atuou muito melhor, sem dar chance para os contragolpes sonhados por Nelsinho. Viola nem pegou na bola. Vitória por 3 a 0 durante os 90 minutos, gols de Zinho, Evair e Edilson. Na prorrogação, os corintianos precisavam vencer. Mas a vitória foi outra vez do Palmeiras, 1 a 0, gol de pênalti de Evair.

José Aparecido só cometeu um erro grave. Não expulsou Edmundo depois de uma entrada violentíssima em Paulo Sérgio, quando estava 1 a 0 para o Palmeiras. Deu apenas amarelo.

Com o Corinthians descontrolado, o árbitro expulsou Ronaldo, Henrique e Ezequiel. O palmeirense Tonhão também tomou vermelho. O juiz acertou. O quarteto mereceu o cartão vermelho.

Jejum encerrado. E justo diante do maior rival.

Desci as escadas do Morumbi irritado. Não por causa do Corinthians. Mas, jornalista vaidoso, percebi que trabalhei muito à toa. Sabia que as minhas matérias, que ficaram ótimas, não sairiam. Estava indo para o vestiário corintiano, mas, antes, decidi tomar uma água naquele sábado tenso. Tinha a convicção que meu espaço seria pequeno, com a derrota do time de Nelsinho.

Viola não quis falar. Não poderíamos imaginar que, três anos depois, atuaria pelo time de seu coração.

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Eu estava atravessando o estacionamento interno do Morumbi, estava vazio. Quando vejo Ronaldo trocado, andando de um lado para o outro. Estava alucinado. Esqueci o vestiário e sabia que aconteceria alguma coisa importante.

Me aproximo do goleiro. Ele me fulmina com os olhos, detestou me ver. Fiquei sem entender. Até que José Aparecido de Oliveira surge e caminha em direção ao seu carro. Somei um mais um.

Ronaldo se prepara para correr em cima dele. Não sei o que me deu. Ou melhor, até sei. Vi a estupidez que o goleiro iria fazer. Ele sempre me atendeu bem, deu ótimas entrevistas. Optei pelo jornalismo participativo. O segurei pela cintura. Atitude surreal.

Ronaldo não esperava minha atitude. Nem eu. Começa a gritar. "Me solta, me solta, solta." Em uma atitude quase paternal, eu grito na sua orelha. "Se você bater no José Aparecido vai acabar com sua carreira." Ele seguia transtornado. Mas os segundos que perdeu para se livrar de mim, deram tempo do juiz entrar no seu Opala.

Raivoso, Ronaldo começa a chutar a porta, socar o carro, que sai do estádio. O goleiro xinga Zé Aparecido de todos os nomes e vai embora, sem olhar para trás. Publico a história com detalhes.

Encontrei o goleiro na semana seguinte no treinamento Corinthians. Ele me viu, apenas levantou o polegar, agradecendo, em silêncio. Nunca tocamos no assunto.

Levei uma bronca no jornal e de colegas de outros veículos, por não ter deixado Ronaldo agredir José Aparecido. E que não é papel do jornalista interferir no fato. Sou humano. Previ as óbvias consequências. Se tivesse de fazer de novo, faria. Fosse qualquer jogador de futebol.

Se a final de 1993 acabou sendo inesquecível para inúmeros jornalistas palmeirenses da redação do JT que, comemoraram, alucinados, para mim também foi.

Estava do lado perdedor.

Do lado que nunca tem o direito de contar a sua versão da história...

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