145 O perfume de Beckham. Konga. A vingativa canelada em Keane. A noitada do United no Rio
Danceteria Nuth.

Barra da Tijuca.

Janeiro de 2000.

22 horas, 35 graus.

A proporção dos sonhos. Três mulheres para cada homem. De socialites, surfistas, executivas, jornalistas a funkeiras. Inesquecível perfume francês no ar. Minissaias, barrigas de fora, marcas de biquíni. Bronzeados estonteantes.

Lindas.

Open bar.

Uísque 12 anos, champanhe, cerveja, água de coco à disposição.

Festa mais do que fechada.

Caí totalmente de pára-quedas. Havia chegado esbaforido no Rio de Janeiro para acompanhar os últimos treinos do Corinthians, antes da final do Mundial, contra o Vasco, no Maracanã. As matérias daquela sexta-feira já estavam no Jornal da Tarde. Quando telefono para um jornalista amigo, para convidá-lo para jantar.

"Não, quem convida sou eu. Você não vai acreditar onde vamos. Não vou contar, na hora você vai ver. Mas se arruma. Tem que estar bem vestido. O lugar merece. Mas leva a credencial."

Sabia que havia algo de diferente. Esse jornalista era uma reencarnação dos mais radicais hippies da década de 60. Adorava chinelos de sola de pneus. Mas fiz o combinado. Os dois potes de gel que ele usou no cabelo, camisa de manga curta e os mocassins novos, com um irritante pingente de couro, denunciavam. A festa era 'de gala' para os seus padrões.

Procurei me arrumar a caráter.

E não esqueci da credencial.

Logo na entrada da danceteria, vejo o mar de mulheres deslumbrantes se dividir. Abrir em dois lados. E no meio delas, um grupo de homens passa falando inglês, rindo. Estavam todos animados. Sem nenhum segurança.

Era mais do que surreal.

Neville, Roy Keane, Giggs, Jordi Cruyff, Andy Cole, passando com calças jeans apertadas, camisetas mais ainda.

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De repente, as mulheres começam a se cutucar, os rostos ficam vermelhos, ficam paralisadas. Não têm coragem para chamá-lo. Os olhos brilham esperançosos. E o loiro passa entre elas sem olhar. Está mais preocupado com Andy Cole.

Como eu estava perto da porta, sinto que seu perfume é mais forte do que o de todas as cariocas que o observam.

David Beckham.

Na entrada, sou obrigado a mostrar a credencial do Mundial da Fifa.

E finalmente entendo.

Os organizadores do Mundial resolveram dar uma festa de despedida para o Manchester United. O time havia sido eliminado da fase final do torneio. Perdeu para o Vasco, empatou com o mexicano Necaxa. E apenas ganhou do South Melborne. Não chegou nem entre os quatro primeiros.

Mas os jogadores não estavam nem um pouco preocupado. O jornalista carioca me detalha.

"Os ingleses foram para a farra toda a noite. Mesmo durante o dia, depois do treino, cerveja. Não saíam da piscina do hotel. Eles ficaram putos com o calor. Não sei se essa porra de Mundial vai dar certo. Os europeus não estão nem aí. Torneio típico para a Fifa ganhar dinheiro com a televisão. Isso não vai vingar."

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Naquela noite incrível de sexta-feira, não queria saber de sua previsão.

Só lembrei quando o formato foi cancelado. Estava cobrindo o Palmeiras e os conselheiros e torcedores queriam matar assado o então presidente Mustafá Contursi. Ele cedeu a vaga que seria do Palmeiras para o Vasco. Abriu mão por causa de Jota Hawilla, o dono da Traffic. Ele insistiu que o Vasco ficasse no lugar do Palmeiras, como um favor. O critério alegado seria a conquista da Libertadores de 1998 e de 1999, como deveria ser.

A competição precisava de um time carioca para jogar no Rio.

Mustafá aceitou. Acreditou na promessa de Jota Hawilla, que o clube estaria no segundo Mundial no formato itinerante que o próprio Hawilla havia convencido o então presidente Joseph Blatter a adotar. O Palmeiras seria o representante brasileiro do torneio, que seria na Espanha. Em 2001. Mas este torneio nunca aconteceu.

Voltando à Nuth, entrei na danceteria e havia, cerca de 200 mulheres. Éramos, no máximo, 70 homens.

Foi quando me senti, pela primeira vez na vida, um super-herói.

O Homem Invisível.

De nada adiantava estar perto, esbarrar, pisar no pé.

Nem se estivesse fantasiado de Konga, a Mulher Gorila, não seria notado.

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Todas dançavam e até bebiam como se fossem girafas, com a cabeça voltada para cima. Pouco se importando com o que acontecia ao seu redor. A felicidade estava no alto.

Os olhares das 200 mulheres só tinham um alvo.

O camarote do Manchester United.

E elas capricharam. Dançaram, sorriam, mostraram toda sua sensualidade para o time inglês. Desprezaram com todo o prazer o produto nacional.

Como o destino é cruel, estava no auge a música que Los Hermanos, que Marcelo Camelo renega. Anna Júlia.

O início da canção se tornou, de forma perene, amarrada àquela noite para mim.

"Quem te ver passar assim por mim não sabe o que é sofrer
Ter que ver você assim sempre tão linda
Contemplar o sol do teu olhar perder você no ar
Na certeza de um amor me achar
um nada pois sem ter teu carinho eu me sinto sozinho
eu me afogo em solidão."

Era isso, a solidão mais profunda, cercado de mulheres lindíssimas.

A solução foi então usar a credencial e ficar em um camarote perto dos jogadores do Manchester United. E reparar, com raiva, que eles não retribuíam a atenção. Não queriam saber das desesperadas musas. Longe disso, só queriam saber de tomar caipirinha.

A grande maioria estava vermelha, com a pele a um passo da insolação. Exageraram na piscina, no inclemente sol carioca.

A grande estrela, David Beckham, estava entretido com Andy Cole e Giggs. Passaram a noite toda bebendo, se provocado, trocando socos nos ombros. E beliscões na bunda. Sim, durante toda a noite, quem estava distraído, tomava seu beliscão. A brincadeira ficava mais ofensiva para nós, homens invisíveis, naquela noite. "Como é que eles podiam se divertir apertando um a bunda do outro, com tantas mulheres bonitas implorando por um olhar?", pensava.

Foi quando decidi ir ao banheiro. Vejo saindo pela porta Roy Keane. Para quem não se lembra, ele foi o autor do gol do Manchester United, na decisão do Mundial de Clubes de 1999, quando Felipão convenceu Marcos que Giggs só cruzava 'no primeiro pau'.

Quando o galês deixou para trás Júnior Baiano, que cobria Arce, bateu na bola, no estádio Nacional de Tóquio. Eram aos 34 minutos do segundo tempo, Marcos deu dois passos para a esquerda, como Felipão havia insistido que deveria fazer. A bola foi forte, o encobriu. E sobrou livre para Keane marcar o gol decisivo da final.

Lembro que o meu melhor amigo me ligou chorando, naquela manhã de domingo. Inconsolável. Como se tivesse morrido um parente. Ficou uma semana sem trabalhar.

Eu já estava irritado, cansado de ser o Homem Invisível. Assim que ele passou por mim. Me vinguei do meu amigo, das cariocas que não me enxergavam.

'Sem querer', acertei a canela direita que fez o gol contra o Palmeiras. Keane me olhou assustado. Falei um 'sorry' para evitar a briga. E sorri para o espelho. Deveria sentir vergonha, mas estava dominado pelo alívio.

Aquela tortura durou até a madrugada. Lá pelas duas e meia, os jogadores decidem ir embora. Desço para ver se aconteceria alguma coisa.

O ônibus carioca da organização não foi britânico. Atrasou pelo menos meia hora.

E vi outra cena incrível. Beckham; Keane, com a canela doendo, desejava; Jordy Cruiff, Giggs sentados, e outros que não reconhecia, sonolentos na calçada.

Milhões e milhões de dólares na sarjeta.

Lá pelas três da manhã, chega o ônibus.

E eles entraram rindo, entre eles.

Beckham ainda toma o último beliscão na bunda de Cole.

Fenômeno da natureza, seu perfume ainda ficou no ar.

Não é preciso detalhar a frustração das mulheres.

Elas foram embora em seguida.

Nenhuma virou Victoria Beckham dos trópicos.

Acordo e relato a noitada para o meu chefe.

Escrevo a matéria para o jornal.

Pulo a parte do Homem Invisível.

E principalmente do chute 'acidental' em Keane.

Porém conto ao meu parceiro de infância.

Nunca vi alguém tão agradecido quando detalho o incidente.

Era algo que deveria me envergonhar.

Mas a felicidade que o meu amigo sentiu me consola.

Esse meu pecado os deuses do futebol precisam perdoar...

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