137 O Ministério Público tem de acordar. E investigar a denúncia que a Globo pagou propina pelo futebol
A TV Globo mantém o monopólio do futebol no país há décadas. Desde a Ditadura Militar, essa ligação se estabeleceu e só cresceu. É quem controla as transmissões na tevê aberta. Não só da Seleção Brasileira, por sua cumplicidade com a CBF. Mas também nos grandes torneios. No país, o Brasileiro e a Copa do Brasil. A Globo também prevalece na Libertadores e na Sul-Americana.

Marcelo Campos Pinto foi o executivo que, por 19 anos, amarrou todos os contratos. Selou os acordos, sem exceção. Pessoalmente. Sabe o que tinha de fazer ou não, para conseguir que os jogos fossem mostrados pela emissora carioca.

Vaidoso, fazia questão de não esconder seu poder. Era presença constante em almoços e jantares em restaurantes caríssimos com Ricardo Teixeira, José Maria Marin, Marco Polo del Nero. Voava em helicópteros, jatinhos com os presidentes da CBF. Era adulado.

Personificava a Globo.

Os dirigentes o enchiam de mimos e confiavam plenamente nele.

Assim como os donos das agências de marketing que controlavam os direitos de transmissão das competições.

Campos Pinto estava no auge.

E conseguindo amarrar os clubes de grande audiência, estava rebelando o terremoto que atingiu a Globo com a chegada da bilionária Turner, por trás do Esporte Interativo. Assim como quando implodiu o Clube dos 13, em 2011.

Estava no clímax do tsunami, quando estouraram os escândalos na Fifa. Era maio de 2015, quando o FBI e o Departamento de Justiça prenderam nove executivos do alto comando da Fifa. Três em Miami. E seis na Suíça, entre eles, José Maria Marin. A acusação era o recebimento de suborno, propina. Dinheiro que receberiam por fora para votar na escolha dos países que sediaram Copas. E também o 'por fora' para fechar acordo de transmissão de competições.

O escândalo estourou no dia 27 de maio, com as prisões. Por coincidência, Campos Pinto se afastou das negociações e em junho, foi anunciada a sua aposentadoria da emissora no final daquele ano. Houve um enorme estranhamento. Para evitar que as pessoas fizessem a ligação óbvia, a Globo garantiu que a aposentadoria do executivo já estava programada.

Marcelo Campos Pinto nunca falou uma palavra sobre a sua saída.

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Informalmente e de maneira discreta, deu consultoria à CBF de Marco Polo.

Seu nome estava esquecido dos noticiários.

Até ontem.

De Nova York, onde José Maria Marin está sendo julgado, veio a bomba. Pela primeira vez na história, um personagem importante na organização e vendas dos campeonatos sul-americanos, disse abertamente que a Globo pagou propina para dirigentes para ter seus campeonatos. Acertava um valor oficial para a CBF, Conmebol. Mas além disso, dava dinheiro diretamente aos dirigentes, o suborno, para transmitir os torneios que a interessava.

Ele é argentino e se chama Alejandro Burzaco. É ex-presidente e proprietário da agência Torneos y Competencias. Dona dos direitos da Copa Libertadores, da Sudamericana , do Mundial de Clubes, da Copa América, das de Eliminatórias Sul-Americanas e dos jogos da Seleção Argentina. Ele estava no luxuoso hotel Baur au Lac em Zurique, quando o FBI prendeu os dirigentes da Fifa. Havia ordem de prisão contra ele. Mas ele fugiu, disfarçado de turista. Sua fuga foi cinematográfica. Ficou 13 dias foragido na Itália. Até que decidiu se entregar, na cidade de Bolzano.

Extraditado aos Estados Unidos, reconheceu ter pago propina a dirigentes de toda América do Sul. E intermediado o pagamento de várias redes de tevê a estes dirigentes corruptos. Arcou uma multa de 21,6 milhões de dólares, R$ 71,5 milhões. Fez um acordo de delação com a justiça norte-americana.

E aceitou ser testemunha de acusação dos dirigentes a quem teria pago suborno. Juan Manuel Napout (ex-presidente da Conmebol e da federação paraguaia), Manuel Burga (ex-presidente da federação peruana) e o nosso representante, o ex-presidente da CBF e ex-governador biônico de São Paulo, José Maria Marin.

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O promotor Samuel Nitze perguntou abertamente, ontem, se havia alguém no tribunal a quem havia pago propina. A resposta de Burzaco foi direta. "Juan Napout, Manuel Burga e José Maria Marin. Paguei propina a todos eles." Nitze quis saber mais. "Quando?" Sem titubear, o argentino expôs os detalhes. "Para Marin, de 2012 a 2015. Para Burga, de 2010 a 2013. Para Napout, de 2010 a 2015."

Foi quando veio a pergunta se havia Burzaco havia feito parceria com empresas para pagamento de propina. "Com várias. Fox Sports dos Estados Unidos, Televisa do México, Media Pro da Espanha, TV Globo do Brasil, Full Play da Argentina, Traffic do Brasil, Grupo Clarín da Argentina. Várias. A única que não pagou propina foi o Grupo Clarin."

Quando Buzarco deu detalhes sobre uma reunião acontecida há cinco anos, para acertar propinas e subornos, surgiu o nome de Marcelo Campos Pinto. A personificação da Globo nas negociações esportivas. De acordo com o argentino, na mesa do caríssimo restaurante Tomo Uno, em Buenos Aires, estavam José Maria Marin, Marco Polo del Nero, Júlio Grondona, então presidente da Federação Argentina de Futebol e o executivo da Globo.

Na comilança foi decidido que Marin e Del Nero passariam a receber juntos US$ 600 mil em propina a cada ano relativo aos contratos de transmissão da Copa Libertadores e da Copa Sul-Americana. Os valores teriam passado para US$ 900 mil por ano em 2013.

Segundo o delator, esses pagamentos antes eram destinados a Ricardo Teixeira, que acabava de deixar o comando da CBF. Marin e Del Nero, que Buzarco comparou a um par de "gêmeos siameses" por andarem sempre juntos, ainda teriam recebido mais US$ 2 milhões, que Teixeira tinha a receber como propina de outros negócios.

"Marin me deu um abraço, mostrou gratidão e fez um discurso", garantiu Buzarco.

"Del Nero sacou um caderno e anotou os detalhes. Marcelo Campos Pinto, da TV Globo, estava lá e deu seu aval", destacou.

Nunca ninguém havia acusado de forma direta a Globo e Marcelo Campos Pinto.

Del Nero e Ricardo Teixeira, que não viajam para fora do Brasil desde que estourou o escândalo envolvendo os membros da Fifa, desmentiram. Eles seguem sendo investigados pelo FBI e pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos.

A Globo também negou.

"Sobre o depoimento ocorrido em Nova York, no julgamento do caso FIFA pela justiça dos Estados Unidos, o Grupo Globo afirma veementemente que não pratica nem tolera qualquer pagamento de propina. Esclarece que, após mais de dois anos de investigação, não é parte nos processos que correm na justiça americana. Em suas amplas investigações internas, apurou que jamais realizou pagamentos que não os previstos nos contratos.

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"O Grupo Globo se surpreende com o relato envolvendo o ex-diretor da Globo Marcelo Campos Pinto. O Grupo Globo deseja esclarecer que Marcelo Campos Pinto, em apuração interna, assegurou que jamais negociou ou pagou propinas a quaisquer pessoas. O Grupo Globo se colocará plenamente à disposição das autoridades americanas para que tudo seja esclarecido. Para a Globo, isso é uma questão de honra. Os nossos princípios editoriais nem permitiriam que seja diferente. Mas o Grupo Globo considera fundamental garantir aos leitores, aos ouvintes e aos espectadores que o noticiário a respeito será divulgado com a transparência que o jornalismo exige."

A acusação provoca um desgaste imenso. Principalmente envolvendo patrocinadores que bancam o futebol na emissora. Multinacionais poderosíssimas como a Coca Cola, Volkswagen e Johnson & Johnson decidiram não seguir patrocinando o esporte. Por causa do envolvimento dos dirigentes de futebol com propina.

A cota para patrocinar o futebol na Globo em 2018 caiu. Em vez dos R$ 283 milhões cobrados em 2017, serão R$ 180 milhões.

Marcelo Campos Pinto segue sem dar uma palavra desde que foi aposentado.

Age como se tivesse assinado contrato de confidencialidade.

A verdade é que o julgamento de Marin já teve efeito colateral.

Atingiu em cheio a TV Globo.

E o homem que, durante 19 anos, fechou todos os acordos de transmissão.

Se o Ministério Público precisa acordar.

Deixar sua letargia, envolvendo transmissões de futebol no país.

Até para provar a inocência da Globo, de Marcelo Campos Pinto.

Mostrar ao mundo o quanto são puros Marin, Teixeira e Del Nero.

Se quiser qualquer esclarecimento, sabe o que fazer.

A quem investigar.

O FBI e o Departamento de Justiça do Estados Unidos mostraram o caminho.

Se o MP não quiser cumprir sua obrigação, basta seguir não fazendo nada...

(Um aviso ao Ministério Público. As palavras de Buzarco parecem ter mais profundidade do que parecem. Tanto que o advogado Jorge Delhon se matou na terça-feira. Logo depois que Alejandro denunciou ter pago US$ 4 milhões em propinas entre 2011 e 2014. Jorge Delhon se atirou embaixo de um trem em Lanús. Será que nem assim, diante de algo tão trágico, a justiça brasileira não vai agir?)
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