1reproducao11 O genial Rivaldo. O maior injustiçado do futebol deste país
"Voa lá para o Parque São Jorge. O Corinthians contratou o Valber do Mogi Mirim. E parece que vem mais três, entre eles, o artilheiro Leto. Só que você já sabe, foca no Valber. Ele é quem interessa."

Assim recebi a ligação do pauteiro do Jornal da Tarde. O Corinthians havia conseguido destroçar o Carrossel Caipira, o Mogi Mirim de Vadão. Com o esquema que, em 1992, foi chamado de revolucionário. O 3-5-2. Depois de muito negociar, a diretoria corintiana tinha vencido a concorrência. E comprado Valber, meia desejado por Palmeiras e São Paulo. E de quebra, mais três jogadores por empréstimo. Além do goleiro Hugo, do Rio Branco.

Leto, o artilheiro. Ademílson, o versátil lateral esquerdo. E também um meia que não guardava posição, magrelo, ágil para o seu 1m86. Mera aposta, se desse certo, muito que bem. Se não, voltaria para Mogi.

Na apresentação, Valber é cercado pela maioria dos jornalistas. Leto também teve de falar muito. Assim como o ala Ademilson. De braços cruzados, desconfiado e desprestigiado, bigodinho, estava Rivaldo. Por coincidência, converso bastante com ele. Ouço sobre sua vontade de vencer em um clube grande de São Paulo, um pouco dos sonhos e sinto sua gana que o escudo da timidez não deixava perceber.

Essa aproximação a mais com Rivaldo teve duas consequências. A primeira foi uma bronca na editoria de Esportes quando cheguei com melhor material dele do que de Valber. A segunda foi uma proximidade com o meia de pernas finas que durou décadas. Ele ficou realmente agradecido pela atenção, quando sabia que ele era era o quarto jogador mais interessante, daqueles apresentados no Corinthians.

Só que mal começaram os treinamentos no segundo semestre 1993 com Mário Sérgio, o treinador que substituíra Nelsinho, depois da perda da final do Paulista para o Palmeiras, e Rivaldo roubou a cena. Engoliu não só Leto, mas todo o elenco. Mostrou uma característica que marcaria toda sua brilhante carreira. Ele compensava a falta de carisma, a entrevistas truncadas com futebol maravilhoso. Dribles secos, toques imprevisíveis, frieza diante dos zagueiros e goleiros e impressionante agilidade para seu corpanzil.

Quem conseguiu chegar perto de Rivaldo conseguiu perceber um amargor, uma tristeza perene na sua personalidade. Até mesmo rancor. Quando seu futebol explodiu e a direção do Corinthians se arrependeu por apenas emprestá-lo do Mogi Mirim e o perdeu para o Palmeiras da Parmalat, a editoria de Esportes do JT me mandou para o Nordeste fazer várias matérias especiais sobre futebol.

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Eu sugeri uma passada em Paulista, cidade que fica a 18 quilômetros do Recife, onde Rivaldo cresceu. Ele ainda não era milionário. Parte de sua família ainda vivia em casas simples, dignas, que melhoraram com o dinheiro do mandava de São Paulo. Mas simples. E soube a história que marcou sua vida. O pai, Romildo, percebeu seu talento com a bola. E o incentivou a ser jogador, quando atuava na base do Paulistano.

A família era muito pobre. Rivaldo vendia coxinhas e picolés pelas ruas de Recife para ajudar a família. Muitas vezes ia carpir quintais de vizinhos em troca de moedas. Os dentes apodreciam por falta de dinheiro para ir ao dentista. Quando foi, colocou precoces dentaduras.

Seu pai queria que o filho tímido tivesse um futuro melhor. Não só o colocou na escolinha do Santa Cruz, clube que os dois eram torcedores fanáticos, como o acompanhava com orgulho aos treinos.

A aposta começava a dar certo, Rivaldo ganhava espaço nos juniores do Santa Cruz, quando chegou o dia 6 de janeiro de 1989. "Foi o pior dia da minha vida. Meu pai não voltou para casa. Ouvimos pelo rádio que ele havia sido atropelado por um ônibus. Ficou em um hospital público esperando atendimento até morrer", me disse em entrevista. Rivaldo jurou que seria um grande jogador para homenagear o esforço do seu amado pai, que abria mão de tudo para que Vado, como é chamado pela família, fosse profissional do Santa Cruz.

Teve uma rápida passagem pelo clube, até que o Mogi Mirim resolveu apostar no seu futebol. Veio de contrapeso. Valber era o jogador pretendido pela direção do clube interiorano. Vieram os dois.

Só que seu talento explodiu quando chegou ao Corinthians.

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"Já falei para o Brunoro: tem de comprar. Esse magrelo é um avião. Vai ser um dos melhores jogadores não só do Brasil, mas do mundo. O que ele não fala com a boca, fala com os pés. Ele é foda. Joga como meia, como atacante, como ponta, tudo de uma vez. Ninguém sabe o que ele vai fazer. E visualiza antes a jogada. É tão habilidoso quanto o Müller, só que é mais efetivo, letal. Ele gosta de marcar gol, tem tesão pelo gol. O Rivaldo vai longe. A Parmalat vai ter muito lucro com ele", me disse Vanderlei Luxemburgo, explicando como convenceu o Palmeiras a vencer o leilão com o Corinthians pelo jogador.

Por coincidência, em 1994 houve o revezamento dos repórteres no jornal, e troquei o Corinthians pelo Palmeiras. E tive o privilégio de assistir a fabulosos times montados pela Parmalat. Os treinos eram até mais impressionantes do que os jogos. Edmundo, Evair, Zinho, Cléber, Antônio Carlos, Mazinho, Flávio Conceição, César Sampaio. Em 1995 chegou Müller. Edílson que chegou em 1993, foi para o Benfica, e voltou em 1995.

Rivaldo foi a estrela do Palmeiras sensacional, campeão de 1996. O time dos 102 gols. Não era time, era uma seleção. Velloso, Cafu, Sandro, Cléber e Júnior; Amaral, Flávio Conceição, Rivaldo, Djalminha; Müller e Luizão. Vi a disputa, nos treinos, do inesquecível trio, Rivaldo, Müller e Djalminha. A cada coletivo cada um tentava mostrar quem era o mais habilidoso. Era um colírio para os olhos. Incrível. Rivaldo, ao contrário dos dois, não se conformava em mostrar seu talento. Invariavelmente, terminava em gol. Ou em covarde passe para Luizão estufar as redes. Isso quando não marcava em sem pulo ou jogava o corpo no ar e acertava incríveis bicicletas. Quem viu, viu.

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A direção do La Coruña viu. E o contratou. Rivaldo antes fez uma escala na Olimpíada de Atlanta. E foi um dos crucificados na derrota para a Nigéria na semifinal por 4 a 3. O Brasil de Zagallo e Ronaldo Fenômeno voltou com o bronze.

Do La Coruña até o Barcelona foi um pulo. Seu desempenho na Catalunha foi fabuloso. Ganhou, por méritos, o título de melhor do mundo, em 1999. Consegui entrevistá-lo logo depois. E fiquei espantado por sua mágoa. "Eu não tenho o reconhecimento que mereço. Não sou midiático, dizem. Talvez por estar com a mesma mulher, não ir para as baladas, ser um atleta de verdade, não me meter em escândalos. Se fosse, estaria em todas a manchetes", desabafou.

Ficou frustrado com a Seleção na decisão da Copa de 1998, apesar do seu ótimo desempenho. A partir de 1999 até 2001 passou a ser questionado na Seleção. Se dizia que ele se aplicava muito mais no Barcelona. "Se estou atrapalhando, não vou jogar mais na Seleção", chegou a desabafar nas Eliminatórias para a Copa de 2002.

Felipão tem vários méritos naquela conquista. Entre elas, a de ter convencido Rivaldo a jogar o Mundial. E apostar na sua recuperação. Ele tinha contundido o joelho esquerdo, a três meses da Copa. Felipão o convocou e o meia fez tratamento intensivo para jogar o Mundial. Muitos duvidavam. O encontrei na Malásia, durante a preparação do time para o Mundial. "Você vai disputar a Copa? Jornalistas europeus juram que não." A resposta de Rivaldo. "Eles vão ver. Na Espanha acreditam que estou fora. Só que estou me recuperando rapidamente. Vou recompensar a aposta do Felipão."

Dito e feito. Rivaldo foi fundamental para o Brasil ganhar a Copa. Foi injustamente apagado pela força midiática de Ronaldo, que também superou uma terrível contusão. O país deve muito o pentacampeonato a seu camisa 10.

Toda vez que eu oferecia uma matéria sobre Rivaldo, meu editor avisava. "Rivaldo vai para a página quatro. Vamos abrir com o Ronaldo. Ele é que atrai leitura." Mesmo que Rivaldo tivesse ido muito melhor do que o Fenômeno. Os outros jornais seguiam a mesma lógica.

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O Barcelona o havia dispensado em junho, pouco antes do Mundial. Foi um 'prêmio' ao jogador pela chegada de seu desafeto, o holandês Louis Van Gaal. O clube não queria problemas e priorizou o treinador. O sucesso na Copa também foi motivado para dar um troco a Van Gaal.

Rivaldo enriqueceu ainda mais com passagens pelo Milan, Olympiacos, Bunyodkor do Usbequistão. Teve rápida passagem pelo Cruzeiro, São Paulo, Kabuscorp de Angola, São Caetano. Comprou o Mogi Mirim, onde encerrou a carreira.

Já com dentes implantados, rico, realizou seu grande sonho.

Batizou o estádio do Mogi Mirim com o nome do pai.

Romildo Vitor Gomes Ferreira.

"Vado" conseguiu ir muito além dos sonhos de Romildo.

Foi o melhor do mundo.

E proporcionou prazer enorme para quem teve o privilégio de acompanhar sua carreira. Viu suas arrancadas, dribles, toques que desmontavam retrancas, chutes inesperados no ângulo.

Rivaldo foi tão fabuloso quanto injustiçado.

Nunca teve o reconhecimento que merecia...

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