O dia mais triste na carreira de Telê Santana. Quando, doente, tentou assumir o Palmeiras
Era início de 1997.

O clima era de imensa expectativa no Palmeiras.

Não só por parte da imprensa, dos jogadores, dos conselheiros. Mas principalmente de José Carlos Brunoro. O executivo da Parmalat, que assumiu o comando do futebol do clube, em um regime de co-gestão. Ou seja, os italianos colocavam dinheiro para contratar atletas que o clube, em dificuldades financeiras, não teria condições de sonhar. E depois os vendia com lucro.

Ao clube ficavam os títulos, a melhoria na infra-estrutura.

O esquema funcionou entre 1992 e 2000. Vieram fim de jejum, conquistas e foram formadas verdadeiras seleções. As conquistas se seguiram. Dois Torneios Rio-São Paulo (1993 e 2000), dois Campeonatos Brasileiro (93 e 94), três Campeonatos Paulistas (1993, 1994 e 1996), uma Copa do Brasil (1998), uma Copa Mercosul (1998), uma Copa Libertadores (1999) e uma Copa dos Campeões da CBF (2000).

Em 1996, o Palmeiras formou o time dos 102 gols e foi campeão paulista, de forma impressionante. Velloso; Cafu, Sandro, Cléber e Júnior; Amaral, Flávio Conceição, Rivaldo Djalminha; Müller e Luizão. Entrou como grande favorita na Copa do Brasil. E nos dois jogos da decisão, contra o Cruzeiro, Müller não acertou a renovação e não jogou, estava emprestado pelo Kashiwa Reysol. Falou que tinha uma proposta do São Paulo e queria aumento. Brunoro acredito que estava blefando. Não estava. O atacante voltou ao Morumbi.

O Palmeiras perdeu. Vanderlei Luxemburgo ficou revoltado. E colocou a culpa na gestão de José Carlos Brunoro. O ressentimento entre os dois amigos foi enorme. Veio o Brasileiro e o troco. O Palmeiras caiu nas quartas de final para o Grêmio de Luiz Felipe Scolari. E Luxemburgo foi demitido.

Brunoro avisava os setoristas do clube, inclusive eu, que contrataria um treinador que não deixaria saudades de Vanderlei. Todos nós buscamos contatos com treinadores nacionais e internacionais, e nada. Nem conselheiros mais importantes sabiam nada do novo contratado.

Até que ele foi anunciado.

E todos ficamos chocados.

O nome era Telê Santana.

2reproducao2 O dia mais triste na carreira de Telê Santana. Quando, doente, tentou assumir o Palmeiras

Como assim? Ele havia sofrido uma isquemia cerebral ao fazer um cateterismo. E abandonou não só o São Paulo, mas o futebol, em janeiro de 1996. Eu tive a sorte de cobrir o clube tricolor por alguns meses e trabalhei com Telê Santana. Em esquema de folgas dos setoristas. Os clubes que eu cobria normalmente pelo Jornal da Tarde eram Palmeiras e Corinthians.

Sempre gostei de chegar cedo aos treinamentos e via todo o seu perfeccionismo. A começar com o gramado. Onde retirava, cuidadosamente, paquinhas. Eram insetos que parecem gafanhotos e que insistiam em cavar suas pequenas tocas no CCT da Barra Funda.

"Essas tocas viram montinhos de barro que não deixam a bola rolar pelo gramado", dizia. E ao mesmo tempo, tinha o maior cuidado com os ninhos de Quero-quero, que adoravam os campos de treino são paulino. Cuidava dos ovos dos pássaros como se fossem tesouros.

Telê tinha muita energia. Cobrava aos gritos os jogadores, não se importava com a imprensa. Não tinha tolerância alguma com erros nos cruzamentos e chutes a gol. Várias vezes, ele parava o coletivo e mostrava como fazia. Gostava de montar seu time extremamente ofensivo. Fazia questão de cobrar fisicamente seus atletas. Cuidava inclusive da vida pessoal dos jogadores. Fez atletas sem casa própria devolver carros novos que haviam comprado. E os forçava a investir na moradia.

Adorava peitar os dirigentes. Principalmente o então presidente da Federação Paulista, José Eduardo Farah. Não perdoava os juízes. Apesar de rico, morava no CCT por economia e comodidade. Era extremamente centralizador, não permitia palpites no seu trabalho com os atletas.

O bicampeonato mundial no São Paulo resgatou o fracasso nas duas Copas com a Seleção.

Assim como a confiança em cada entrevista.

Era um homem cheio de energia.

Fui para o CT do Palmeiras esperando encontrar o Telê Santana que conhecia.

Não o entrevistava há pelo menos dois anos. Ele havia sofrido a isquemia em janeiro de 1996. Esperava encontrá-lo como o conhecia. Técnico que passava convicção, firmeza, reclamão, detalhista, inteligente, pronto para o confronto.

Foi uma cena triste, terrível.

Que me incomoda até hoje, mais de 20 anos depois.

Nunca consegui esquecer. Telê chegou andando com dificuldade, inseguro, trêmulo. Inseguro, calculava o próximo passo. Parecia ter envelhecido pelo menos 15 anos, desde que o vi pela última vez. Demonstrava ter muito mais do que seus reais 65 anos. Andou amparado por Márcio Araújo. Ambos foram lentamente para onde estavam os jogadores. Todos, a começar por Cafu, o cumprimentaram com todo respeito, carinho. E demonstravam nos olhares, a óbvia preocupação.

5reproducao2 O dia mais triste na carreira de Telê Santana. Quando, doente, tentou assumir o Palmeiras

Depois ficaria pior. Chegara a hora da entrevista. E Telê Santana mal conseguia falar. Suas palavras eram ditas com dificuldade, com lentidão. Era nítido o esforço que fazia para raciocinar, tentar das suas explicações. Houve um constrangimento geral. Márcio Araújo percebeu e tomou à frente. Disse que seria o treinador. Telê Santana seria o coordenador técnico, o seu orientador.

Sem acompanhar os treinamentos, sem o dia-a-dia, Telê montaria a equipe de longe.

Telê não mais falou, apenas se despediu.

Depois dessa triste apresentação, houve a saída do técnico bicampeão mundial. E outra vez, ficou clara a sua dificuldade para andar. O esforço que fazia para tentar mostrar que estava normal. Doía o coração de quem o conhecia.

Impossível ver e não ficar deprimido.

Era óbvio que fora combinado. Márcio Araújo, então diretor de futebol, Sebastião Lapola, e Brunoro tinham o mesmo discurso. Telê estava no final de sua recuperação. Em um ou dois meses, ele seria o 'mesmo'. Estaria nos treinos, nos jogos e montaria um Palmeiras capaz de buscar os títulos mundiais que a Parmalat tanto sonhava.

Não me conformei. Telefonei para médicos do São Paulo. Falei com neurologistas. E a triste resposta era a mesma. Telê Santana não voltaria a ser o técnico que a Parmalat sonhava. Pelo contrário. Seu estado físico só pioraria. Éramos testemunhas de um absurdo.

No jornal foi difícil enfrentar a chefia. Ela desejava como todos que amam o futebol que o grande treinador estivesse de volta. Não queria a tristeza. Mas a festa pelo retorno de um dos maiores treinadores brasileiros de todos os tempos.

66 O dia mais triste na carreira de Telê Santana. Quando, doente, tentou assumir o Palmeiras

"Deixa de ser pessimista. Seu texto vai contra o que todos os palmeirenses querem ler", ouvi do editor. "Mas você quer que eu publique uma mentira? O Telê não vai voltar. Ele está doente, muito doente", respondi. "Você não é médico. Você acha que a Parmalat iria correr o risco de um vexame tão grande? Apresentar alguém que não tem condições de trabalhar?" "Acho. O Brunoro tinha de buscar um técnico melhor que o Luxemburgo. Por isso forçou a barra. Por isso o Telê foi para o Palmeiras. Mas ele não está bem. Eu o vi e o ouvi. Ninguém me contou. Eu estava lá. Falei com médicos. Não há porque ficar otimista, não."

O clima ficou ruim com o editor.

Ninguém gosta de más notícias.

A situação absurda perdurou por meses no Palmeiras.

Ligava para Renê, o filho de Telê. E ele dizia que seu pai insistia muito. Estava animado. Deixava claro que a proposta do Palmeiras virou o grande motivador de sua vida.

Mas havia a realidade.

E ela matava o sonho de Telê. Ele se considerava injustiçado, que o São Paulo não teve paciência, não acreditou na sua recuperação, depois da isquemia. E queria 'dar a volta por cima'.

O Palmeiras capengava com Márcio Araújo no Paulista. A família de Telê percebeu que o fracasso estava sendo dividido com o grande treinador. E não era justo. Ele não tinha como orientar Márcio Araújo. O grande treinador não melhorava. Pelo contrário, piorava.

Até que no dia 3 de abril, Renê procurou o então presidente Mustafá Contursi e Brunoro. Contou que os médicos de seu pai disseram. Não haveria como voltar. Telê tinha de abandonar o futebol de vez e se preocupar em ter uma vida o mais saudável possível, tranquila.

Quando cheguei com a notícia, nem tive coragem de ironizar meu editor. Ele estava arrasado. Como grande parte da redação. Eu também detestei estar certo.

Acabava um dos mais tristes episódios da minha carreira.

Percebi todo o amor que Telê Santana tinha ao futebol.

Era como se soubesse que, sem ele, iria morrer.

A terrível isquemia deu início à falência dos seus órgãos. Prejudicou primeiro a fala e a locomoção. Acabou preso por anos a uma cadeira de rodas, falando cada vez menos. Seus momentos de lucidez foram rareando. Até que faleceu, nove anos depois, em 2006.

Foi o sofrimento de Telê Santana, de quem sempre foi muito próximo, que fez Muricy Ramalho tomar coragem. E optar pela aposentadoria, quando ouviu dos médicos que corria risco de vida se continuasse como técnico.

Preferiria ficar com a imagem do homem turrão, trabalhador, técnico competente, exigente que aprendi a admirar no São Paulo.

Só que a triste 'apresentação' de Telê no Palmeiras me atormenta.

Nunca esquecerei seu constrangimento ao andar e falar.

A vontade que ninguém percebesse.

E todos tentavam não enxergar, se enganar.

Mas era impossível.

O grande Telê Santana não merecia aquele terrível teatro...
88 O dia mais triste na carreira de Telê Santana. Quando, doente, tentou assumir o Palmeiras

http://r7.com/K5tK