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O desespero do Sansão do elevador em Brasília. Para entrevistar o ministro Pelé

Postado por Cosme Rímoli em 21/10/2017 às 13:17 em Sem categoria | 65 Comments

132 O desespero do Sansão do elevador em Brasília. Para entrevistar o ministro Pelé [1]
4 de novembro de 1973.

Eu e dois amigos decidimos ir até o Pacaembu. Jogariam Santos e Portuguesa. A ideia foi minha. "Vamos ver o Pelé?", propus. Bastou. E o trio apaixonado por futebol [2] decidiu ir. Adolescentes, de famílias simples, cada um arrumou dinheiro como pôde. Eu falei para o meu pai, professor de altos ideais e salário baixo, ficou encantado com a ideia. E tirou uma parte do 'dinheiro da feira'. Com a minha carteira de estudante e sentando no tobogã, lugar mais barato do estádio, não gastaria muito.

Fomos a pé. O dinheiro do ônibus seria para comer amendoim. O jogo foi inesquecível. A Portuguesa tinha um time impressionante, forte. Um dos melhores do país. Com Enéas, Dicá, Cabinho, Basílio, Isidoro. O Santos não era uma grande equipe. Tinha algumas estrelas como Carlos Alberto, Edu, Clodoaldo. Era um elenco envelhecido com algumas promessas. E, lógico, o maior de todos, Pelé.

A Portuguesa logo abriu 2 a 0, gols de Tatá e Enéas, para alegria da mais suicida torcida que vi nos estádios. A Leões da Fabulosa. Seus poucos membros provocavam e brigavam com torcidas dez, vinte vezes maiores, como a do Corinthians, Palmeiras, São Paulo. E não fugiu do confronto, que no começo da década de 70, era na arquibancada. As brigas eram no máximo soco e pontapés. Ingênuas, comparadas com a selvageria, com a sede de morte, de hoje em dia.

Mazinho descontou. 2 a 1. Pelé, aos 33 anos, era marcado a pontapés. A arbitragem da época era muito permissiva. Mas em uma falta frontal, Edu rolou a bola para o camisa 10 santista. Ele bateu por baixo da barreira, 2 a 2. Estava entusiasmado, vi um gol do melhor de todos os tempos no estádio. Enquanto economizava os amendoins para não acabarem, teria outra. surpresa.

Clodoaldo levantou a bola para a área. Pelé se antecipa ao gigantesco Pescuma. Ajeita a bola com o lado direito do peito. O objeto esférico obedece o seu desejo e cai na media para um sem pulo lindíssimo de pé esquerdo. Indefensável para Zecão. 3 a 2, Santos. Gol maravilhoso. E eu, que nunca fui santista, não me contive pulei, vibrando. Ainda lembro os amendoins voando e os rosto dos meus amigos extasiados.

Era essa imagem que guardava no peito de Pelé. Tive o privilégio de vê-lo em campo, no Pacaembu. Marcando um gol lindíssimo. Assiti pelo menos vinte vezes ao obrigatório documentário Isto É Pelé, de Eduardo Escorel e Luiz Carlos Barreto.

Em campo, foi fabuloso.

O melhor de todos os tempos.

Inigualável.

Depois fui reencontrá-lo na Copa de 1994. Ele era comentarista da TV Globo. Mas esteve em uma festa patrocinada por um cartão de crédito, aberta aos jornalistas. Ele estava protegido por seguranças. E praticamente foi ser fotografado e acenar no evento, contratado pelo tal cartão.

Até que em 1997, propus uma pauta para o meu editor. Ir até Brasília desvendar qual era a força do Ministério do Esporte [3], como ele estava lidando com a pressão do Clube dos 13 para vetar a lei que mudaria de vez a relação entre os jogadores e os clube.

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"Ele é o maior jogador de futebol de todos os tempos, o primeiro ministro negro da história do país, representa o avanço na relação trabalhista do governo Fernando Henrique Cardoso. Dá uma matéria excelente mostrar a força do seu ministério. O Pelé está fazendo história. Me deixe ir para Brasília", pedi ao meu editor.

Como já expliquei, o Esportes do JT, embora tivesse muito mais força, representatividade do que a mesma editoria no Estadão, nossa verba era muito menor. Por causa da divisão entre os herdeiros da família Mesquita. O dinheiro era curto. "Não dá para fazer por telefone?", era a resposta padrão. Respondi que não. Expliquei a matéria. Iria falar com os senadores e os deputados federais sobre a representatividade de Pelé e seu Ministério. E a tal lei. Depois, uma entrevista com Pelé.

Insisti por dois dias. E recebi a autorização. "Você viaja na segunda-feira. E volta quinta com a matéria pronta." Na segunda-feira falaria com os políticos. Na terça, com Pelé. E tudo certo. Sabia que ele estaria em uma escola. Entrei orgulhoso com meu terno e gravata pelos corredores do poder. E, usando a velha tática, representando a Agência Estado, todos aceitavam falar. Tinham a certeza que suas palavras chegariam aos seus estados, seus currais eleitorais. E não apenas em São Paulo.

Deputados e senadores, de todos os partidos, avacalharam com Pelé. O colocaram abaixo de zero. Foi algo unânime. Disseram que não tinha representatividade alguma, não sabia o que estava fazendo. O consideravam um símbolo alienado que FHC colocou para ganhar popularidade. Desancaram o maior ídolo deste país.

Contei para o meu editor a minha apuração. Ele quase teve um orgasmo. E avisou em tom ameaçador. "O Pelé tem de falar." Fui na tal inauguração na terça-feira. Como ele viajava muito pelo mundo, estava cercado por seguranças e pessoas ligadas à tal escola. Tentei chegar perto, com toda a educação, para tentar marcar uma entrevista. Cheguei perto dele. Estava com o meu indefectível bloquinho de notas. Pelé não olhou para mim e muito menos para o meu crachá onde estava escrito Agência Estado.

Ele segurou o meu bloquinho e se preparou para o seu centésimo autógrafo aquele dia. Eu puxei o bloquinho de volta. Tomou um susto. "Não quero autógrafo, Pelé. Eu vim fazer uma entrevista sobre o seu ministério." Ele me respondeu direto. "Este mês não vai dar. Estou muito apressado", disse. E saiu, cercado por seguranças. Fiquei desesperado. Sabia que tinha de voltar com a entrevista.

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Soube que na quarta-feira, ele estaria em uma audiência pública em uma cidade-satélite de Brasília. Iria começar às 10 horas. Estava desde as oito horas esperando o Pelé. Mesmo cerimonial. Cercado por seguranças e políticos locais, de baixo escalão. Quando estava saindo, o procurei novamente. E ele foi direto. "Eu já falei para você, este mês, não dá." E saiu. Tentei acompanhá-lo, dois seguranças ficaram na minha frente. Comecei a discutir com eles. Pensava. 'vou ser preso aqui', mas vou falar.

Quando a conversa virou discussão e se transformava em gritos. Por um triz não houve uma briga. Enquanto gritava e ouvia os berros nos meus ouvidos, via Pelé sumir em um carro oficial. Liguei para o meu editor. Ouvi mais gritos. "Você está aí, tem de fazer a entrevista. Gastamos dinheiro com sua viagem. Se vira", e bateu o telefone na minha cara.

Por um ato divino, na quarta-feira, Pelé estaria em uma cerimônia para prefeitos do país todo. Era raríssimo ele participar de três audiências públicas. Havia chance dele não aparecer. Ele foi. Enquanto vários prefeitos faziam pequenos discursos, mostrando feitos esportivos de suas cidades, Pelé o ouvia. E balançava a cabeça, se mostrando interessado. Eu segurava a tampa de uma garrafa de Coca Cola que encontrei no chão do auditório. E a apertava, nervoso, imaginando como seria essa minha última tentativa de falar com ele.

Quando os prefeitos acabaram de falar, reparo que o meu dedão e o meu dedo indicador da mão direita estão sangrando. Estava tão nervoso que não percebi que a tampa havia rasgado meus dedos, enquanto pensava na abordagem de Pelé.

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Ao acabarem os intermináveis discursos, ele fez o dele. E, para meu espanto, começou a caminhar para um elevador. Iria embora. Estava só com dois seguranças. E uma assessora. Tentei me aproximar. Vi que não daria tempo.

Pelé e seus seguranças e mais a assessora entraram no elevador.

Me submeti a uma cena do mais puro desespero.

Como um Sansão urbano, de terno, segurei as portas do elevador. Os quatro olharam para mim assustados. Só poderia ser um louco, com o tal crachá da Agência Estado balançando no peito.

"O que está acontecendo?", perguntou, apavorada, a assessora.

Nem olhei para sua cara.

"Pelé, é o seguinte. Falei com deputados e senadores sobre você. Me disseram que seu ministério é uma mentira. Não tem importância nenhuma. Não sabe nem o que está fazendo em Brasília. Não passa de um marionete do FHC. Eu sou do Jornal da Tarde. Esta matéria vai sair na Agência Estado, em todo o Brasil. Você será desmoralizado. Você precisa dar o seu ponto de vista", falei mais rápido que o José Silvério, consagrado locutor de rádio.

Enquanto falava, segurava as portas.

Pelé me olhava assustado. Os seguranças já vinham em minha direção. Até que a assessora saiu do elevador. "Deixe o ministro subir, por favor. Se não você vai sair daqui preso." Pensei no meu editor. Pensei em ser preso. E continuei segurando a porta. "Melhor a cadeia do que voltar sem matéria."

A assessora pensou no escândalo. E pediu pela segunda vez. "Solte a porta. Me explique a matéria." Vi uma luz. "Pense bem, Pelé", bradei, ao soltar as portas.

Monica Gil era o nome da chefe de comunicação.

Ela foi uma das únicas assessoras de imprensa que encontrei, que agiu como deveria. Mostrei alguns depoimentos que havia gravado. Ela se assustou. Percebeu que Pelé era objeto de escárnio e que nenhum político, dos cerca de 20 que ouvi, os levava a sério. O ministro tinha de falar.

Ela subiu, prometendo voltar. Nos 20 minutos mais longos da minha carreira, ela voltou. "O ministro vai dar entrevista."

No final da tarde, entrei na sua enorme sala. Pelé estica a mão e fala. "Fazia tempo que eu não via ninguém com tanta vontade de falar comigo", brincou. Enquanto segurava sua mão, lembrei do gol no Pacaembu, dos meus amigos, da fome que passei sem os amendoins, andando até a minha casa.

 O desespero do Sansão do elevador em Brasília. Para entrevistar o ministro Pelé [7]

Pelé foi firme, corajoso. E disse que tinha como missão mudar a relação entre os jogadores e os clubes. O Brasil tinha de acabar de vez com a lei do passe. E era o que faria. Confirmou que sua verba era íntima em relação aos outros ministérios e que tinha um status de secretaria da presidência. Mas a missão terminar com a escravidão do jogador de futebol. Ele trazia essa lembrança dos tempos do Santos. Só quando encerrou a carreira, pôde jogar nos Estados Unidos, no Cosmos, e ficar rico de verdade.

A matéria teve duas páginas. Foi capa do JT. E distribuída para o Brasil todo.

Em março de 1998, a Lei Pelé foi promulgada.

Acabou o regime de escravidão dos jogadores e clubes.

Uma pena que virou uma festa para os empresários.

Os atletas não sabem e não querem lidar com sua liberdade.

Em abril de 1997, Pelé deixou o ministério. Foi ganhar dinheiro. Comentar futebol para a TV Globo. Representar seu cartão de crédito na Copa do Mundo de 1998. Na França, o vi de longe, como garoto-propaganda. Nem tentei chegar perto. Não precisava. A minha única pauta com ele já tinha feito.

Em 2013, encontrei Monica Gil, no sorteio dos grupos da Copa, na Bahia. Ela assessorava o então ministro da Justiça, José Eduardo Cardoso. Tentei uma entrevista, para que falasse sobre como o país trataria os anarquistas black blocs que ameaçavam o Mundial. Ele não quis. Não houve como sequer chegar perto do elevador de José Eduardo.

Meu momento Sansão, desesperado, e de terno havia passado.

Foi ótimo ter sido com quem foi.

Com o melhor de todos...

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