225 O Brasil perde seu maior capitão. Carlos Alberto Torres. O homem que mais honrou a braçadeira na camisa da Seleção. O país deve o tricampeonato mundial à sua liderança...
Ele foi o maior capitão de todos os tempos no futebol brasileiro. Nunca ninguém honrou tanto a faixa que ficava sobre a manga da camisa direita da Seleção. Por isso se irritava tanto com o desleixo dos jogadores modernos.

"Não têm a menor ideia do privilégio de ser capitão do Brasil. É algo importante demais. A honra que é ser escolhido como líder da seleção mais campeã do planeta."

Sabia tudo o que a braçadeira significava. Na melhor equipe de todos os tempos, que teve Pelé, Gerson, Tostão, Jairzinho, Rivellino, era ele quem se impunha. Quem cobrava cada um dos seus companheiros.

Era a primeira pessoa a quem Zagallo procurava para explicar o que queria em campo. Sua personalidade transcendia liderança em campo. Tinha liberdade de transcender sua posição de lateral direito. Na época em que era proibido ultrapassar o meio de campo, lá foi ele marcar o quarto gol brasileiro na final contra a Itália, no México.

Levou essa postura firme, ética para a vida.

Não tinha o apelido de "Capita" à toa.

Dos poucos jogadores que era chamado pelo nome e sobrenome.

Um infarto fulminante acaba de levar Carlos Alberto Torres.

É uma péssima notícia para o futebol deste país, com seus ídolos midiáticos atuais. Pelé, Rivellino, Gerson e Zagallo foram claros não haveria tricampeonato mundial sem ele. A sua força para acabar com a rivalidade entre paulistas e cariocas. Entre saudosos do comunista João Saldanha e os simpatizantes aos generais, à Ditadura Militar, que chegou com Zagallo, Parreira, Coutinho, Chirol.

Foi a sua liderança que uniu esse time maravilhoso.

Conseguiu convencer a colocarem o Brasil acima das diferenças.

Das ideologias.

Do bairrismo.

Das vaidades.

Tostão, Rivellino, Gerson, Piazza improvisados para o bem da Seleção.

Todos se lembram e o reverenciam.

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Carlos Alberto Torres fez com que todos entendessem a responsabilidade de representar o Brasil em uma Copa do Mundo. Carregou essa retidão de caráter que o marcou a carreira toda. Desde o início no Fluminense, os anos dourados no Santos até a missão de ensinar futebol nos Estados Unidos.

Sua carreira como treinador não chegou a um décimo do que foi como jogador. "Eu nunca me vendi aos empresários. Não entrei nesse jogo. Para aceitar um clube precisava aceitar os empresários e os jogadores que eles queriam enfiar nas equipes. Jogo sujo que nunca aceitei. Por isso, trabalhei tão pouco", me disse, no sorteio dos grupos da Copa de 2014, na Bahia.

Foi quando me deu uma entrevista premonitória sobre a Copa de 2014. Ela foi publicada no dia 1º de janeiro de 2014, neste blog. Já previa o risco que o Brasil corria. A empolgação. A falta de um substituto para Neymar. Foram palavras de muita sabedoria.

É com pesar que a publico novamente.

Certo que o Brasil perdeu não só um excelente ex-jogador.

Um grande homem.

O maior capitão de todos os tempos da Seleção deste país...

"Você tem que manter os pés no chão, não pode dizer seis ou sete meses antes da Copa do Mundo que somos campeões, eu não acho que é o caminho certo. Nós tivemos seleções melhores do que a atual e não ganhamos a Copa do Mundo. Temos apoio e estamos em casa, mas isso não significa que vamos ganhar. Nós não podemos declarar que vamos vencer só porque os torcedores vão cantar o hino nacional."

Estas declarações não foram dadas por qualquer pessoa.

Por isso chamaram a atenção no início de dezembro do ano passado.

Era véspera do sorteio da Copa do Mundo na Bahia, na Costa do Sauípe.

E o mundo repercutiu cada palavras.

O motivo foi quem as proferiu.

Carlos Alberto Torres, capitão da Seleção tricampeã do mundo.

Em um time que reunia Pelé, Gerson, Tostão, Rivellino, Jairzinho...

Era ele quem falava mais alto.

Tinha a coragem de se impor, discutir estratégia com Zagallo...

Cobrar seus consagrados companheiros a correr mais.

Ao lado de Bellini, Mauro Ramos de Oliveira, Dunga e Cafu.

Ele é um dos cinco brasileiros privilegiados a levantar o troféu.

Mostrar ao mundo que o nosso país é campeão do mundo.

Por querer ver Thiago Silva repetindo o gesto no Maracanã, ele dá o alerta.

Neste primeiro dia de 2014, a sua exclusiva abre o ano no blog.

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Carlos Alberto, você deu declarações muito fortes.

Você tem medo que a confiança exagerada sabote a Seleção na Copa?

Eu fiz questão de alertar para o principal erro que o Brasil não pode cometer. Acreditar que já é campeão do mundo. A Copa é uma competição dificílima e que não há como bater no peito um ano antes e dizer que vai ser campeão. As coisas não acontecem assim. Tanto que nenhuma seleção que ganhou a Copa das Confederações foi campeão do mundo. Há um planejamento que precisa ser feito e o auge a ser atingido é durante a Copa, não antes. O Brasil foi muito bem na competição que serviu como testa para o Mundial. Mas não pode se iludir e nem vender a ideia que já é campeão. Eu torço muito, sei da seriedade e da competência do Felipão e do Parreira. Mas se o entorno, a torcida, a imprensa e, principalmente, a Seleção caírem na armadilha do já ganhou, podemos sim perder a Copa. Tudo o que outros países desejam é nosso time confiante demais por jogar em casa. O Brasil tem de estar preparado para situações adversas, ruins. Isso me preocupa muito. O elenco é muito jovem. E é preciso estar orientado para tudo. Não só para a festa.

Como assim, Carlos Alberto?

Fale sobre as principais situações que o time precisa estar preparado...

Vou ser direto. Lembro demais o que aconteceu na África, com o time do Dunga. A preparação foi excelente. Ganhou eliminatórias, Copa América, Copa das Confederações. Ia bem na Copa. Mas bastou tomar um gol, estar em uma situação ruim diante de um adversário difícil como a Holanda e o time se desmanchou. Ficou destruído psicologicamente. Não foi preparado para sair perdendo. E olhe que tinha jogadores vividos, experientes, como Kaká, Júlio César, Robinho. O Felipão precisa ter esse grupo para enfrentar adversidades. É preciso muita personalidade em uma Copa do Mundo jogando em casa. Se fosse fácil, Itália em 1990 e Alemanha, em 2006, não deixariam escapar. Vejo o grupo brasileiro atual muito jovem. Gosto do Thiago Silva, Daniel Alves, Neymar, Fred, Marcelo, Oscar. Mas é difícil imaginar um deles pegando a bola do fundo do nosso gol e batendo no peito e avisando para os adversários que o Brasil vai virar. Essa confiança vem com o tempo. O time tem excelente potencial técnico, mas é muito novo, tem pouca rodagem junto. Isso me preocupa. O Felipão não pode preparar a equipe apenas para vencer sem preocupação. Ao contrário. Tem de buscar líderes para reverter o que pode acontecer de ruim. A caminhada de um campeão do mundo nunca foi fácil. Sempre exigiu superações.

E a outra situação que o aflige...

Nós não testamos o Brasil sem o Neymar. Ele esteve em todos os jogos do Felipão. Ninguém sabe o que acontece se ele se machucar ou for suspenso durante a Copa. Quem é o seu substituto? Passamos por isso com o Pelé em 1962. O Amarildo saiu da reserva e conseguiu ir muito bem. Foi peça importantíssima no bicampeonato mundial. Mas ele entrou em uma equipe rodada, que havia quase toda ela vencido em 1958. Eram grandes jogadores e experientes. Fora o fato de o time atuar junto há muito tempo. Não é o caso da nossa seleção agora. Se o Neymar machucar quem seria o seu substituto? Como o Brasil taticamente jogaria? Tomara que não aconteça nada demais com ele que é um talento raro. Mas o Felipão não é bobo. Sabe que ele será o jogador brasileiro mais marcado durante o Mundial. Tem de deixar pronta uma alternativa. Um novo jeito para o Brasil atuar. Nós em 1970, tivemos a chance de uma preparação longa (cerca de dois meses). Já o futebol atual não permite isso. Felipão e o Parreira precisam se apressar, aproveitar cada minuto desta curta preparação.

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O Brasil atropelou a Espanha na final da Copa das Confederações.

Você acha que a Seleção já mostrou ao mundo que pode ganhar de qualquer adversário?

Não vamos nos iludir. A Seleção foi bem demais na Copa das Confederações. Surpreendeu a todos. Inclusive nós brasileiros. Mas tudo o que não podemos fazer é acreditar que já ganhamos a Copa. A Espanha aprendeu muito naquele 3 a 0. Tanto que já buscou até um atacante brasileiro, o Diego Costa. Vai chegar mais forte e mordida no Mundial. Eu não tenho a menor dúvida. Mas estou muito preocupado com outras duas seleções. A da Alemanha e da Argentina. Os alemães estão se preparando desde 2010. Agora o time está maduro, forte. Tem uma maneira de atuar que pode sim encarar de igual a igual. Isso para dizer o mínimo. Outro time que me deixa tenso é o dos argentinos. O Messi fará tudo para que seja a Copa de sua vida. Ele vai estar com 27 anos se não me engano durante o Mundial. É o auge de um jogador de futebol. Fisicamente ele deverá estar bem demais. E contará com seus torcedores que invadirão o Brasil. O Brasil precisa saber que terá adversários fortíssimos pela frente. Para mim são esses três, mas não posso nunca desprezar Itália, Inglaterra, Holanda. O nosso fatídico Uruguai. Ou seja: é bom ter aquela adrenalina, a tensão de saber que há adversários poderosos e com competência para ser campeões do mundo. Não ter medo de ninguém. Muito menos entrar na Copa arrogante. Chegar bem preparado, confiante, mas com a noção da realidade. Bom senso é a palavra.

 O Brasil perde seu maior capitão. Carlos Alberto Torres. O homem que mais honrou a braçadeira na camisa da Seleção. O país deve o tricampeonato mundial à sua liderança...

Você observou muito bem o Brasil.

Qual os pontos fortes e o fraco do time?

Eu gosto muito da irreverência, do talento de Neymar. A sua ida para o Barcelona foi providencial. Ele está sabendo utilizar seu potencial para o bem do time. Isso é importantíssimo. Sem querer nunca fazer qualquer comparação, porque ele foi único, Pelé fazia a mesma coisa. Sabia a estrela que era. Mas jogava para a Seleção. Ele elevava o nível dos atletas que atuavam ao seu lado. Isso já está acontecendo com o Brasil atual. Gostei demais da intensidade com que a Seleção disputou a Copa das Confederações. O time marcou todos os adversários ainda no seu campo. Marcou a saída de bola. Sufocou a todos. Principalmente contra Espanha deu uma aula de futebol. Foi muito evidente que tudo o que aconteceu foi treinado. Felipão é ótimo treinador. E sabe como empolgar um elenco. Faz esse papel motivacional com perfeição. Não acho que o time tenha um determinado ponto fraco. Só me chama a atenção do grupo ser muito jovem e não ter atuado muito junto. Os jogadores ainda não têm uma intimidade que é importante na caminhada de uma Copa. Espero Felipão aproveite bem o período de preparação em Teresópolis. Isso é fundamental.

Qual o peso de o Brasil atuar em casa?

Ter a obrigação de ganhar?

É exatamente isso que não pode acontecer. A imprensa deve ter muito cuidado na cobertura deste mundial. Já é uma responsabilidade enorme disputar a Copa. Entrar em campo com a obrigação de vencer todos os jogos é um tormento. Todos sabem que a presença do torcedor brasileiro será massacrante em cada partida. A Seleção tem de se fechar. E não entrar em oba-oba de ninguém. Não deixar ninguém querer tirar proveito dela. Principalmente políticos. Foi o que aconteceu em 1950. Foi criado um clima absurdo, de título antecipado. E deu no que deu. Se menosprezou uma seleção forte como a uruguaia. E veio o desastre no Maracanã. As pessoas parecem muito mais conscientes só que há a necessidade de um grande líder evitando esse excesso de confiança. Esse homem tem de ser o Felipão. Ele é o comandante do time.

Mas Carlos Alberto...Foi justamente ele quem extrapolou.

E garantiu que o Brasil será o campeão do mundo...

O que o Felipão quis fazer foi mostrar a sua confiança no time. O brasileiro estava muito descrente antes da Copa das Confederações. Mas venceu o torneio. E passou a ter confiança total. Somos oito ou oitenta. Ou tudo está péssimo, uma ...Ou tudo é uma maravilha. Não há meio termo. O que o Felipão quis fazer foi passar a sua certeza para as pessoas. Só faltou complementar que, se o Brasil fizer o trabalho certo será campeão do mundo. Isso ele deixará para a concentração, para os jogadores. O Felipão sabe como poucos fechar um grupo. Ele não é nenhum iniciante, alguém inexperiente para garantir o título. Ele foi campeão em 2002 e sabe bem demais o sufoco que é ganhar a Copa. Eu posso acreditar em muita gente iludida, acreditando que a Copa é nossa. Mas não o Felipão. Ele quis apenas motivar o torcedor, seus jogadores. Passar um clima de vitória. Mas tem a plena consciência do quanto terá de trabalhar por ela.

Você concordou com as manifestações?

E com as cobranças em relação aos gastos com a Copa?

Acredito que muita gente misturou as coisas. Se tentou tirar proveito da Copa. Há muita coisa errada no Brasil. E não é apenas não fazendo uma Copa aqui que tudo seria corrigido. Pelo contrário. O Mundial é ótimo em todos os sentidos. Mostra o quanto precisa ser melhorado o nosso país. As reivindicações são justas. Não vou concordar nunca com o vandalismo. Muita gente só tentou tirar proveito político das manifestações. Eu sou absolutamente a favor da Copa no Brasil. E também cobro a melhoria na Saúde, Educação, Segurança. Uma coisa não anula a outra. Muito pelo contrário. Tínhamos estádios vergonhosos. Novas arenas modernas foram construídas. Se o gasto foi exagero, que se puna quem cobrou a mais. Mas não seria esse dinheiro dos estádios que resolveria todos os nossos problemas. O buraco é muito mais embaixo. Vamos ser verdadeiros. Houve muito exagero. Repito: há coisas erradas demais no nosso país. Ninguém vai negar isso. Mas ter um Mundial depois de 54 anos de volta ao Brasil é um privilégio.

Você sempre foi um líder dentro e fora de campo.

Por que não se entusiasmou pelo Bom Senso Futebol Clube?

Sou uma pessoa vivida e sincera. Concordo com o Ronaldo. O movimento é justo, mas elitista. Porque ninguém brigou pelos jogadores de times pequenos. Daqueles que nem disputam o Brasileiro? Só se pensou em Série A e no máximo em Série B. Esse universo é pequeno demais. Fora que ninguém lembro do futebol feminino que é desprezado no país. A briga é pelo calendário dos grandes times, dos grandes jogadores. Também não gostei nem um pouco do movimento surgir agora. Bem perto da eleição da CBF. Não quero falar mais sobre isso. Só sei que muita gente pode tirar proveito dessa confusão, dessa ameaça de greve. Há muita coisa errada no futebol brasileiro. Mas não concordo como as coisas estão sendo levadas pelo Bom Senso. A discussão precisa ser muito mais ampla. Do jeito que está, pessoas estão sendo favorecidas. E não estou gostando, não.

Você foi escolhido como um dos embaixadores da Copa no mundo.

Mas se mostra longe do otimismo coletivo que já domina o Brasil...

Só concorda com esse otimismo quem não viveu todas as dificuldades para ser campeão do mundo. Só eu sei o quanto o nosso time, que era fantástico, sofreu para ser tricampeão no México. O quanto foi difícil manter o foco. Mesmo tendo Pelé, Tostão, Gerson e tantos outros naquela equipe. Por isso faço questão de ser firme. Torcida cantando junto o hino nacional é muito bom. Ganhamos a Copa das Confederações. Mas lembro que tivemos seleções melhores do que a atual que perdeu a Copa. Todos se lembram, por exemplo, do que aconteceu em 1982. Nós perdemos também a de 1950 em pleno Maracanã. Ou seja: é preciso muito pé no chão para o Brasil vencer essa Copa. O Felipão sabe o caminho: humildade e muita luta em campo. Potencial nós temos. Não há nada ganho. Ninguém é campeão com seis meses de antecedência. Ninguém. Nem mesmo o Brasil jogando a Copa na sua casa. Aviso agora porque quero muito ver a Seleção campeã no final da Copa do Mundo no Maracanã. Ajuda vem com cobrança e não só com palmas...
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