O Brasil conseguiu. Humilhou Garrincha vivo. E também o ridiculariza morto. Ninguém acha seus restos mortais.  Este país não se respeita. Merece os corruptos que o governa...

Há uma conjunção de fatos para que o brasileiro sinta vergonha.

Renegue o país que nasceu.

Motivos não faltam.

O IBGE apontou no mês passado: 14,2 milhões de desempregados.

O Ministério do Desenvolvimento Social denuncia: cerca de 27 milhões de pessoas neste país não têm rendimento sequer de R$ 100,00.

A situação é mais do que revoltante.

O Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento traz dados assustadores. Apenas 50,3% dos brasileiros têm acesso à coleta de esgoto. Ou seja, mais de 100 milhões de pessoas utilizam medidas alternativas para lidar com os dejetos. Usam fossas, os excrementos acabam diretamente nos rios.

O último censo, de 2013, revelava 13 milhões de analfabetos. Especialistas em educação calculam que este número deva estar em, pelo menos, 16 milhões em 2017. O Brasil é o oitavo país do planeta com o maior número de pessoas que não sabem ler ou escrever.

O Fórum Econômico Mundial aponta que o Brasil é o quarto país mais corrupto do mundo. Só o Chade, a Bolívia e a Venezuela se atrevem a ter políticos mais corruptos, larápios, indecentes do que este país. Genocidas, porque passaram a roubar centenas de milhões do dinheiro público. Verbas que seriam fundamentais para a Saúde Pública.

Hospitais públicos e cadeias lembram masmorras.

Remetem à Idade Média.

PCC e Comando Vermelho estão presentes na vida cotidiana do brasileiro. Não só nas prisões. Como no Carnaval. Nas torcidas. Na política. Criminosos humilham os governantes, dando aula de organização.

Os grandes centros vivem em clima de guerrilha urbana, com os índices de violência, mesmo com a forte desconfiança de manipulação, subindo a cada vez. A morte é banalizada. Exibida em todos os veículos de comunicação. Qualquer chuva forte provoca enchentes, desmoronamentos, pessoas são engolidas pela lama. Em todo o país, sem exceção. As cenas já não comovem ninguém.

O Brasil assume, com orgulho, seu subdesenvolvimento.

Mergulhado na recessão, as pessoas buscam, o básico.

Sobreviver e tentar cuidar de sua família.

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Com a sociedade desmobilizada, cada um cuidando apenas de si, os corruptos políticos seguem fazendo o que querem. Revelando que não há limite na podridão. Bastou um pouco de real democracia para os escândalos serem revelados. Cada um mais vergonhoso do que outro.

Dentro deste cenário, surge hoje a notícia do sumiço do corpo de Manuel Francisco dos Santos. Garrincha. Depois de Pelé, o melhor jogador de todos os tempos que já vestiu a camisa da Seleção deste país.

Um personagem simplório que o Brasil fez questão de menosprezar. Sugar seu talento fenomenal e depois ridicularizar. Com sua deformação nos joelhos, as pernas tortas e uma força descomunal nas arrancadas, era quase impossível de marcar. Foi fundamental na Copa de 1958 para acabar com o famoso complexo de vira-latas que dominava o inconsciente coletivo, depois da perda da Copa de 1950, no Maracanã.

Jornalistas profetizavam que os brasileiros nasceram para se dobrar aos estrangeiros. Não tinham caráter para protagonizar nenhuma atividade. Estariam fadados a ser coadjuvantes eternos. Na hora da decisão, tremiam. Sentiam o complexo de vira-latas, meros cachorros sem pedigree, frutos de cruzamentos de cães largados pelas ruas.

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Vieram Pelé, Nilton Santos, Didi, Djalma Santos, Zito e Garrincha. Pela primeira e única vez, até agora, um time sul-americano foi campeão do mundo na Europa. Todos foram celebrados, principalmente Pelé, batizado pelos franceses de Rei.

A simplicidade de Garrincha fez com que não tivesse a valorização necessária. Não se importava com o estereótipo que os jornalistas criaram para ele. O deixaram em uma jaula. Era apenas o homem simplório, ignorante, interessado apenas em seduzir todas as mulheres que passassem por sua frente. E que adorava beber até desmaiar. E caçar passarinhos. Quase um retardado.

Quem teve a felicidade de ler o livro Estrela Solitária, um brasileiro chamado Garrincha, vai perceber a mentira que o Brasil consumiu. Garrincha era um homem sem estudos e, principalmente, um doente. O alcoolismo consumiu sua vida desde jovem.

Foi usado sem dó por dirigentes. Enganado em contratos. Passou nas mãos de médicos que deveriam trabalhar como açougueiros. Seus joelhos e tornozelos receberam criminosas infiltrações, que fizeram sua carreira, de verdade, durar 12 anos. Entre 1953 e 1965. O período que jogou no Botafogo. A partir de 1966, virou um fantasma.

Passou pelo Corinthians, Portuguesa Santista, Atlético Junior (Colômbia), Flamengo, Red Star (França) e encerrou sua carreira no humilde Olaria. Nos últimos anos, foi uma triste caricatura, com as articulações consumidas pelas infiltrações. Doping que mascaravam as terríveis dores que sentia. Só as injeções e os porres lhe davam paz.

Vivia inchado.

E frustrado por não poder driblar, usar o talento do início de carreira, bebia cada vez mais. Os torcedores o ridicularizavam, vaiavam. Não tinham pena. Assim como a imprensa da época.

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Sua última façanha para os brasileiros foi o bicampeonato mundial no Chile. Sem Pelé, contundido, Garrincha assumiu o comando do time. Teve atuações primorosas. Exterminou de vez o complexo de vira-latas. Nunca teve em vida o reconhecimento que merecia.

Para piorar, começou um relacionamento com Elza Soares. O casal sofreu todo o tipo de preconceito. Por Garrincha ter abandonado sua família para ficar com Elza. Sem condições físicas para seguir jogando, bebendo cada vez mais, ele foi ridicularizado pela mídia. Acabou morrendo quase como um indigente.

Não bastasse toda essa falta de consideração do Brasil enquanto estava vivo, nem morto, Garrincha tem o direito ao respeito que merece.

Primeiro, veio a 'homenagem'. O estádio mais superfaturado da corrupta Copa de 2014 leva o seu nome. Encravado na capital que abriga os grandes corruptos e genocidas do país, Brasília. Um elefante branco vergonhoso. O estádio deveria custar R$ 600 milhões. E saiu por R$ 1,5 bilhão. Nada menos do que R$ 900 milhões de dinheiro público para políticos e empreiteiras dividirem.

E mancharem no mundo o nome de Garrincha.

Não bastasse esse vexame, hoje chega a notícia que os restos mortais de Garrincha sumiram. A situação é bizarra. Ele foi enterrado em Magé, no cemitério Raiz da Serra. O prefeito da cidade resolveu fazer uma rara homenagem ao ídolo que faria 84 anos no dia 28 de outubro. Descobriu que há dois túmulos com lápides assumindo ser o local onde ele foi enterrado. Só que no registro do cemitério, sua ossada desapareceu.

"Pelo que a gente pesquisou, não se tem certeza de que ele está enterrado. Houve uma informação de que o corpo foi exumado e levado para um nicho (gaveta no cemitério), mas não há documento da exumação", disse Priscila Libério, administradora do cemitério, ao jornal Extra, dono do triste furo.

Ou seja, ninguém sabe onde foram levados os ossos de Garrincha.

Para qual gaveta.

Se foram.

"No local, existem duas sepulturas como o nome de Garrincha. A primeira é coletiva e fica na parte baixa do terreno. É o local onde originalmente Mané foi sepultado, além de outros parentes do craque. Os corpos que as filhas pretendem que sejam exumados são os que se encontram nestes dois jazigos.

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A segunda fica na parte superior do cemitério. Distante 200 metros do primeiro túmulo, foi construída em 1985 pela Prefeitura de Magé, que marcou o ponto com um obelisco. Uma das filhas do jogador, Rosângela Santos diz que a família sofre sem saber onde Garrincha está sepultado.

O corpo de Garrincha teria sido retirado, há cerca de dez anos, do túmulo onde originalmente foi sepultado. Segundo João Rogoginsky, de 70 anos, primo do jogador, outra pessoa da família morreu e precisou ser enterrada naquele jazigo. Ele foi informado, na época, de que a ossada do atleta foi retirada para ser colocada num nicho. Mas João não assistiu à exumação", revela a matéria.

Por décadas, a família de Garrincha esperava por um mausoléu. Políticos prometeram erguer um monumento que o reverenciasse. Não deixasse que a população esquecesse quem foi. Reverenciasse a história do país.

O mausoléu nunca foi construído.

O Brasil conseguiu.

Humilhou, ridicularizou Garrincha em vida.

E também na morte.

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O ídolo que mereceu o apelido de "Alegria do Povo".

Deste povo sofrido, maltratado, vilipendiado.

E que usa o futebol como escapismo, ilusão.

Mas a alegria virou vergonha.

Este país não se respeita.

Merece os corruptos que o governa...

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