1reproducao20 Ninguém pagará pela morte de Kevin Spada, menino de 14 anos morto em um estádio de futebol. Corinthians e Federação Boliviana deram R$ 142 mil para a família. E as organizadas têm a coragem de ainda usarem sinalizadores nos estádio...
Limbert Beltrán tem todos os motivos para estar arrasada.

Foi ele quem deu a permissão ao filho ir pela primeira vez ao estádio.

Kevin queria muito ver o seu time do coração, o San José.

Enfrentaria o campeão mundial, o Corinthians.

Tinha 14 anos, estava cheio de vida.

Animado, feliz, acreditava que seria um dia histórico na sua vida.

Não o último.

Um sinalizador lançado pelas organizadas do Corinthians o matou.

De um forma terrível, que os médicos nem gostam de comentar.

O sinalizador entrou por um olho e despedaçou seu cérebro.

Situação inacreditável.

A despreparada polícia de Oruro começou uma caça irracional após a morte.

Os soldados que deixaram as duas torcidas entrarem com sinalizadores agiram.

Prenderam a esmo 12 corintianos.

Entre eles membros da cúpula das organizadas.

A reação no Brasil foi de consternação.

As sedes de torcida do Corinthians se agitaram.

Gaviões da Fiel, Camisa 12, Pavilhão 9, Estopim da Fiel, Coringão Chopp, Fiel Macabra...

Elas mostraram um poder de mobilização impressionante.

Juntaram dinheiro e pagaram três advogados aos acusados.

Um deles especialista em direito internacional.

Além de um casarão em Oruro para que ficassem em prisão domiciliar.

Queriam de qualquer maneira tirá-los da penitenciária de San Pedro.

Ela foi apresentada como um calabouço.

Mas que tinha orelhão para os brasileiros usarem.

Além de permitir a entrada de comida, roupas, cobertores.

E, lógico, permitir o futebol dos detentos.

As torcidas mobilizaram a direção do Corinthians.

Enquanto a cúpula do clube negava qualquer ligação com os torcedores para a Conmebol...

Agia para junto a políticos.

Vereadores, deputados estaduais, deputados federais, senadores.

Ministros e até o ex-presidente Lula foram contatados.

Protestos foram organizados em frente à embaixada boliviana em São Paulo.

Como se tudo isso não bastasse, a Gaviões apresentou o 'assassino' de Kevin.

Ele tinha um perfil perfeito para a impunidade.

H.A.M. tinha 17 anos, menor.

Não há acordo de extradição entre Brasil e Bolívia.

Se culpado, no máximo pegaria três anos na Fundação Casa, antiga Febem.

E como tem residência fixa e família estável, sua mãe seria a sua tutora.

Poderia cumprir a pena, se houvesse na sua residência.

H.A.M. tem verdadeira adoração pela Gaviões.

Logo após a sua apresentação foi revelado um prêmio da torcida à sua coragem.

Ele poderá escolher a faculdade que quiser.

Há o compromisso da Gaviões bancá-la até sua formatura.

A Polícia Boliviana duvidou da confissão.

E principalmente do laudo que o apresentava como autor do disparo.

Houve o impasse.

Pressão diplomática dos dois lados.

H.A.M. jurava que 'não dormia de noite' tamanha a culpa.

Só que não cogitava ir para Oruro.

Na Bolívia a maioridade começa aos 16 anos.

Lá ele seria preso e poderia ficar na cadeia por 30 anos.

O presidente boliviano Evo Morales resolveu falar sobre o caso.

Considerou exagero a prisão dos 12 brasileiros.

Foi uma opinião pesada demais.

Interferência inaceitável do Executivo no Judiciário.

Absurdo, mas comum na América Latina.

Foi quando José Maria Marin resolveu interferir.

Marcou um amistoso contra a Seleção Boliviana.

A partida seria em Santa Cruz de La Sierra.

"Toda a renda será revertida para a família de Kevin", anunciou Marin.

Só que se precipitou.

A Federação Boliviana aceitou o jogo, mas deu um aviso depois dele confirmado.

A arrecadação ficaria com ela e repassaria o que considerasse justo aos familiares de Kevin.

Revoltando a parte que chegou até os parentes do pobre menino.

Apenas 21 mil dólares, cerca de R$ 42 mil.

A arrecadação do jogo passou do R$ 1 milhão.

Tudo ficaria ainda pior com a libertação paulatina dos presos.

Saíram primeiro sete.

Depois os outros cinco.

Daí a notícia, H.A.M. está liberado, não é mais acusado de nada.

O processo no Brasil foi arquivado porque existe outro processo na Bolívia.

E como no país vizinho não existe interdição, tudo resolvido.

O Corinthians ainda regateou com os familiares de Kevin.

Os mesmos dirigentes que haviam jurado não ter envolvimento com as organizadas agiram.

Prometeram primeiro 200 mil dólares, cerca de R$ 400 mil.

Mas acabaram pagando 50 mil dólares, cerca de R$ 100 mil.

R$ 142 mil pagou a vida do menino Kevin Spada.

Lambert está arrasado.

Sabe que tudo não voltará atrás.

Seu filho de 14 anos está enterrado.

Os 12 corintianos presos em Oruro já estão livres no Brasil.

H.A.M. não será punido.

As organizadas corintianas continuam soltando sinalizadores por onde vão.

"Como eu me arrependo de ter deixado meu filho ir ao jogo.

Não imaginava que iria acabar com a minha família", desabafou à Folha.

"É muito injusto o que acontece.

Vejo que as pessoas são duras, insensíveis.

Acham que o que importa é dinheiro.

Mas não há dinheiro que pague a vida de um filho", resumiu ao Lance.

O final da história é o mais injusto possível.

Porém o mais previsível.

E as organizadas do Corinthians continuam a usar sinalizadores.

Como se nada tivesse acontecida...
2reproducao10 Ninguém pagará pela morte de Kevin Spada, menino de 14 anos morto em um estádio de futebol. Corinthians e Federação Boliviana deram R$ 142 mil para a família. E as organizadas têm a coragem de ainda usarem sinalizadores nos estádio...