Neto. Por trás do personagem que todos adoram odiar. O comentarista polêmico esconde um homem calculista. E que conseguiu mudar seu destino medíocre  em Santo Antônio de Posse...
São Paulo, sexta-feira, 23h30.

Com inúmeras opções que a megalópolis oferece, resolvi ir ao histórico teatro Bibi Ferreira. Construção que presta merecida homenagem à primeira dama das artes cênicas deste país. Tivesse nascido nos Estados Unidos seria uma diva mundial. Canta e representa com perfeição estonteante. Seu pai foi o excepcional Procópio, ator e diretor que revolucionou os palcos brasileiros.

Fui assistir outro Ferreira, no entanto.

José Ferreira Neto.

Aos 50 anos, ele resolveu fazer um stand-up.

No sagrado palco do histórico teatro, Neto, um microfone e uma cadeira que seria desprezada por uma hora e 40 minutos. A sua promessa era ir a fundo nas histórias que não poderia contar na tevê.

O teatro estava lotado.

Neto já entrou para falar com uma camiseta com uma imagem imensa do Shrek. Uma referência a Felipe Melo que o chamou de burro ao ser criticado pelo, há 11 anos, comentarista esportivo da TV Bandeirantes.

O teatro estava lotado, cerca de 300 pessoas o aguardavam com enorme expectativa. Pelo que iriam ouvir. Como também por uma selfie, um autógrafo, um abraço, um beijo, após o stand up.

E Neto provou o quanto Felipe Melo está errado.

De burro, ele não tem nada.

Por trás de histórias picantes, engraçadas, com personagens famosos, o mais relevante foi a história de sua vida. Como conseguiu mudar o destino. Aproveitando cada oportunidade como se fosse a última. E muitas foram.

Aliando instinto de sobrevivência, autoconfiança, senso de oportunidade e muita coragem, mudou seu destino. É o que os norte-americanos celebram de 'self made man'. Ninguém pode ser 'culpado' por Neto. Ele se inventou.

O garoto gordinho que era gandula e vendedor de cachorro quente na pacata e provinciana Santo Antônio de Posse, transformou seu sonho em obsessão. Queria dar conforto, dignidade para a mãe, abandonada assim que ele nasceu. Ele sentimento de culpa nunca o abandonou. Pelo contrário, o empurrou pela vida.

Parou de estudar no quarto ano primário, que não terminou.

Sorte que havia a bola e sua perna esquerda.

O menino decidiu que o futebol seria a sua tábua de salvação. O tiraria de Santo Antônio de Posse. Com 12 anos chegou a Campinas. Começou na Ponte Preta. Mas como o clube não quis mantê-lo no alojamento e garantir sua alimentação. E dar o mínimo apoio financeiro. O Guarani quis. Meio salário mínimo, que recebia com orgulho.

Treinava obstinado sua melhor qualidade. Cobranças de falta. A minha carreira como jornalista me fez acompanhá-lo no auge no Corinthians. Neto teve tanta importância ao Corinthians em 1990 quanto Maradona teve para a Argentina em 1986. Cobri todos os jogos daquele torneio nacional que teve a modesta equipe de Nelsinho Baptista em campo. O treinador, pai de Eduardo Baptista, teve a sapiência de montar seu esquema tático ao redor do meia esquerda.

Neto foi um campeão amargurado.

Por trás do sorrisos, deboches e a postura de dono do time, o que realmente era, havia a frustração pela rejeição no Palmeiras. Aconselhado pelo ex-técnico Leão, o clube o trocou sem piedade pelo limitado meia Ribamar, que atuava no Corinthians. Neto nunca esqueceu o sentimento de rejeição dos palmeirenses. Chorou a bordo de seu Fiat 147 amarelo. E jurou que mostraria a Leão e ao Brasil quem era. Não levou mágoa do São Paulo, por onde teve rápida passagem. Um acidente de carro atrapalhou sua permanência no Morumbi. Mas do Palmeiras, sim.

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Em dezembro de 1990, ao ser campeão brasileiro, chorou emocionado. Lastimava ter sido injustiçado por Sebastião Lazaroni. O treinador não levou em consideração sua excelente fase. Não o levou para a Copa do Mundo da Itália. Era como se no íntimo, Neto soubesse que nunca mais haveria outra chance. A briga constante com a balança, a atração irresistível para a noite, a rejeição à autoridade se juntaram. E sabotaram uma carreira que poderia ter ido muito mais longe.

Não soube capitalizar o ano excepcional que viveu.

Neto tentou ser dirigente.

Não deu certo tanto no Guarani e no Rio Preto.

O primeiro de três casamento já terminara.

Seu patrimônio era dilapidado.

Entrou em depressão.

Era mais um ex-jogador, ex-ídolo de um time popular em sérias dificuldades financeiras e que começava a ser esquecido. Como inúmeros que circulam perdidos pelo país sem memória chamado Brasil.

Precisava se reinventar.

Foi quando sua incrível capacidade de provocar polêmicas, que sempre o atrapalhou como jogador, desta vez foi a responsável por sua reviravolta na vida. Sincero até demais ao microfone, ele exagera, compra brigas desnecessárias, se expõe a previsões que não se confirmam, discute, fala palavrão. Quebra protocolos com seu sotaque caipira.

Criou um personagem que a tevê aberta brasileira assimilou.

E conseguiu comandar um programa diário na Bandeirantes.

De instintivo, Neto passou a ser calculista.614 Neto. Por trás do personagem que todos adoram odiar. O comentarista polêmico esconde um homem calculista. E que conseguiu mudar seu destino medíocre  em Santo Antônio de Posse...

Sabe que o seu público é formado, na sua maioria, por torcedores apaixonados. Que não querem detalhas, filigranas táticas. Análises aprofundadas nas estratégias dos times. O alto nível de creatina quinase, a famosa enzima presente no sangue dos jogadores que demonstra fadiga. Tudo isso não interessa.

Eles querem é a polêmica.

E Neto a serve como prato principal.

Fala como se estivesse sentado com o telespectador no boteco.

Sem filtro.

Trazendo uma coleção de inimigos.

De reviravoltas em sua opinião.

Mantendo a audiência entre 3,5 e 5 que a Band deseja. Neto. Por trás do personagem que todos adoram odiar. O comentarista polêmico esconde um homem calculista. E que conseguiu mudar seu destino medíocre  em Santo Antônio de Posse...

Foi esse personagem que levou para o teatro. E deu ao público o que ele queria. Sem poupar a mulher grávida, a sogra, e principalmente a si mesmo contou histórias, provocou, esqueceu a tensão do stand up em 10 minutos.

Divertiu, se divertiu, prendeu a atenção do público.

Muito sexo, picardia, episódios constrangedores.

Teve coragem para enfrentar a verdade.

Todos os personagens tinham nome e sobrenome.

Os episódios tão realistas que chocavam o público.

Na verdade, manipulou a plateia como todo bom ator.

Espetou quem ousou ficar ou fica no seu caminho.

E revelou intimidade juvenil dos vestiários.

Das festas.

Fugas de concentração.

Felipe Melo. Neto. Por trás do personagem que todos adoram odiar. O comentarista polêmico esconde um homem calculista. E que conseguiu mudar seu destino medíocre  em Santo Antônio de Posse...

Neto tem timing de humorista.

Desenvolveu nos cinco anos que comanda sua atração diária.

Mas o personagem morre no programa, no teatro.

Neto é muito mais inteligente do que demonstra na tevê.

Somem os erros de português.

Desaparecem os bordões repetitivos.

É outra pessoa.

Tem a convicção que preencheu a lacuna de ídolo popular na tevê.

Assumiu ser o Macunaima que todos adoram criticar.

Mas sabe abandonar o seu papel.

O bom senso se revela no homem de 50 anos.

Que precisa cuidar dos quatro filhos, das duas ex-mulheres e da esposa.

Tem a convicção que ganhou a briga com o destino.

Nasceu para ter uma vida apagada em Santo Antônio de Posse.

Filho de mãe abandonada pelo pai policial.

Que não teve constrangimento em ir cuidar de outra família.

Só que Neto mente para si mesmo.

"Eu nunca imaginei chegar onde cheguei", repete várias vezes no espetáculo.

Mentira!

Foi o sonho, a ambição, a perseverança que o levaram onde está.

Imaginou sim ter sucesso no futebol.

Como também quis e conseguiu espaço incrível na televisão.

Detestado, ironizado, criticado, massacrado por puristas.

Mas cujas palavras chegam a milhões de brasileiros.

Todos os dias.

Tem biografia publicada.

Idolatria histérica por onde passa.

Site, blog, comentário pago na rádio.

Se tornou palestrante...

Agora, stand up.

Com teatro lotado.

Conseguiu ir além do que jogadores que foram muito melhores que ele.

Tem um grande patrimônio.

Fama.

Deu conforto à mãe abandonada.

À família.

E até ao pai que virou as costas ao filho.

O gordinho gandula e envergonhado vendedor de cachorro quente está orgulhoso.

Calculista, José Ferreira Neto chegou onde queria...

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